sexta-feira, 26 de julho de 2019

ENCONTRO – Rafael Rocha


Conto inserido no livro ‘O Espelho da Alma Janela” (2009) agraciado pela Academia Pernambucana de Letras (APL) em 1988, com o Prêmio Leda Carvalho
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Estava sentada à mesa do bar bebendo cerveja. E, eu, defronte, em outra mesa, a observá-la. Indeciso se devia abordá-la ou não, matando duas solidões de uma vez só. No entanto, não sabia como iniciar o diálogo. Falaria de quê? Nunca achei difícil entrar num assunto. Mas, nessa hora, chegaram as dificuldades, como que criadas em um novo espaço de timidez.
O bar estava cheio, entre homens e mulheres, e ela era observada por muitos. Se, por acaso, eu desejasse conversar com ela, teria de ser rápido, visto que nos dias atuais a possibilidade de uma mulher continuar sempre sozinha numa mesa de bar é uma hipótese bastante remota.
Claro, podia estar esperando alguém, e, nesse caso, eu poderia fazer papel de bobo. De repente, depois de acender um cigarro, levantei os olhos e aconteceu. Nos encontramos. Ela bateu na minha porta. Eu abri suas janelas. Os seus olhos sorriram. Os meus olhos sorriram. O corpo falou suavemente pedindo a minha presença. Eu fui.
– Duas cabeças se ajustam mais quando juntas, estou certo?
– Completamente – respondeu ela.
– Esperando alguém?
– Você já está aqui.
– Matei sua solidão?
– Ajudou a enterrá-la.
Tão perto dela podia olhá-la mais detidamente. Olhos negros. Mãos pequenas. Cabelos cor da noite. Delgada como uma libélula. Nem feia nem bonita. Apenas mulher. Ela também me olhava. Como eu não posso me ver assim nesses espelhos – os olhos de uma mulher – o que estaria ela realmente vendo?
– Quem é você – perguntei.
– Eu?... Eu mesma.
– Não vai me dizer o seu nome?
– Não. Nem me diga o seu.
Não pude e nem desejei avançar mais com outras palavras. Voltei a olhá-la bem nos olhos. Ela me olhava bem nos olhos.
– Você gosta de escutar seus pensamentos? Agora mesmo eu andava a conversar com minha outra identidade. Não consigo entender o motivo de a gente pensar e não fazer as coisas diretamente como nas conversas com o consciente. Eu perguntei quem era e não me respondi. Você perguntou quem eu sou e eu lhe digo que sou eu. Não acha isso interessante?
E a base dessa coisa interessante era ela mesma. Não estava bêbada. Nem drogada. Realmente tinha sua própria filosofia.
– Você já imaginou como podemos ser alcançados pelo sonho? Um sonho de milhares de anos? Um sonho de querer ser exatamente aquilo que não podemos ser na vida real? Pois eu estava pensando justamente nisso quando olhava para você. Imaginando você como algum ditador da América Latina.
Franzi o cenho. Mais do que fascinante era uma espécie além de todas as outras minhas conhecidas. Louca? Não digo isso. Enchi meu copo com a cerveja e depois também o dela. Apenas um sorriso. Bebeu um longo gole. Depois, acendeu um cigarro.
– Por que os homens não podem ver uma mulher bebendo sozinha na mesa de um bar? Por que necessariamente tem de tentar a aproximação? Fazer uma abordagem? E, se a mulher fizer a mesma coisa, por que o julgamento do homem não se nivela àquele mesmo de quando é ele quem assim se comporta?
– Se você achar que estou sendo importuno...
– Não! Não é isso! Estou divagando e, além do mais, quero você comigo. Insisto que fique comigo. Se você não tivesse vindo, eu iria até você.
– Você é fascinante!
– Também está me achando meio gira, não?
– Repito que você é muito fascinante. Você sabe que eu perdi o horário do ônibus da vida? Quando passou a oportunidade maior eu nem vi a cor. Passou de raspão. Machucou meu corpo e minha alma. Depois sumiu. Evaporou-se. Aqui estou eu, completamente aturdida. Todos os homens são todos os homens. Desculpe-me, sim? Mas, na realidade, estou pronta para tudo. Quando desejo, procuro o desejo. Quando não desejo, morro.
