quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

PNEU FURADO E SEM MACACO – Rafael Rocha


Do livro “Contos Delirantes com Versos em Bolero” – 2017
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Como estão hoje os meus companheiros de há quatro décadas?
Lembro de histórias e das mais arrematadas loucuras que fizemos em bando pelas ruas do Recife e de Olinda lá pelos anos entre 1977 e 1980.
Sei que eles não mais estão a fazer aquelas farras homéricas e talvez seja uma tolice cair nesse despenhadeiro e relembrar fatos passados, mas como disse o Zeca, as histórias têm de ser contadas e, além disso, escritas.
- E quem melhor do que você para escrever elas, porra!? - perguntou Zeca.
Não sei se devo carregar a responsabilidade de escrever essas histórias, ainda que estivesse participando do grupo e me aventurando em espaços quase loucos da vida.
- Ao menos uma! - pediu Zeca.
 Sentados no bar Mustang, na Avenida Conde da Boa Vista, numa noite de sexta-feira, logo após sairmos das aulas na Universidade Católica, matutávamos para onde deveríamos ir.
Éramos cinco. Eu, Marcus, Evaldo, Henrique e Gilson.
Lá pelas tantas, ou seja, já depois da meia-noite quando nem havia mais ônibus pelas ruas, Henrique tomou a resolução.
- O Zeca disse que depois de sair da aula iria beber em Olinda. Lá no Bar Maconhão, à beira-mar do Carmo. E que se a gente quiser ir se encontrar com ele... Vamos?
Não precisou nem de votação. Unanimidade.
O problema agora seria achar transporte. Os ônibus já estavam nas garagens e não existia bacurau como hoje a funcionar de hora em hora. Ônibus agora só às cinco da matina
Apenas os táxis notívagos realizavam viagens e esses táxis eram fuscas de cinco lugares com o motorista.
- Vai ser complicado - disse Evaldo - Somos cinco e qualquer táxi só leva quatro.
- Vamos tentar com aquele táxi que está ali parado - falou Henrique – Pode ser que dê certo e ele leve nós cinco. Daqui para Olinda o cara ganha uma boa graninha.
- Problemático... problemático... - resmungou Marcus.
Eu preferi ficar calado e deixar que eles resolvessem o problema.
Henrique e Marcus foram até o táxi e falaram com o motorista por alguns minutos. Este, um senhor magro, cabelos grisalhos, olhou para a gente, pensou um pouco e aceitou.
- Tudo certo - disse Henrique - Eu disse a ele que somos gente fina, estudantes universitários e que queremos ir até Olinda para continuar a farra. Ele aceitou levar, mas fez um pedido: a gente paga um extra para ele.
Nossa sorte, naquela época, foi a de não sermos os roliços senhores que somos hoje devido à idade e às muitas cervejas. A magreza de cada um ajudou.
- Bom! - disse o motorista - O maior e mais forte de vocês vem na frente comigo. Os outros quatro se apertam no banco traseiro.
Gilson era o maior e mais forte. Ele se ajeitou na frente.
A arrumação no banco traseiro não foi muito fácil, mas conseguimos.
Fiquei até a perguntar aos meus botões se nós quatro tínhamos engordado a lataria do carro por mais meio metro.
Dito e feito, depois de todos se arrumarem, o fusca táxi saiu normalmente com sua carga e rumou para Olinda.
Viagem tranquila até que saímos dos limites do Recife e entramos nos de Olinda, quando, logo depois da Escola de Aprendizes Marinheiros, numa área erma, o pneu dianteiro direito estourou.
- Porra! - exclamou o motorista - Que azar! Puta merda!
Tivemos de descer do fusca.
- Vamos trocar o pneu! - disse Henrique - A gente ajuda!
O motorista coçou a cabeleira grisalha. Encolheu os ombros e falou:
