sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

MARCAÇÃO LOUCA – Rafael Rocha


Do livro “SANGRAMENTO” inserido na coletânea “Poetas da Idade Urbana” - 2013
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Pássaros no espaço voejam
Com destino a qualquer lugar
As plantas nocivas vicejam
Em conluio com a cor do ar
O relógio marca apenas horas
No estrada da vida a passar
O copo de cerveja perde o gelo
E o cigarro começa a se apagar
De tudo restam cinzas ou degelo
No rastro dos pássaros no ar
Uma palavra faz um só apelo
A este escrevinhar

Dizem restar amor nos solos
Dizem restar cantos no ar
Dizem acabar gelo dos pólos
Dizem tudo quase sem pensar
Nesses dizeres alguém ainda grita
Sonhos sem rotas concretas
Sonhar é a ideia perdida
Nas mentes loucas dos poetas
Onde a cor da palavra se agita
Onde a dor do amor anda a ver
A atitude de pressentir a vida
Quando escrever

As plantas nocivas vicejam
Em conluio com a cor do ar
Tanto como metáforas ensejam
Passar e viver. Viver e passar.
Minutos também são de relógios
Marcam instantes ao relembrar
Recriando outros mil imbróglios
Vendo o cigarro a se apagar
Pássaros no espaço voejando
Segundos também vão se marcar
Cinzas e degelos vão restando 
Neste poema a se findar

sábado, 14 de dezembro de 2019

SOBRE O ESCRITOR, JORNALISTA E POETA RAFAEL ROCHA


Rafael Rocha Neto ou Rafael Rocha ou simplesmente Rafa é brasileiro.  Nasceu em Olinda/PE, em 1º de outubro de 1949, mas foi registrado como sendo natural do Recife, capital de Pernambuco. Filho de Irene de Almeida Rocha e Ivanildo Lins Rocha lançou seu primeiro livro, intitulado “Meio a Meio” (poesias) no ano de 1979. É casado com Mailde Gomes da Silva Rocha e pai de Rodrigo Gomes da Silva Rocha e Rafael Gomes da Silva Rocha. Em 1986, foi agraciado com Menção Honrosa pela Academia de Letras e Artes de Araguari (Minas Gerais) pelo conto “Grãos de Terra Sobre”.  No ano de 1989, cinco de seus contos foram premiados pela Fundarpe – Fundação de Cultura do Estado de Pernambuco, juntamente com outros três novos escritores, sendo lançados numa antologia intitulada “Novos Ficcionistas Pernambucanos”. Também nesse ano de 1989 foi agraciado pela Academia Pernambucana de Letras (APL) com o prêmio Leda Carvalho (1988), pelo seu livro de contos “O Espelho da Alma Janela”. No ano de 2011 foi novamente laureado pela Academia Pernambucana de Letras (APL), dessa vez com Menção Honrosa, prêmio Vânia Souto Carvalho, pelo seu romance “Olhos Abertos para a Morte”. O autor é bacharel em jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e exerceu a função de jornalista nos jornais Diário de Pernambuco (1989/2014), Jornal do Commercio do Recife (1979), e na Editora Comunicarte, em 1981. Foi assessor de Imprensa na Secretaria de Transportes do Estado de Pernambuco (1986/1997) e no Departamento de Estradas de Rodagem (DER/PE) nos anos de 1995 a 1997.
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Quinze livros já lançados
Meio a Meio (poesias); A Última Dama da Noite (romance); O Espelho da Alma Janela (contos); Marcos do Tempo (poesias); Olhos Abertos para a Morte (romance); Poetas da Idade Urbana (poesias em parceria com os poetas Genésio Linhares e Valdeci Ferraz); Felizes na Dor – Tributo ao poeta Charles Bukowski (poesias); Contos Delirantes com Versos em Bolero (contos e poemas); Abismo das Máscaras (poesias); Poemas dos Anos de Chumbo (poesias); Loucura (poesias); Andanças (romance); Farol (poesias); Encíclica dos Homens – Encyclicae Hominum (poesias); Tudo Pode Ser Amor (poesias).

BAS-FOND – Rafael Rocha

Do livro “Felizes na Dor – Tributo ao poeta Charles Bukowski” – 2016
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é grande essa vaidade
de ser homem
e de fuder todas
e tentar escrever um verso
sobre um tema
assim tão complexo
uma cerveja gelada
seria ótimo agora
para fazer descer goela
abaixo
as putarias da vida.

