Meio
a Meio (poesias); A Última
Dama da Noite (romance); O Espelho
da Alma Janela (contos); Marcos
do Tempo (poesias); Olhos
Abertos para a Morte (romance); Poetas
da Idade Urbana (poesias em parceria com os poetas Genésio Linhares e
Valdeci Ferraz); Felizes na Dor –
Tributo ao poeta Charles Bukowski (poesias); Contos Delirantes com Versos em Bolero (contos e poemas); Abismo das Máscaras (poesias); Poemas dos Anos de Chumbo
(poesias); Loucura (poesias); Andanças (romance); Farol
(poesias).
Este é um espaço para divulgar contos e poemas de minha autoria já publicados em livros.
domingo, 4 de agosto de 2019
FLACIDEZ – Rafael Rocha
Do
livro “Felizes na Dor – Tributo ao poeta Charles Bukowski” – 2016
.............................
era
para ser ela a conquistada
a delícia da cama
bebendo seu vinho tinto
na última festa do ano
sob o pipocar dos fogos
e às luzes das girândolas
era para ser eu o conquistador
o pênis erectus
a imobilizar seu vértice
e a dardejar as porras
acumuladas durante o dia
dentro de seu ventre
merda!
eu só tinha saboreado
quinze garrafas
era para ficar atento
acordado...
MODO PRÓPRIO – Rafael Rocha
Do
livro “Loucura” – 2018
......................
adormece
e o mundo inteiro
morre
só no acordar
a vida renasce
e assim
vai à loucura
intensa e total
descobrir a vida
dormindo
e acordando
o manto da noite
tem pingentes
luminosos
com nomes de
deuses
e de animais
é um feitiço a
canção
feita para
estrelas
como se metáfora
fosse a esperança
de um porvir
inominável
manhã
sem pingentes
luz branca e
total
árvores verdes
é renascimento
uno
ao sair da cama
e ver o tempo
vivo
e até mais insano
de quando o ontem
era escuridão
no ínterim
dos momentos
a mulher
na memória
baila
dentro de uma lua
o homem esconde
seu senso
feminino
e beija algum
louco
para poder
ser beijado
na fantasia
dele mesmo
a imaginação cria
a fantástica música
de um retorno para outro vazioquinta-feira, 1 de agosto de 2019
TREZE ESTRELAS – Rafael Rocha
Do livro
“Farol” – 2019
.......................
No céu dos homens
famintos
treze estrelas iluminaram
rios/planaltos/corcovados.
Até as vidas dos homens ímpios
receberam seus brilhos.
Hoje o céu está sem as estrelas
e meteoros incendiários
preparam a pulverização
dos rios/planaltos/corcovados.
Os famintos ficam mais famintos
na escuta do riso dos ímpios
a se fazerem donos dos céus,
apagando
as luzes das treze estrelas.
A ÚLTIMA DAMA DA NOITE – Rafael Rocha
Quinto capítulo
do romance lançado no ano de 2002
...............................
Marco
Cícero soube da proximidade do encantamento de Maria Rosa exatamente quando
deslizava em sua cadeira de rodas do quarto para a sala de estar em busca do
café da manhã.
A
fumaça branca o alcançou na sala e um cheiro adocicado de ameixas invadiu suas
narinas. As lembranças o acordaram ainda mais.
Adiantou
a cadeira de rodas até a varanda e ali se deixou ficar imóvel com as
lembranças.
Sua
filha Marly o alcançou e ficou a seu lado. Ao olhá-la, ele viu nos olhos da
moça o espanto de quem não entende mistérios e muito menos realidades
fantásticas. Um sorriso bailou imperceptivelmente nos lábios e fê-lo acariciar
as mãos da filha. Assim, ambos ficaram envoltos pela fumaça e por odores
estranhos exatamente às seis da matina.
O
semblante de Marly buscava enfrentar os olhos de Marco, mas ele os fechara para
mergulhar nas reminiscências. Respeitando o pai e sua história de vida, ela
acariciou levemente o rosto do homem e o deixou solitário na varanda.
Recordava...
Quem eu quero não me quer/ Quem me quer
mandei embora / E por isso já nem sei / O que será de mim agora...
Os
dedos percorriam o violão com grande intimidade. O instrumento musical era o
corpo da mulher amada, e as cordas os sentidos.
A
música a voejar no ar se esvaía no prazer de ter sido criada, manipulada e
acariciada com a experiência de dedos e mãos tão mágicas.
Os
frequentadores do bar se deixavam levar pela voz de Marco Cícero, como
hipnotizados.