– Às vezes eu também fico assim...
– Eu gosto de escrever. Gosto de pensar. Gosto da vida. Gosto de gostar. Todas essas coisas se tornam tão vazias quando ficamos sozinhos...
– Bebamos à saúde da solidão!
– Estamos juntos e estamos sozinhos, não é isso?
– Nunca estive tão junto sozinho de alguém sozinho.
Ela riu. Pedi outra cerveja. Tudo estava exótico. Ela pousou a mão direita no meu rosto. Quente e macia. Pertinhos um do outro. Portanto, aconteceu.
O gosto adocicado de sua saliva a se misturar com a minha saliva. A maciez de sua língua a fazer fronteira com a minha língua. Seus dedos acariciando minha nuca. Apertei seu busto de encontro a mim. Os seios firmes a se esmagarem contra meu peito. Quando paramos, ela apenas sorriu. Outro beijo de leve no meu rosto.
– Gostei.
– Pode ser até melhor se tivermos mais tempo.
– Você pode não ter notado – disse ela – O fato é que nós somos os donos da noite.
– Já estou começando a notar. Quer mais cerveja?
– Com você dentro.
Admiti a mim mesmo enredado em suas malhas. Eu dentro e ela fora? Não! Os dois em uma forma só. Comecei a desejar compor o lirismo desenfreado de amor e sexo guardados desde algum tempo. E, as fantasias, colocá-las no voo ao espaço macio de sua carne. Precisávamos ambos. Isso estava sendo óbvio.
– O amor é algo assim como um fantasma tentando assombrar os moradores de uma casa e, quando consegue, ele mesmo fica vulnerável. Se parece com uma guerra de emoções, cheia de truques e de aprendizados.
– Você amou muito? - perguntei.
– Você amou muito? - respondeu perguntando.
Rimos e nos beijamos de novo.
– O interessante é que amanhã não nos veremos mais. Interessante e calculado. Como a vida mesma
– Se você desejar nos veremos mais vezes.
– Não, meu querido. Eu posso estar preparada para usufruir o momento de agora. Mas não quero misturar esse amor de carne com o outro tipo de amor. Esse amor que estou sentido agora é de carne. Fique sabendo que eu estou despojada de muitas velhas armaduras para enfrentar o outro tipo de amor. Meus mecanismos de defesa eu perdi há muito tempo.
– Em que direção poderemos seguir?
– A direção comum. O que fazem um homem e uma mulher quando sozinhos e juntos? O turbilhão de um sonho fantástico. Deliciosas fantasias. Um ditador da América Latina e uma miss Universo.... O que achou disso?
– Um ditador da América Latina pode não ser um grande amante.
– Todo amor carnal é satisfatório, mesmo quando apenas o fantasiamos.
– Ponha todos os ingredientes nisso. E que tal estudarmos a fórmula mais adequada para nós dois? Os movimentos, as carícias, os gestos...
– Tudo! Para que limitarmos nossos desejos?
E para que continuar a história? As chances de abrir novas paisagens sobre a realidade desse encontro poderiam ficar minguantes e descambar para a monotonia das repetições. Pensei numa frase ouvida noutros dias: em algum lugar do mundo sempre existe uma mulher pronta para a gente.
– Em qualquer espaço do mundo sempre existe um homem que eu queira.
– Vejo que você gosta muito do amor físico.
– Quase isso. Sou muito desajeitada para amar espiritualmente. Para mim o amor é muito mais fácil de ser feito que de ser pensado.
– É uma ideia sua.
O ritmo da conversa parou nesse pedaço. Apenas a pergunta teimando em sair dos olhos dela. Apenas o desejo a sair dos olhos dela. Paguei a despesa e fomos para a rua. Os olhos de dentro do bar nos seguiram, alguns invejosos, outros sorridentes. O satélite no negror do céu me pareceu um bom presságio. Parei um táxi. Entramos. Partimos.
Íamos objetivar as nossas fantasias mais concretas.