2. DO EMBALO DA SOLIDÃO – Rafael Rocha

Do livro “ENCÍCLICA DOS HOMENS (Encyclicae Hominum)” - 2019
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12. Sentir a solidão é algo impróprio para menores de idade. Só adolescentes e adultos podem sentir esse desamparo, vindo dos planaltos/planícies às salinidades oceânicas.
13. O interessante é: aqueles que amam não sentem a solidão. Estão imiscuídos na solidão, e não contam os dias em que estarão sós, eternamente, debaixo da terra.
14. A morte nasceu no homem ao primeiro sopro da vida. Tanto que ele a reconhece nos marcos do seu tempo. E finge não vê-la...
15. Os homens inventam a solidão e embalam a solidão, amparados na intensidade da paixão.
16. Os maiores de cinquenta anos já vivem a cultivar o temor da morte nas suas andanças pelas ruas. Morrem todos os dias, esquecendo que a morte está enraizada em suas vidas.
17. Suores deslizam velozes e brilham na carne enrugada e a sede pede mais água como sexo pede mais amor, como amor traz mais suores e aumenta o perfil da paixão. Aquele a zombar dos meus passos na terra não tem razão para ter espaço na terra. Ele zomba é de si mesmo. Aquele a chorar dos meus risos na terra não tem lágrimas para chorar por nada além dele mesmo. Que plano ridículo esse de criar deuses na terra e dentro dos cérebros humanos!
18. Minha escritura é nivelada nos neurônios criadores das palavras a trazer imagens e sonhos. As ideias dessa escritura giram em tramas labirínticas tecidas em organizada mandala de minhas experiências neste planeta.
19. Organizo versos cantando letra a letra, sem temor ou medo, parágrafos em versículos, criando novos ritmos e novas músicas.
20. Daí o beijo na boca a nos fazer vizinhos das estrelas e como um amparo contra a solidão. 
21. Meu vinho é sangue. Meu vinho é amargo como os meus dias. Meu vinho é noturno como os desejos sexuais.

INTERLÚDIO – Rafael Rocha

Do livro “Loucura” - 2018
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A madrugada nasce da noite
como a tarde nasce da manhã.

No meio do caminho
há uma luz vermelha
marcando nascente e poente.

As pessoas gostam desses horários.

Acordam para o dia
em um
e no outro
se preparam
para dormir.

A tarde nasce da manhã
como a madrugada nasce da noite.

Nos entremeios
a luz vermelha da estrela marca
os anseios
dos seres humanos.

TEMPO DO TEMPO FAMIGERADO – Rafael Rocha

Do livro “Farol” – 2019
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Este é o tempo do tempo famigerado
de homens e de mulheres idiotizados
pelos representantes de um ser dito divino.
Iguais aos urubus voando no espaço,
delirando ao sabor de um livro negro,
dardejando mentiras como verdades
e querendo escravizar todas as raças.

Este é o momento dos alienados,
saindo das catacumbas da história
em busca de uma nova Inquisição.
Comem patranhas como sendo realidades.
Gritam por um deus que nunca dá a cara
e querem ser grandes pensadores,
cozinhando na fogueira da mentira
as plantas medievais e inumanas.

Em nome de um deus que dizem ser de amor
criam forjas de fogo para a matança
dos que lhes pensam contra.
São iracundos!
São assassinos de almas!
Obedecem a qualquer capitão do mato
e gritam a favor da guilhotina
e dos fornos crematórios.

Este é o tempo do tempo famigerado
das mulheres e dos homens idiotizados,
criando exércitos em nome de um embuste.
Dando a própria vida, dinheiros e alimentos
aos donos de templos dourados,
acreditando, acreditando, acreditando
(pobres ingênuos)
que um dia serão salvos, salvos, salvos...

A mentira e o medo retornam às ruas.
Arames farpados protegem muros.
Os charlatões fazem o festim das almas
através do medo e do terror.
Esquecem que o homem
supera fantasias divinas.
O homem é horizonte além do oceano.
O homem é a essência de tudo.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

ANDANÇAS – Rafael Rocha



Quarto capítulo do livro homônimo lançado em 2018
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ENCONTRO ESPECIAL