- A merda é que estou sem macaco!
- Que beleza! - exclamei - Quero ver agora como vamos sair dessa! E ainda teremos de pagar a corrida até aqui.
Henrique, porém, era cheio de ideias.
- Nada disso! Com macaco ou sem macaco vamos trocar o pneu, deixar o carro ajeitado e ir para Olinda - falou.
- Como? - perguntou Evaldo.
Henrique olhou para o motorista e perguntou:
- Tem as ferramentas para desapertar os parafusos?
- Tenho, sim – apressou-se ele a dizer, abrindo o porta-malas dianteiro, pois o motor do fusca fica na traseira, e de lá retirando um montão de ferramentas, bem como o estepe.
- Ótimo! - exclamou Henrique, arrematando - Agora, vocês levantam o carro aqui do lado direito e eu retiro o pneu estourado, mas vejam bem, vejam bem, fiquem segurando o maldito fusca e não larguem o desgraçado. Não quero que essa lataria despenque em cima de mim.
Fizemos o que ele mandou fazer.
Eu, Evaldo, Gilson e Marcus erguemos o fusca. O motorista ficou ao lado de Henrique para ajudar, e este começou a agir.
Deu algum trabalho desparafusar tudo e retirar o pneu estourado porque o local estava bem escuro e o motorista usava apenas um isqueiro para clarear. De vez em quando o vento que vinha da orla marítima apagava a chama.
Mas Henrique conseguiu retirar o pneu e quando estava prestes a colocar o novo, um automóvel Galaxie preto parou ao lado e dele desceram dois homens com revólveres apontados em nossa direção.
- Parados! Polícia Federal! Fiquem parados e levantem os braços!
- Ninguém levanta os braços, porra nenhuma! - gritou Henrique, deitado no chão ao lado do pneu dianteiro tentando encaixar o pneu novo.
O motorista do táxi saiu do lado de Henrique, levantou-se e se encaminhou até os dois homens. Falou com eles durante algum tempo que pareceram longas horas. As armas continuavam apontadas para a gente.
Mas não largamos o carro. Afinal de contas, o Henrique estava lá em baixo e...
- Eles estão ajudando a colocar o pneu que estourou - explicou o motorista - Estou sem macaco e eles tiveram que levantar o carro.
Um dos homens fez a volta e foi confirmar o que o motorista falava. Olhou, guardou a arma num coldre axilar e disse para o companheiro:
- Relaxa e guarda a arma! Estão mesmo trocando o pneu! Vamos dar uma mãozinha.
Os dois vieram, e ajudaram a levantar ainda mais o fusca, facilitando o trabalho de Henrique.
Depois de tudo pronto, pneu novo colocado, carro no chão...
- Bom, vocês são rapazes corajosos. Ainda bem que fomos nós a passar por aqui. Estamos perseguindo quatro comunistas que fugiram do quartel general lá do Derby. E quando vimos vocês...
Lembro que o regime de governo da época era a ditadura civil/militar.
- Foi isso... Foi isso... - disse o outro homem - Tiveram sorte de sermos nós. Outros teriam atirado primeiro e perguntado depois.
A seguir, entraram no Galaxie preto e partiram.
Ficamos a olhar uns aos outros. Até que o motorista quebrou o silêncio.
- Como é? Vão ou não vão para Olinda?
Voltamos a nos ajeitar dentro do veículo e rumamos para a Marim dos Caetés. Já estávamos loucos para beber.
Chegando na frente do Bar Maconhão, descemos, fizemos a vaquinha e demos o dinheiro ao Henrique para ele pagar a corrida.
O motorista do táxi recebeu o dinheiro, contou, viu tudo certo, deu uma risada gostosa e exclamou para Henrique:
- Imagina! Imagina! Achar que vocês eram comunistas!
E o Henrique, com o rosto escurecido de graxa, inclusive as duas mãos, disse: 
- Nunca mais você vai encontrar comunistas iguais à gente!