As
mulheres da vida esqueciam, por instantes, que estavam a vender o corpo e se
entregavam por inteiro ao prazer da melodia triste e plangente, levada às
janelas dos puteiros, onde desaparecia sobre os clamores de gemidos, ais e uis e dos rangidos das molas das velhas camas patentes.
Passo as noites meditando / Revivendo
meu castigo/ No meu quarto de saudade / Solidão mora comigo...
Os
olhos de Marco pousaram na linda mulher de pele branca e grandes olhos
castanhos a espiá-lo na mesa defronte, e seus dedos quase esqueceram a melodia
a dar sequência nas cordas do violão.
Soube
naquele instante: tinha alguém para usufruir a noite consigo.
Viu,
num relance, os olhos da fêmea oferecendo a mensagem de que seria sua companhia
noturnal até as estrelas desaparecerem do firmamento.
Por onde anda quem me quer? / Quem não
me quer onde andará?/ O que será da sua vida? / Da minha vida o que será?..
Levantou-se e, dedilhando o violão, dirigiu-se para os
olhos de Maria Rosa que o fitavam embevecidos, com brilhos insinuantes de
lubricidades inconfessáveis. Ambos saíram do bar lado a lado, dobrando numa das
ruas transversas à Avenida Marquês de Olinda, em direção à Vigário Tenório.
Os
fregueses do boteco de Tião Marinheiro ficaram a escutar a voz de Marco Cícero
a se distanciar, e depois deram vazão aos seus instintos, levando os copos
cheios de cerveja às bocas, acendendo cigarros, dando risos pueris e fazendo sinais
às meninas da noite, que só então
começavam a “fazer sala” para eles.
Não sou capaz de ser feliz / Nos braços
de um amor qualquer/ Ah, se uma fosse a outra/ Que eu amo tanto e não me quer.
Porém,
os desvarios sexuais na grande cama de casal da madame quase põem Marco Cícero em pandarecos. Acordou
na manhã seguinte com os raios do sol a entrar pela janela do quarto da pensão.
Vendo-se
sozinho e nu, com a carne do corpo lacerada pelas unhas cortantes da mulher,
amaldiçoou a hora em que a conhecera e se deixara levar pelos seus encantos.
“Devia estar muito bêbado! Ora, porra!
Que papel de burguês de merda estou fazendo! Caralho!”
A
porta se abriu inundando de luz o aposento, e Marco Cícero ficou embevecido com
a aparição.
Nua,
com os seios de mamilos pontudos e arrebitados, Maria adentrava o quarto com
uma bandeja cheia de comida nas mãos, onde também se via um estojo de primeiros
socorros.
A
pele macia e branca da fêmea mostrava ao homem que ele não tinha se enganado na
escolha da beleza para aquela última noite.
E,
ainda mais, o cheiro a sair do corpo feminino começava a deixá-lo em transe ou,
melhor dizendo, como um animal no cio.
Maria
Rosa notou tudo isso.
−
Coma primeiro pra ficá mais forte. Que ôme!
Quase me mata na noite passada. Fudedô
do cacete tu é, visse?
−
Esquece a comida. Não tenho fome alguma. É você...
−
Eu sei... Sei... Mas será muito mió cumê
o que eu trouxe e deixar que eu faça uns consertos nesses arranhões. Desculpe,
mas fui obrigada a enfiar as unhas em tu antes da minha perseguida cair abaixo,
visse?
−
Você é linda! Você é...
− Dispois... dispois... dispois... Seje
bonzinho e coma pra fica fortinho. Sou tua sobremesa, certo?
A
sobremesa, na realidade, foi um “repasto” nunca experimentado por Marco Cícero.
As
carícias feitas em seu corpo pela experiente mulher colocaram o rapaz em estado
de excitação tão desesperado, que via até formigas deslizando nas paredes e
entrando em trabalhos sexuais.
Quando
se compenetrou que deveria dar sequência aos trâmites da verdadeira paixão,
sentiu a mulher tentando por todos os meios fugir do seu contato. Mesmo assim
ele a buscava, sedento e faminto, querendo conhecer seus ardilosos segredos,
mergulhar nos recônditos mistérios. Sabia-se um bom amante, mas naqueles
instantes matutinos estava se superando em todos os sentidos. O desejo escorria
por suas vísceras como as águas do Capibaribe no encontro com as do Beberibe,
buscando as espumas do mar.
De
repente, notou como a mulher enfraquecia suas defesas, enfiava-se com tudo e
quase toda dentro dele, agoniada, molhada, deslizante, suada e praticamente
vencida.