- Meu nome é Otaviano Neto do Nunes.
- Por que Neto no meio?
- Sei não. Tio João disse que é porque o povo diz que sou neto do meu avô e ficou me chamando assim.
- Tu é bem grande, né?
- E você é baixinha! Ah! Ah!
- E por que você não procura uma mais alta do que eu por aí pra conversar?
- Já viu mulher alta por aqui? É tudo miudinha. Até os homens são miudinhos. Acho que fiquei tão grande de tanto tomar leite da cabra cega.
- Leite da cabra cega?
- Isso. Mamãe morreu quando eu nasci e não havia ninguém que me desse de mamar. Meu avô chamou o tio João e mandou que ele comprasse uma cabra boa de leite só pra me alimentar.
- Eita....
- Mas tio João nem viu que a cabra era cega. Na feira apenas mostraram como ela tava cheia de leite e só depois foi que ele descobriu. Ficou furioso, mas quando lhe disseram que cabra cega tem leite de engordar santo de altar-mor, ele se acalmou. Deu no que você tá vendo agora: Eu!  O homem grandão!
- Que negócio é esse de engordar santo de altar-mor? Isso é sacrilégio!
- É uma maneira de falar. De dizer que leite de cabra cega é bom e faz crescer. Ficou zangada?
- Não entendi bem, mas não vejo necessidade de colocar santo nisso.
- Tá bem, tá bem. E você? Mora em que lugar? Tá fazendo o que aqui na rua? Passeando? Qual é sua graça, hein?
- Meu nome é Madalena. Moro aqui em Calumbi.
- Aqui em Calumbi?! Também sou daqui e nunca vi você por cá!
- Moro na igreja com meu pai.
- Que é isso, hein? Tá mangando de mim?
- Nada, nada. O padre Dica é o meu pai. Conhece o padre Dicá?
- O padre Dicá é teu pai? Você tá mesmo mangando de mim! Tá mangando!
- Nada, nada. Sou adotiva dele, visse? Mamãe também morreu quando eu era pequena e ele tomou conta de mim até hoje. Satisfeito? Tava pensando em quê?
- Tio João devia ter me contado isso. Eita! Filha adotiva do padre? Eu nem sabia...
- Não saio muito de casa. Tomo conta da igreja e ajeito ela para as missas, batizados, novenas... Por isso você nunca me viu. Você não vai à igreja, vai? Nunca vi você na igreja!
- Bem... Isso... Sim... Não... É... Olhe, parece que temos a mesma idade, hein? O padre Dicá... Foi ele que me batizou, sabe? Era muito amigo do meu avô.
- Foi mesmo? Já pensou? E você gosta de morar por aqui?
- Fazer o quê? A gente nasce e tem um ninho, tem terra no meio e um pouco de história. Fazer o quê? Desgostar?
- Sei não... Eu sou louca pra sair daqui, visse? É um sofrer danado. Muito de dor. Gente triste, sem água, terra seca pra plantar. Acho que...
- Você não gosta...
- Não suporto. Queria sair daqui. Morar no Recife. Ver o mar. Ver os rios de lá...
- Eu também quero conhecer, mas...
- Mas o quê?
- A gente tem que ir com alguma pessoa que conheça o caminho, conheça a cidade.
- É...
- Sozinho a gente se perde. Tudo lá é muito do grande.
- Deve ser, mas eu penso em sair daqui. Não quero viver e morrer aqui não, visse?
- Tem uma saída.
- Tem uma saída? Qual é a saída?
- Você se casa comigo, fala com tio João e diz que não quer ficar por aqui. Ele já tem negócio na capital. Ele dá um jeito e...
- Que história é essa de casar, hein?
- É como eu disse: a saída.
- A saída?
- Isso! Casa e dá a saída. Vai embora daqui.
- Você quer que eu me case com você, é?
- Achando ruim? É muito melhor do que ficar aqui, visse?
- Você é muito metido, sabe?
- Você vai querer, vai? Ah! Ah! Ah!
- Você é muito atrevido! Muito atrevido!
- É só uma saída. A gente vai ver o mar, o rio de lá. Sabe que os rios de lá nunca ficam secos? Não acha bom?
- Vou contar isso pro meu pai. Que atrevimento!
- Diga. Diga a ele também que fui eu que falei isso. Otaviano Neto do Nunes, filho do “seu” Terêncio. Vá dizer a ele. Vá dizer.
Para melhor entender, Otaviano Neto do Nunes tinha sido criado pelo tio João Maria no meio da libertinagem.
Sua “avançada educação” protagonizava as mais variadas sagas sexuais em todos os meretrícios das cidades de Serra Talhada, Salgueiro, Flores, Carnaíba e Triunfo.
Porém, Madalena não chegou a tomar mais a fundo conhecimento desses fatos.
Otaviano, seguindo a “avançada educação” recebida do seu tio João Maria, protagonizava variadas sagas sexuais em todos esses meretrícios sertanejos.
Mas seus amplos e variados conhecimentos sobre o outro sexo não conseguiram subjugar a carne daquela garota educada nas primazias da igreja de Roma.
Os desejos lúbricos de Otaviano só amainaram após sua entrega como homem à escravidão dos olhos pequenos e piscantes da herdeira dos genes de Castela e Aragão.
Como conquistador inveterado ele dera-se conta: aquela mulher apenas seria domada através da liturgia do casamento. 
Foi ajudado nesse assunto pelo tio João Maria, que também morria de vontade de sair daquelas plagas sertanejas e morar no Recife, local considerado por ele como muito bom para seu estilo de vida e tino de comerciante.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