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

POETA QUE SE EXPÕE E QUE SE ENTREGA

Prefácio escrito pela escritora e professora Divina de Jesus Scarpim – São Paulo/SP, para o livro “TUDO PODE SER AMOR” do poeta e escritor Rafael Rocha a ser lançado, no Recife, no próximo mês de dezembro de 2019
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Esse foi o segundo livro do poeta Rafael Rocha que li, e nessa segunda leitura senti tanto prazer quanto na primeira.
Desde o começo da leitura - e no livro inteiro - reencontrei a voz que me agradou no outro livro: o poeta-personagem que não se esconde, que se expõe e que se entrega, que me chamou várias vezes para tomar uma cerveja, vendo a vida da mesa de um bar.
Ah, como quis aceitar esse convite!
Quase posso vê-lo em poemas como “Realidade” e gosto dele porque desde sempre e em todo momento ele se expõe, na dor, na fragilidade, nas dúvidas e nas contradições que fazem o caos organizado e o egocentrismo de não se amar.
Rafael Rocha fala de amor - o título do livro deixa claro o tema -, mas o legal é que não é o amor piegas e óbvio, é o amor-confissão sem pejo e com doçura.
Na entrega da intimidade expor a alma não basta, entrega-se fisicamente, sem timidez ou falsos pudores, em toda sua humanidade nada recatada, como no poema “Masturbação”. Ele é humano, e isso é muita coisa.
Para começar, o poema de abertura - “Compulsão” - define amor sem plagiar Camões ou Gregório de Matos, embora em sua sinceridade confessional e artisticamente despudorada penda mais para o último.
E o amor, como o título entrega, é vário e variado, é paralelo e perpendicular, é específico e inclassificável, é o amor não idealizado que toca o cotidiano, é o amor à infância lembrada e perdida - “Instante” –, é o final do amor: a indiferença.
E no poema-título vemos o passar do tempo sem inconformismo, sem perda de esperança, sem raiva, suavemente amor.
A impressão que o texto passa é essa: até a morte pode ser uma forma de amor, porque o amor é pergunta e resposta.
Esse poeta-personagem humano e exposto, como não poderia deixar de ser e de fazer, não oculta e até destaca o sensual, o que é justo, porque sexo e amor, em casos e casos, são um. Por isso o amor é explícito e o sexo também.
Mas não se assuste! Não há o que temer porque a poesia não permite a pieguice, a apelação barata. E os encontros de corpos, no durante e no depois, são louváveis!
Explícito, poético e comovente - como em “Caminhos” - nosso poeta sabe falar de sexo com poesia de qualidade.
E - por ser quem é - não pode deixar de expor sua heterossexualidade explícita, “à antiga”, nas relações em que o masculino está forte e presente nas ações, nas fantasias do homem desejado e esperado pela mulher ávida e sedenta de seus beijos e do seu sêmen.
Ele é o heterossexual que, em “Buracos negros”, faz um belo louvor à mulher.
Ele é o poeta-personagem que na cama a três é o único homem, e é também - sem nenhuma contradição - o heterossexual sem preconceito que sabe ver outra forma de amor diferente da sua, mas igualmente bela. Que sabe admirar essa beleza e que se entristece com o ódio - tão oposto a esse amor - que vê apontado para ele com a intenção de destruí-lo: “Rapazes”.  
No amor, pelo amor e por amor estão presentes, como na vida, muitas coisas, ou muitos amores que podem ser chamados por outros nomes: tempo e morte, histórias completas e belas - como em “Lembranças” -, solidão, desejo do que deixou de existir; uma visita bem-feita a outro poeta: “Parafraseando o Soneto d’Arvers”; a velhice triste que se vê nos próprios olhos e na mesa onde dançam as pedras de dominó.
Há o amor do poeta que analisa a juventude sem distinguir se é a que vê ou sua própria; há versos longos, versos curtos, versos musicais, poemas que imaginam dança; há, na metalinguagem bem-feita, o poema sendo poema e vivendo, tornando-se ele também personagem; e no lindo poema “Memorial” vejo o poeta se poetando!
Há também a consciência política, a crítica social incisiva, a consciência ecológica, a luta no limite que o amor alcança. Lutar por um mundo melhor também é amor. Mesmo o ateísmo é, nesse poeta, o conhecimento de que estão dando a uma outra coisa, nada louvável, o imerecido nome de amor.
No poema “Cataclisma”, num toque de distopia, vejo o sol se apagando sem que o texto perca a docilidade. E, finalmente, a melancolia doce de “Fim de festa” fecha o livro.
Que a gente fecha com a certeza de que não perdeu tempo.
                                DJS
   São Paulo/SP, julho de 2019

terça-feira, 19 de novembro de 2019

EPIGONIA (1968) – Rafael Rocha

Do livro “Poemas dos Anos de Chumbo” – 2017
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O tempo continua escuro e perigoso.
As luzes das ruas estão estranhas
iluminando labirintos.
As histórias dos homens estão mutiladas.
As janelas das casas fecham-se aos curiosos.
As paredes escondem segredos malignos.

A verdade desconhece as palavras
e todas as suas onomatopeias
(o tempo é perigoso para defini-las).
Os poetas estão confusos nas sombras.
Devagar os malignos tomam conta do alfabeto.
Ciladas e embustes são criados
para submeter a raça humana aos lobos.

Enquanto abismos estão à espera dos homens
as conquistas milenares buscam o rumo do suicídio
nos lugares ermos e comuns do tempo.

O tempo...
Ora, o tempo...
Ninguém consegue neutralidade
nos labirintos dessas ruas
e o homem não sabe mais fugir dos perigos.