EXPLOSÕES – Rafael Rocha

Do livro “Marcos do Tempo” - 2010
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Explodir o verbo em rascunhos
Nos mistérios cósmicos dos bares
Escritura/pensamento da linguagem
Em sinais de bíblias não sagradas
Evangelhos dos Marcos, Joãos, Josés,
Marias, Anas, Antônios, Severinos,
Cristos, Lucíferes, Dianas, Júlias,
Idílios em sinais de fins de tempo.

Sal, fogo, ar, paixão, sexo,
Nudez, punhetas, seios, vaginas,
Pênis, vampiros, vinhos, frevos...
A vida em trâmites de agonias
Explodia o verbo em rascunhos
Resenhas de comunhões consagradas.

Destinos, dores, mágoas, solidões...
Horóscopos, anjos, diabos, furacões...
As cartas do Tarô postas à mesa
A marca do profeta escoando
Na memória daquilo que foi/sendo

                                    Na luz do sol nascente
                                    Morriam as partituras
                                    Ao antigo sol poente.

ELEFANTES BRANCOS MATAM MARIPOSAS (I) – Rafael Rocha


Do livro “Contos Delirantes com Versos em Bolero” – 2017
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Joel abriu a gaveta da escrivaninha e dela retirou uma caixa escura. Após abrir a caixa com uma chave de prata apareceram aos seus olhos uma pistola Derringer e duas balas.  Colocou tudo em cima da escrivaninha e, fascinado, ficou a olhar o material.
Levantou o corpo da cadeira em que estava e começou a caminhar pelo aposento, indo até a janela, de onde olhou para a rua. O dia começava a nascer.
- É questão de pouco tempo mesmo? Mas quanto tempo?
- Seis meses. Se formos otimistas, talvez um ano, no máximo.
- Quer dizer que nada mais adianta?
- Gostaria de poder dizer a você que a ciência pode reverter o seu problema. Mas nem isso...
- Tudo bem. Entendi. Tenho de aceitar o fato.
- Infelizmente, meu amigo. Infelizmente...
Retornou à escrivaninha e segurou a pequena arma. Pegou as balas. Carregou a arma. Colocou-a sobre a escrivaninha e ficou a olhá-la.
A cabeça girava e múltiplos pensamentos tentavam se aglutinar em um só. Não conseguia nem mesmo saber o que estava a pensar.
- Tudo começou quando dei pra sonhar com elefantes brancos. Mas para que sonhar com elefantes brancos, doutor?
- Um fato incoerente. Confesso que é esquisito mesmo. Elefantes brancos não têm nada a ver com um câncer incurável, meu amigo.
- E eles resolviam caminhar pelo meu quarto e me levavam a perder o sono. Mas eu estava dormindo mesmo e sonhando com eles. Meu terapeuta disse que eu necessitava pensar no que tinha construído durante a vida. E mergulhar mais fundo nas minhas digressões e nos meus comportamentos antigos. E no fim com exames mais detalhados ganhei este câncer e esse seu diagnóstico mortal.
- Bom, meu caro, eu já disse tudo que você precisava saber. Mas eu te garanto que elefantes brancos não têm nada a ver com a doença. São simples alucinações cerebrais.
Segurou a pistola Derringer. Sopesou-a com a mão direita. Depois com a esquerda. Apontou a arma para a parede defronte...
- Não vou ficar sofrendo dores numa cama de hospital por causa dessa doença. Vou tomar outra atitude.
- Posso receitar algum remédio forte contra as dores, quando elas aparecerem.
- Não será preciso. Já tenho o remédio certo.
- Então, meu amigo. Terminamos a consulta. Você já sabe de tudo.
De repente, a forte luz do sol entrou pela janela e o homem na cama acordou assustado.
De sua pele deslizavam grossas gotas de suor frio. Olhou para o outro lado da cama e descobriu que a mulher já tinha acordado. Levantou-se, saiu da cama, rumou para o banheiro. Tomou banho, escovou os dentes e de pijama encaminhou o corpo para a cozinha.
- Acordou tarde hoje, querido. Já são dez da manhã. Mas hoje é sábado. Não tem trabalho.
- Tive um sonho estranho.
- Vai contar qual foi o sonho?
- Sonhei com dois elefantes brancos, e depois um médico disse que eu estava com câncer terminal e que só tinha seis meses ou um ano de vida. E comecei a preparar o meu suicídio.
- Sonho estranho! Mas sonho é ilusão! Esqueça e vamos tomar café! Deve ter sido efeito da vodca que você bebeu ontem na festa. Isso acontece. Você tem é muita saúde. E isso de elefantes brancos... Uau! Na verdade não é toda vez que alguém sonha com elefantes brancos.
- Realmente, meu bem. Realmente...
- Eu sonhei com milhares de mariposas morrendo por causa de uma luz branca e ofuscante. Não é um sonho esquisito também?
- Muito esquisito! Muito!
- E elas foram aos poucos morrendo nessa luz. Eu pedia a deus que ele não deixasse as coitadinhas morrerem, mas essa luz ofuscante foi queimando elas aos poucos.
- E então todas elas sumiram, não foi?
- Exatamente. Elas sumiram. Mas como você descobriu? Eu não contei essa parte. 
- Foi exatamente isso que os elefantes brancos falaram para mim no meu sonho. Disseram que iriam matar todas as mariposas com suas luzes ofuscantes.