OLHOS ABERTOS PARA A MORTE - Rafael Rocha


Décimo capítulo do livro homônimo lançado no ano de 2012 – Agraciado com Menção Honrosa pela Academia Pernambucana de Letras (APL) – Prêmio Vânia Souto Carvalho (2011)
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A noite não foi boa para Sérgio. Acorrentado no catre sem condições de se mover, sentia os insetos noturnos rastejando pelo seu corpo. Na escuridão podia jurar que até pequenas ratazanas também tiveram o gosto de percorrer sua carne de cima a baixo, lamber seu suor, tentar morder ou invadir seus orifícios. Sentia vontade de gritar. Pedir socorro. No entanto, descobrira em seu íntimo que ninguém iria atender a esses rogos.
Quando conseguiu fechar os olhos e entregar o corpo ao sono foi brutalmente despertado por um dos musculosos encapuzados. Tiraram as correntes e o puseram de pé. Com algumas bofetadas conseguiram despertar o rapaz para a realidade. Atrás dos dois homens encapuzados Sérgio descobriu o homem magro de nariz adunco e de olhos de serpente a olhá-lo. Seu dedo mindinho não mais doía. Nem mesmo estava sentindo o dedo. Baixou o olhar para a mão direita e viu o grande inchaço. A voz do homem de nariz adunco chegou aos seus ouvidos. “Basta você falar. Basta você dizer quem lhe deu aquele livro que seu dedo será examinado, ganhará uma tala de gesso e poderá ir para casa. Seremos até amigos. O que acha disso?”
Sérgio não tinha sido preparado para nada daquilo. Recebera o livro de um professor amigo de uma colega, para estudar um tema referente ao capitalismo e socialismo. Desde alguns dias tinha o exemplar nas mãos, porém nem sequer se dera ao trabalho de lê-lo. Estava até pensando em devolver... “Você leu esse livro, meu jovem?”, escutou a pergunta feita pelo homem magro. Parecia que ele também lia pensamentos. “Não. Não li. Nem sei o conteúdo. Há dois meses que estou com ele. Não li.” “Meu rapaz, meu rapaz! Tanto tempo com um livro sem ler. Que rapaz preguiçoso você está me aparecendo. Quer que eu acredite nisso? Quer?” “Falo a verdade. Ainda não li o livro. Digo a verdade”. “Tudo bem. Tudo bem. Eu acredito em você. Vou acreditar em você. Não me custa nada isso. Já vi que você não é um rapaz dado a essa safadeza de comunismo. É? Você é comunista, meu jovem?”
O medo tomou conta do semblante de Sérgio. Olhava para o homem vestido de negro e de olhos de serpente e não sabia o que dizer. Gaguejou: “Não.. Não sei... Não... Eu... Eu..” O homem sorriu, olhou para os encapuzados e com um gesto ordenou que eles saíssem do cubículo. Após a saída dos dois homens, ele puxou um banco e sentou-se em frente de Sérgio. “Sente aí na cama. Sente! Somos dois homens conversando. Aliás, até agora... Você pode continuar sendo homem e ter muitas namoradas. Por falar nisso, sua namorada é muito bonita, sabe meu jovem? Muito bonita!”
O homem abriu uma cigarreira de prata e dela sacou um cigarro. Após acendê-lo e dar uma baforada para o teto, voltou a olhar fixamente Sérgio. “É tudo muito simples, meu jovem. Muito simples. Nós estamos em guerra, entendeu? A democracia contra o comunismo. Deus contra o Diabo. O Brasil e seu povo cristão contra os ateus da foice e do martelo. Está escutando?” Sérgio fez que sim com a cabeça. Não queria olhar para o homem. Imaginava que pousando seus olhos nos do homem podia morrer. “Claro. Ótimo. Você é um rapaz inteligente. Você sabe disso. E sairá daqui para os braços de sua namorada. Com o dedinho medicado. Tranqüilamente. Isso eu garanto, meu rapaz. Basta que diga apenas uma coisa.”