1. DO SER E ESTAR – Rafael Rocha

Do livro “ENCÍCLICA DOS HOMENS (Encyclicae Hominum)” - 2019
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1. Cá estou nas ruas, olhando homens escravos da cruz e das orações, que seguem ordens dos representantes de um deus inexistente.
2. Cá estou nas ruas, discutindo com a poeira minha intenção de ser e de estar.
3. E vejo que moro numa babel repleta de escravos. A imundície da crença é total, e a morte é a filosofia/ideologia dessa crença.
4. Está tudo tão claro - aos olhos dos homens - de onde chegam e para onde vão essas coisas!
5. Quero fugir dessa hipocrisia de cruzes e de orações vazias e habitar lugares realistas.
6. Pelas ruas caminho lépido, ainda que tenha medo/pena de olhar mulheres, homens e os corpos famintos das crianças de rua. Também tenho pavor dos igrejeiros. Fico aterrorizado com as suas falas traiçoeiras, que tentam encarcerar meus atos de humanidade.
7. Eis, então, os homens sem compromisso humano! Por causa deles somos incapazes de defender até um mísero grão de areia. Eles sobem aos púlpitos e se fazem governo. Reduzem nossos sonhos a cinzas. E a humanidade fica ignorante, acatando as mentiras dos dogmas das igrejas e as leis dos parlamentos, criadas por uma sociedade caduca.
8. Eles são ladrões dos nossos caminhos e das nossas vidas e provocam dor e lágrimas nos lugares onde nossos pés desejam pisar.
9. Hoje estamos envolvidos pelas promessas vãs de momentos melhores e proteções “eternas e santas” em um ignoto além. Tudo mentira! Não devemos acreditar nessas invenções.
10. Prefiro a algazarra de um boteco em uma das ruas do meu bairro, cigarro numa mão, copo de cerveja em outra, escutando a canção mais antiga do mundo: aquela que traz lágrimas aos olhos. Vendo o povaréu da mais pura ignorância a zombar de mim como se eu fosse um filósofo bêbado e excêntrico. 
11. Lágrimas caem de meus olhos. Ardentes! Querem ser lavas vulcânicas. Rubras. Têm voos de estrelas cadentes. Querem frutificar a terra. Querem luzificar a lua. Lágrimas lacrimais. Ardentes águas. Têm gostosas ações de sexo e de prazer na liquidez. Elas querem que os homens e as mulheres sejam mais donos de si mesmos e das suas paixões, e mergulhem de corpo e alma no viver intensamente.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

CAMINHO DAS PEDRAS – Rafael Rocha

Do livro “SANGRAMENTO” incluído na coletânea “POETAS DA IDADE URBANA” - 2013
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No caminho das pedras
Escrever é um culto
Aos deuses dos vazios
Dos sem limite a ser.
Um verso claro e duro
Sempre busca abrigo
Mesmo inimigo
A sepultar o ritmo
Do prazer.

O verso livre existe
Germinado em pedras
Maciço potentado
Liberto e sem raiz
De futuro e de passado.
Faz do amor verniz
E na madeira bruta
É desabrido e ousado
Deixando cicatriz.

Escrevo nas pedras
Marcando o caminho
De todas as origens
Seja em guerra ou em paz
Retratadas nas heranças
De todas as viagens
As palavras voam
E os versos soam
Todos imortais.

LOUCURAS DA INSÔNIA – Rafael Rocha

Do livro “Felizes na Dor – Tributo ao poeta Charles Bukowski” – 2016
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loucuras de um insônico
ou do bêbado contumaz
louco para sentir a umidade
de uma buceta rosada
e de uma língua macia
a lamber minha genitália

tesão de mulher da rua
a puta que sentou
à minha mesa de bar
tinha peitos grandes
e mamilos grossos
como meu dedo mindinho

branca, branca, branca
assim era Pérola, a puta
do bar gambrinus
branca, branca, branca
tinha desejos felinos
buceta peladinha e linda

loucura de um sem sono
lá ia meu corpo na busca
da pele de Pérola
em quase todas as sextas
que eram mais feiras
que nas vésperas de sábados

fiquei velho e dizem:
“Pérola está gorda
e bebe como uma sedenta
as cervejas e cachaças.
Pérola não é mais branca
e agora tem a buça cabeluda”.

ah, essa insônia para ter
e trazer lembranças...
a minha mesa continua
esperando pelas pérolas
brancas, brancas, brancas
e pelas lindas e peladas buças.