ICONOCLASTIA – Rafael Rocha

Do livro “Sangramento” inserido na coletânea “Poetas da Idade Urbana” – 2013
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(UM)
O acaso da vida vem no som obscuro do nada
A tremeluzir nas abóbadas das mais frias noites
Meus dedos digitam letras em contrações tímidas
Lutando contra as irrealidades escritas por homens.

Eu! Um poeta desconhecido a caminhar sozinho.
De alma errante nos pesadelos do meu caos.
Eu não quero silêncio. Sou o poeta dos gritos.
Transmito a morte dos deuses e o prazer do homem.

Não terei rimas às adorações dos grandes ídolos.
As horas estão paradas. Ídolos são meras ilusões.
Escrevo para lutar contra as mentiras descabidas
De santos, de cristos, de budas e de virgens católicas.

Dizem que a dor persegue meu sangue monstruoso
Mas eu falo as palavras sinceras do profundo nada.
Meu corpo pede uma mulher. Minha boca um ósculo.
Minhas mãos pedem outras mãos. O cérebro pede vida.

O som do obscuro labor de um deus perverso
Voeja nas mentiras escritas por homens insensíveis.
Toco fogo nas bíblias e nos catecismos das igrejas.
E admiro as labaredas erguidas no altar do templo.

Eis o poema vindo de tantos anos antes de mim.
Eis a forma perfeita do voo do pássaro livre.
No vento a poesia dardeja as letras da liberdade
Sem altares ou sacrifícios. Apenas carne humana.

(DOIS)
Ergo-me em sangue
Sou iconoclasta.
Ergo-me em pele.
Sou legião de letras.

Bailarino imenso/insano
Danço, danço, danço
As músicas do caos
Vivem nas ruas ermas.

Estou de pênis ereto
Ah, mulher vadia!
Não sou pecado cruel
Sou homem são.

Sou músculo e no ar
Gargarejo o palavrão
Da foda múltipla
Sem recalques.

O poema é um grito
Ao tudo e ao nada
Habitante do acaso
Do universo azul.

(TRÊS)
As vestes dos padres necessitam de traças
Livros de deus e satã precisam do lixo.
Cruzes das paredes têm de ser retiradas
Para a liberdade do homem amanhecer.

Sermões de pastores precisam de cale-se.
As mentiras bolorentas têm de cessar.
Púlpitos têm de abrigar vozes de poetas
Para a liberdade do homem amanhecer.

Neste meu surto de versos iconoclásticos
O cosmos infinito tem espaço em si.
O corpo nu da mulher e o orgasmo suado
Campeiam nos sons toscos de minha lira.