A promessa despertou Sérgio para a vida. Queria sair daquele local nojento o mais depressa possível. Não interessava como. Desejava voltar aos braços de Camila. Sentir os beijos dela, a suavidade da pele dela. Desejava novamente o calor e o aconchego de sua casa. As conversas com seus pais e seus irmãos. Dessa vez olhou o homem de nariz adunco nos olhos. ”Voltarei para casa? Vai me deixar sair daqui? Posso acreditar nisso?” “Meu rapaz, meu rapaz, eu só tenho uma palavra. Sempre fui um homem de palavra. Quando digo uma coisa é para acontecer. Cumpro com o que digo. Não fico insultado com sua falta de confiança, pois se estivesse no seu lugar perguntaria a mesma coisa. Claro, meu jovem. Você vai voltar para casa. Vai voltar a ver seus pais. Vai voltar a beijar sua linda namorada. Claro. E também vai se tornar meu amigo. Ah, ah, ah... Você vai ser meu amigo, rapaz! E juro que você nunca terá um amigo tão leal como eu. Ah, ah, ah....” 
Sérgio estava louco para deixar de escutar as risadas do homem. Baixou os olhos, olhou para sua mão direita. O dedo mindinho inchado e roxo. E descobriu como era grande o seu desejo de sair daquele local. “O que você quer? O que você deseja saber?”, perguntou. O homem de nariz adunco e de olhos de serpente ficou em pé, deu um último trago no cigarro e jogou a guimba no chão, pisando-a. “Muito simples. Quero saber aquilo que você sabe. Quem deu a você aquele livro? Foi um professor, já sei. Você disse. Quero o nome dele. Quero saber onde posso achar esse professor. Diga o nome, onde eu posso achar o homem, e você dentro em pouco estará em casa, curativo no dedo e prontinho para cair nos braços de sua amada. Diga. Ou, muito melhor do que isso escreva neste papel”.
Dizendo isso o homem magro colocou uma folha de papel sobre a mesa defronte ao catre onde Sérgio se achava sentado, junto com uma caneta esferográfica. “Tome uma atitude. Escreva. Assim poderá jurar que nada saiu de sua boca”, exclamou. Sem perder tempo, esquecendo o dedo mindinho quebrado, Sérgio pegou a caneta e escreveu o nome e o endereço de trabalho do professor. A seguir, ele se afastou viu o homem pegar o papel. Viu o sorriso largo e demoníaco a se alastrar pelo rosto dele. “Que beleza! Ótimo! Você me deu uma alegria muito grande, meu rapaz. Você foi precioso.” Logo a seguir abriu a porta e fez um gesto para os dois encapuzados que se achavam do lado de fora. “Façam um curativo no dedo desse meu amigo e depois deixem que ele volte para casa. E não se esqueçam que ele é meu amigo! O que acontecer de ruim com ele a partir de agora é da responsabilidade de vocês. Rápido! Façam o que estou mandando!”
 Sérgio teve os olhos vendados. Sentiu que era colocado em um banco duro de jipe. O veículo partiu. Demorou algum tempo e retiraram a venda de seus olhos. Tentou se acostumar com a luz do dia que descambava para a noite. Não reconheceu o local onde estava. Os encapuzados tinham desaparecido. Um homem gordo e suado o levou até uma farmácia, onde colocaram uma tala no dedo mindinho e o aconselharam a procurar imediatamente um hospital para engessá-lo. A seguir, o gorducho devolveu sua carteira. O dinheiro continuava lá. “Pegue um ônibus e volte para casa. E fique de bico calado. O capitão ainda pode procurar você. Se falar demais deixará de ver a luz do dia. Entendeu isso?” Sérgio tinha entendido muito bem. Agora apenas uma coisa importava. Sua vida. Estava vivo e isso interessava mais. Notou-se parado na Rua do Imperador, no bairro de Santo Antônio. Suspirou fundo e começou a caminhar em busca de transporte para casa. 
Enquanto isso, o capitão Clemens lia e relia o nome e o endereço que Sérgio escrevera no pedaço de papel. Seus olhos de serpente iam e viam pelas letras. Um sorriso frio, hediondo e calculista se desenhava em seus lábios. “Quem diria! Quem diria! Como este mundo é pequeno!” Na folha de papel estava escrito: professor Eric Souza – Grupo Escolar Joaquim Nabuco.