Escutou
o grito furioso de fêmea no cio, o gemido longo e gutural, seguindo-se o
orgasmo mais fantástico que ele nunca vira na vida. Pela boca, pelos olhos,
pelas narinas e pelos outros orifícios do sinuoso corpo, Maria Rosa soltava
longos e odoríficos vapores de fumaça branca e o envolvia num abraço mágico e
atordoante.
Voltando
de suas reminiscências, Marco Cícero, antes de chamar sua filha e pedir que
pusesse a mesa para o café da manhã, exclamou:
− E
agora ela está morrendo! Como é que pode morrer uma mulher como essa? Como é
que morre uma mulher como essa?...
OLHOS ABERTOS PARA A MORTE – Rafael Rocha
Sexto capítulo do livro homônimo lançado no ano de 2012 –
Agraciado com Menção Honrosa pela Academia Pernambucana de Letras (APL) –
Prêmio Vânia Souto Carvalho (2011)
...............................
“Como é seu nome?” “O que você quer de mim, hein?” “Diga-me seu nome”. “Merda! Onde é que
estou? Quem é você?” “Confirme seu nome”.
“Tira essa luz de minha cara! Tira!” “Você
não tem poder aqui dentro. Diga seu nome”. “Sérgio. Meu nome é Sérgio”. “Quero o nome completo. Diga”. “Que
diabo é isso? Que é que você está querendo comigo?” “Seu nome, rapaz. Seu nome todo”. “Sérgio Lira. E agora? Pode
explicar o que significa isso?” “Se você
for inteligente vai descobrir logo. O que é isso aqui?”
Uma valise foi jogada sobre a
madeira carcomida da mesa que se encontrava em frente ao rapaz. Ele tentou sair
da cadeira, mas naquele instante notou que estava acorrentado a ela. As mãos
presas nos braços do móvel. Sua cabeça começou a doer devido à pancada que
tinha levado. Assim, um tanto zonzo, buscava entender o significado daquilo.
De repente, as luzes foram
acesas. Incomodado com a claridade repentina, ele piscou os olhos. Viu três
homens. Dois deles eram altos e cheios de músculos. Estavam sem camisas, mas
tinham os rostos escondidos por capuzes negros. Sérgio começou a imaginar que tudo
aquilo era um sonho. Estava habitando algum pesadelo, vendo imagens de
carrascos da Idade Média. Logo a seguir, descobriu que tudo era real. O homem
sem máscara - magro e totalmente vestido de negro - se aproximou dele e o
esmurrou no queixo. Viu milhares de pontos estelares. “Isso não é brincadeira. Não pense que é brincadeira”.
Pôde ver então quem era o homem a
interrogá-lo. Magro. Olhos grandes e frios como os de uma ave de rapina. Sentiu
um sabor quente a deslizar pelas comissuras dos lábios. Sangue. Seu sangue. Um
dos homens pegou um livro de capa azul que estava sobre a mesa e mostrou para
ele. “O que é isso?”, perguntou o
homem magro. “Um livro”, respondeu Sérgio. “Sei
que é um livro. Não sou cego. Diga que livro é esse. Diga”. Com os olhos
ofuscados devido à claridade da sala, ele fitou a capa do livro. Quase deixa
escapar uma gargalhada. “O livro não é meu. É emprestado”, salientou. “Não quero saber disso! Quero que você diga
que livro é esse”. Os olhos de Sérgio piscaram, olhando do livro para o homem
magro. Notou que além dos olhos de ave de rapina, seu interlocutor tinha um
nariz adunco, parecido com o bico de algum pássaro maldito. Observou que os
olhos do homem permaneciam fixos nele. “Que
livro é esse?”, escutou outra vez a pergunta. “História da Riqueza do
Homem”, respondeu. “É para um trabalho da faculdade”. “Uma faculdade de Direito recomenda um livro desses? O tema não tem
nada a ver com Direito.” “Não, não recomendou. Tomei emprestado de um
professor”. “Qual professor? Esse
professor tem nome?”
Sérgio baixou os olhos. Ficou
calado. Dessa vez o homem não foi complacente. Fez sinal a um dos musculosos
encapuzados, que, num átimo, agarrou o dedo mindinho da mão direita do rapaz e
violentamente o dobrou para trás, quebrando-o na base. O grito de Sérgio
balançou até as lâmpadas da sala. Um brado animal de dor como ele nunca tinha
dado. O suor começou a escorrer por sua testa. A dor subia pelos músculos do
braço até alcançar o cérebro, que começou a latejar de medo. Sua cabeça parecia
que ia explodir para dentro.
