quinta-feira, 10 de outubro de 2019

A ÚLTIMA DAMA DA NOITE – Rafael Rocha


Oitavo capítulo do romance lançado no ano de 2002
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Do diário de Jurandir Farias:

Ela não morreu de uma hora para outra como se imagina. Foi uma morte gradual, lenta, como se o tempo não desejasse seu morrer antes que todos os sopros e ventos deste mundo conhecessem melhor seu corpo.
Sabia, sim, estava partindo de vez, mas as únicas reclamações a sair de sua boca diziam respeito ao abandono em que se achava relegada: “Eu, eu, eu, logo eu, a mais famosa, a mais procurada, a mais badalada madama...”
Chamou-me ao seu leito de morte ali mesmo no prédio da Rua Vigário Tenório.
No dia 29 de dezembro de 1986, pus-me em contato com odores acres de velhice, mofo, rato e baratas no antes mais limpo puteiro da zona. Conhecedor daquela pensão em seus melhores dias, fiquei estarrecido ao notar o abandono em que se encontrava a casa.
E recordei ocasiões anteriores... Seresteiros reunidos no grande salão/bar, encantando os fregueses com canções da época e as mulheres da noite vestidas com suas melhores roupas, maquiadas e vivazes... E, com o passar dos anos, devido ao progresso, os violões e cavaquinhos substituídos pela famosa radiola de ficha.
Tudo nesse local falava de amores passageiros, paixões desvairadas e desejos carnais, tentando desobrigar das responsabilidades da vida, homens, mulheres, sapatões, viados e coisas mais.
Porém, era um antro gerador de sonhos e muitos romances criaram asas no ambiente, como o do coronel do Exército, Ernani Mastrogallo e a louríssima Mércia Silene.
Foi uma paixão avassaladora.
A menina da noite contou a Maria Rosa como estava sendo assediada pelo militar e ficou surpresa ao ver a madame sorrir.
Silene perguntou se isso era possível e se a mainha estava disposta a perder sua companhia por ela estar amando, recebendo duas perguntas em troca, às quais nunca conseguiu responder:
− Menina, seus sentimentos são sentimentos de muié ou de puta? E uma puta é bicho ou muié?
Um mês depois, a louríssima Silene abandonava a pensão da Vigário Tenório e, junto com o coronel Ernani partia para a cidade de Florianópolis, onde ainda hoje vive, cercada de filhos, netos, e proprietária de uma fazenda onde se cultiva soja e se faz criação de gado.
Esse foi um dos pormenores contados pela mainha antes do seu encantamento. Uma das coisas a fazê-la rir e chorar ao mesmo tempo, ligada à felicidade alcançada pela afilhada ao partir para essa aventura, e à dor de imaginar que tinha perdido um pedaço de si mesma.
“Por isso me senti iguá a Silene, partindo pro desconhecido. Também fiz isso e só ganhei dissabor”, foi um pedaço de sua confissão.
Vendo assim o seu tempo sendo colocado para escanteio, passou a falar depressa demais, e as histórias criavam liames umas com as outras, quase me levando a imaginar seu cérebro saindo das engrenagens.
De repente, às dez horas da manhã, sentou-se na cama e segurou meu rosto com suas mãos esqueléticas, exclamando: 
− Também matei gente, meu !... Isso incomoda tua mainha! Tenho um medo tão grande de partir p’ôtro mundo com esse pecado... Perciso de um padre pra me sarvar! Oh, Deus!...” 

OLHOS ABERTOS PARA A MORTE – Rafael Rocha

Nono capítulo do livro homônimo lançado no ano de 2012 – Agraciado com Menção Honrosa pela Academia Pernambucana de Letras (APL) – Prêmio Vânia Souto Carvalho (2011)
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A noite estava fria.
Nos morros e campos do quartel do 14º Regimento de Infantaria, Fernando entrava em mais um dia de treinos.
Há alguns meses servia ao Exército.
O pai chefiava o grupo no qual ele e mais cinco rapazes estavam inscritos.
Todos tinham familiares nas Forças Armadas, mas aquele grupo se preparava para ingressar numa tropa especial que viajaria aos EUA dentro de alguns meses, com o objetivo de realizar outro tipo de treinamento.
Fernando Clemens, Glauco, Rômulo, Saraiva e Ximenes, respectivamente, soldados 41, 53, 58, 67 e 72, lutavam para ultrapassar a noite friorenta vestidos apenas de sunga.
Descalços, corriam pelos morros, observados pelo agora general Wellington Clemens, acompanhado nessa ocasião pelo capitão de Exército dos EUA, O’Higgins Leary, que seria dentro de alguns dias o comandante do grupo.
O norte-americano mostrava satisfação com o que via.
Em um português arrevesado disse ao general Clemens: “Eles são bons! O senhor soube treiná-los, general. E o seu filho é muito especial”.
O general mostrou satisfação com o elogio. “Desde pequeno ele vem sendo treinado para ser um exemplo de soldado, capitão”, exclamou.
“Em nossa base eles terão muito trabalho para fazer. Vão aprender também a matar inimigos. Matar sem piedade. Espero que estejam preparados para isso”, redargüiu o ianque.
“Garanto que eles estarão preparados capitão. Bastante preparados”, anuiu o general.
O fim da madrugada encontrou os cinco rapazes com os pés cortados e os corpos dilacerados pelos espinhos do mato. Ainda assim não mostravam resquícios de que estivessem sentindo dores.
Ninguém reclamava. O general Wellington Clemens deu por encerrado o exercício às 5 da matina.
Após tomarem banho e vestirem a farda os recrutas retornaram ao pátio, ficando postados como sentinelas sem mover um músculo durante uma hora, um ao lado do outro. 
Ao fim desse período foram liberados para descanso.