E nas ruas homens vazios teimam em crer
Na tendência de o morrer levar à outra vida.
Ingênuos não veem a vida como unidade
E os vermes habitantes da casa da morte.

Ah! Danço, danço, danço, danço e danço...
Beijo as coxas das mulheres mais putas.
Ah! O gemido do orgasmo prepondera
Nos líquidos vaginais em mel e sêmen.

Sou homem, minha gente! Estou vivo!
Sou poeta e dono de meu ser inteiro.
“Eu sou dono e senhor de meu destino!
Eu sou o comandante de minha alma!”

(QUATRO)
Deus é um anestésico. Deus é um ópio ruim.
Não existem coisas do além para adorar.
Satã é a mentira do antônimo do deus
O único fogo real é o fogo do prazer da vida.

Estou saindo de um longo exílio letrístico.
E deixo de mostrar piedade aos religiosos.
Pretendo transformá-los em estátuas de sal
Após a explosão da bomba nos livros “santos”.

Ana, Paula, Márcia, Maria e todos os nomes
Vinde até minha cama curtir o deus peniano
Em idas e vindas e penetrações variadas
Eu deixo olharem as ações pelo espelho.

Este sou eu. Sou ateu! Múltipla pedra/areia.
Não tenho fé em coisas do outro mundo.
Deixei de acreditar em histórias de trancoso.
Hoje lanço farpas contra igrejas e templos.

Sim, escreverei os poemas da vida eterna.
Vida marcada no sangue deixado no mundo
Desde a eternidade de meu pai e minha mãe
Desde o nascimento de meus filhos.

Sim, escreverei os poemas imortais no livro
Serão chamados de blasfemos delinquentes
Rirei de tudo isso e farei só uma pergunta:
Onde o deus a interagir com os homens?

(CINCO)
Ele não é nada amada, amante.
Ele não existe amada, amante.
Pecado é uma ilusão para vender
Imagens de cruzes e de bíblias.


Amada, amante, nua e benéfica.
Sobe sobre mim teu corpo. Cavalga-me!
Amada, amante, nua e suada
Leva à tua boca o leite de meu ventre.

Chupa-me! Fode-me! Dança em mim.
Chupo-te e fodo-te louco por tua vida!
A flor do ventre se entreabre inteira
E a agarro para minha paixão de pedra.

Teu corpo é o corisco dessa paixão.
Tua boca sussurra indecências.
Tua bunda é a deliciosa cordilheira
A ser escalada por meu labor de macho.

O teu cheiro vivaz saltita como a noite.
Amante! Teu sabor é sal e glória.
Amante! Tua saliva é o xarope
Contra as dores das prisões e do caos.

Amada, amante, nua e poderosa
Deita-te e espera meu ser entrar em ti.
Serei o real deus vivo nas tuas entranhas
E far-te-ei um filho e o poema de um filho.

(SEIS)
Deram 666 o nome eterno do inominável.
Minha gargalhada voa sobre casas e oceanos.
Os fundadores de seitas são mentes criativas
Criando gozos molhados nos altares e nos púlpitos.

Deram 666 o termo de um animal com chifres.
E eu zombo da merda desses bruxos idiotas.
Mas nos refluxos de gente nas casas da cidade
Os crentes se amedrontam e se retorcem de medo.

Grandes e ricos templos abrigam a mentira infame
De um deus vencedor do inominável ser das trevas
E o dinheiro escorre nos sacrários e nos vestíbulos
Para o bem dos exploradores da ingênua fé alheia.

Passam mulheres e homens a viver loucuras subumanas
Trazendo em si o 666 em fragrância e estilo.
Têm uma febre de crença no vencedor apocalíptico.
Têm um medo inexplicável do filho invisível da treva.

O inominável vive na irmandade do deus recriado
Nas priscas eras da Terra pelos ricos sacerdotes
Adoradores da cruz e dos pregos no monte Gólgota
Torturadores da carne e das mentes da humanidade.