“Vocês, estudantes de hoje, são engraçados. São uns otários alienados.
Tanta gente por aí pedindo a obediência e respeito e vocês jogando fora a
obediência e o respeito”, exclamou o homem magro. A dor impedia Sérgio de
falar. Lágrimas escorriam dos seus olhos e se misturavam com o suor do rosto. A
imensa dor que estava sentindo fazia com que ele deixasse de entender os fatos,
as palavras, e tudo o que aquele homem dizia.
“Gostaria de saber que tipo de trabalho a faculdade manda vocês fazerem
em cima de um livro assim”, continuou o homem magro a dissertar. “Também gostaria de saber sobre esse
professor amigo seu. Aquele que emprestou a você o livro. Gostarei muito de
conhecê-lo”. Sérgio não conseguia
juntar palavra com palavra, mas já estava começando a entender alguma coisa.
“Merda!”, pensou. “Que desastre! Preciso sair dessa! Preciso!”
“Eu também gosto muito de ler, sabe? Tenho muitos livros em casa. Acho que você
gostaria de saber que meu livro de cabeceira é um livro especial. Adoro ler esse
livro, mas não vou dizer o nome dele. Você vai descobrir por si mesmo quando eu
começar a trabalhar em você, rapaz”. O homem magro acendeu um cigarro e fez
a fumaça escapar de encontro ao rosto de Sérgio. Depois, acenou para os dois
outros homens encapuzados. Estes aquiesceram. Pegaram Sérgio pelos braços e o
desacorrentaram. A seguir, levaram o rapaz para um catre existente no canto da
sala, deitando-o no mesmo e novamente prendendo-o, com os braços abertos para
cima, pernas também abertas. Tanto os braços como as pernas foram algemados nas
cabeceiras do leito. O corpo ficou com a forma de um grande X. Depois, despiram
o rapaz.
“Dentro de algumas horas a gente vai conversar muito,
meu jovem”, escutou a voz do homem magro ao pé de um dos
seus ouvidos. “Espero que você seja inteligente e responda bem direitinho a tudo que
eu vou perguntar. Caso contrário os seus outros dedos vão sofrer mais, muito
mais do que esse”. Dito e feito, o homem magro agarrou o dedo mindinho
quebrado de Sérgio e ficou a mexer com ele para lá e para cá. O rapaz começou a
gritar feito um alucinado. A urrar de dor como um endemoninhado. O homem magro
riu e soltou o dedo mutilado. A seguir deu uma tragada forte no cigarro,
jogando a fumaça novamente de encontro ao rosto do jovem. “Fique pensando no que vai contar para mim. Voltarei daqui a pouco”.
ESPERA – Rafael Rocha
Do livro “Abismo das Máscaras” – 2017
.........................
Aguardo que uma
mulher
com parecença de
deusa
passe perto de
mim a qualquer hora.
Que seja bela
como uma Afrodite
e musical como um
tema de Beethoven.
Espero o
desfraldar de suas bandeiras
quando eu erguer
um brinde à sua vinda
ainda não sabendo
quem ela seja
se boa ou se má
ou se estranha ou excêntrica.
Aguardo uma
mulher bastante propensa
a se imiscuir nas
minhas linhas paralelas
a qualquer hora
do dia ou da noite.
Que deixe a
virtude de lado
e seja mais uma
puta
deglutindo minhas
ideias provisórias
e recriando meus
poemas
nas embalagens do
nascer do sol.
Estarei disposto
a ser a nova experiência
de seus espaços
molhados
e de propagar
para outros homens dispersos
suas loucuras de
conquistadora
e fazer o mundo
se vestir a rigor
homens/pinguins
no gelo
a esperar, a esperar, a esperar...
ÓCIO DO SÁBADO LOUCO – Rafael Rocha
Do livro “Meio
a Meio” - 1979
...........................
Meu humor está
mal-humorado
neste sábado...
Por onde andam as
amigas
que não vêm
bem-humorar o meu humor?
Andam por aí,
bêbadas de cama?
Bêbadas de
orgasmos?
Bêbadas de suor?
Por onde andam
meus amigos
que vêm
bem-humorar o meu humor?
Andam por aí,
bêbados de vertigens?
Bêbados do vazio?
Bêbados do só?
Meu humor está
cheio de bile neste sábado...
Não há cerveja.
Não há boemia.
Nem poesia de
cama.
Nem poesia de
bar.
Este sábado está
louco.
Vai matar-me de ócio este sábado.
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