(SETE)
Meu grito é doença venérea:
Pouco me importa deus e diabo!
São duas merdas traiçoeiras!
Meu grito é de renegado:
Fé é coisa para medrosos!
Não tenho vocação para o medo!
Meu grito é de eternidade:
Está escrito! Está escrito no poema:
A raça humana vive em eterna mentira!
E existem os mestres de teologia!
E existem os donos da moral!
Merda! Será que eles sabem o fazer?

E são capitalistas loucos
Os representantes de deus e de satã.
E são publicitários do pecado
Arma atômica do todo-poderoso.
Meu grito é iconoclasta:
Ópio e sono dentro das almas
Trazem o deus perverso em livro santo.
Em letras de abençoamento
Nas cédulas do nosso dinheiro.
Em shows hollywoodianos
Nas missas e nas prédicas.

(OITO)
Peguei o corpo de uma linda mulher na cama
E na madrugada tingi sua pele toda com lágrimas
Era uma puta doce e triste das ruas da cidade
Ela dizia graças a deus e deus me livre do mal.
E em sua bendita bunda deixava minha parição
De orgasmos nascerem furiosos em descarregos
E gemia em putice: Oh, deus! Oh, deus! Oh, deus!
Isso é bom! Oh, deus! E o deus gozava por ela.

Peguei o corpo de uma linda mulher na cama
E na madrugada tingi sua pele com espermas.
Era uma mulher comum e mãe de meus filhos
Ela não dava graças a deus pelos orgasmos da vida.
E nem dava a bunda. Dizia: isso é coisa do diabo.
E nos seus descarregos de gozo calava-se.
E se gemia no interior não dizia Oh, deus! Oh, deus!
Ela jamais diria deus toda nua e no gozo da carne.

Todas as duas são mulheres surdas à verdade.
Todas as duas são mulheres abertas à mentira.
Padres e pastores têm nelas campos abertos
A serem arados com as oratórias das divindades.

(NOVE)
Um pássaro canoro voa ao meu redor
Não mostro gaiolas para o seu canto
Digo: fica no ar e solta teus trinados
Chama se alguém trouxer grilhões
Para o teu canto incomensurável.

Voa, pássaro, mostre-se como o poeta:
Respire o ar invisível do planeta
Faça coro com as montanhas e os rios
E com o vento entre os galhos das árvores
Antes de morrer. Permaneça livre.

Homens de olhos abertos para a terra
Andai de cabeça erguida. Nada de escravidão.
Mulheres belas, feias e todas: o saber
É o viver do perene espaço de tempo
Entre paixões, músicas, danças e orgasmos.

Abram livros escritos por poetas malditos.
Leiam os versos libertos das fantasias
Digam a vida como esse pássaro:
Cantar a liberdade longe de salvadores
Criados pelos sermões das montanhas.
A vida possui o prazer alado. A vida é vento.
Nada de ser escravo de uma fantasia humana.
A vida é um rio em busca do oceano
E homem e mulher têm de saber seguir a trilha
E não ficar presos em grilhões a bem da mentira.

Pássaro canoro! Voa! Voeja sobre o ar terrestre!
Serei companheiro e vigilante do teu canto.
Livre és mais forte que todos os livros santos.
Pássaro! Mostrai às mulheres e aos homens
A grandeza de tua liberdade no espaço.
Liberta, ó pássaro.
Liberta o homem!

(DEZ)
Mulheres para mim são as minhas catedrais
A elas ofereço meus sutis poemas de amor.
Corpos a dar prazer intenso molhado e vivaz
Onde despontam seios em gestos de louvor.

Nada de cruz a me trazer ventos sepulcrais
Quero uma boca rubra em lúbrico salivar
E quando tiver de escrever a palavra jamais
Possa partir sem prometer um dia o voltar.

O prazer será a chama e a mais fiel doutrina
A fazer a vida fulgir no mais vibrátil olhar
Antes de o fim marcar a sua ingrata sina.

Serei mundo e serás minha sempre no passar
Do instante feminil dessa bela alma ferina
Ateia e bem-vinda ao tempo a me adorar.