segunda-feira, 29 de julho de 2019

SEMANA LONGA – Rafael Rocha

Do livro “SANGRAMENTO” incluído na coletânea “POETAS DA IDADE URBANA” - 2013
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O Recife canta a noite vagabunda:
Carne feminina em versos errantes.
Na aurora dos dias até a concórdia.
Aos arrecifes marcando distantes
As ondas atlânticas em boa viagem
Molhando as areias e corpos vadios.
Mulheres despidas de amor na paisagem.
Crianças sonhando castelos de areia.
Olhando o horizonte o poeta semeia
A profundeza do sol que permeia
As luzes mortiças do meio da tarde
O fantástico domingo nos arde.

E o sonho completo está lá dormindo
Nos ventres das belas fêmeas da terra.
Na lua a brilhar nas águas dos rios
Onde os desvarios de almas encerram
Percalços maiores de dias perdidos
Nascidos em camas e berços vulgares
Por onde as chamas dos outros fulgores
Olhavam o poente de outros lugares
Trazendo paixão no meio das dores
Das solidões marcando momentos
Que de tão piores são sentimentos
Na segunda-feira trabalho e tormentos.

E no centro da mais velha rua formosa
Entrando nos toques do maracatu
A bela morena se vem dadivosa
Noitejar o dia no cruzeiro do sul.
Como se a vida se lhe fosse um delito
A renascer morto em pleno carnaval
O homem abraça a carne e seu grito
Reflete o escorrer do débil mental.
O beijo na boca... Ah, louco conflito!
Germina a paixão em amor casual
No odor maresia das praias de Olinda
É só terça-feira. Um dia banal!

Anda o caminheiro de horas fugazes
Buscando o liberto olhar varonil
Do espaço neutro das horas verazes
De coisas rapaces ao seu ser fugidio.
O frevo constante martelando a pele
Traz o guerrilheiro mais que sombrio
Na liberdade de pernas e braços
A tentar abraços no leito dos rios.
E quando o corpo aceita o mormaço
É nesse cansaço acalmado seu frio
No espaço dos brilhos do maior abraço
Da quarta-feira: um dia sombrio!

E disse um poeta ao falar do azul
De tantos verdes a terra estremece
Se do amarelo a pátria envaidece
Nos grandes leões a terra enriquece.
Homens, mulheres, crianças, idosos.
Brancos e negros, mulatos, cafuzos
Lá nos Guararapes deram-se fortes
As mãos da ideia contra os obtusos
Forjados amantes de antigos grilhões
Inimigos dos pernambucos rincões
E da raça guerreira da rua da praia
Na quinta-feira de um sol dissoluto.

O Recife canta a noite vagabunda
Nos bares noturnais das sextas-feiras.
Roubando corpos e almas oriundas
Desde o 1817 das trincheiras.
Do buraco do mar nascem gemidos
Do Cabugá, do Caneca e das quimeras.
O Recife dança a valsa vagabunda
Nas noites longas dessas sextas-feiras
Homens, mulheres e agitações noturnas
Vindas das mais antigas roubalheiras
Das vestes papais e dos sacripantas
El-reis, rainhas e padres e suas freiras.

Nasce o sábado. Dia de luzes certas
Onde um poeta declamou em voz correta:
“Impossível fugir dessa manhã.
Hoje é sábado. Domingo é amanhã.
Onde ninguém se gosta de se ter”.
Olhando o horizonte o cantador semeia
A profundeza do sol em si a nascer
As luzes mortiças do meio dessa teia:
Uma cerveja! Uma fêmea o enleia!
E crianças inda erguem castelos de areia...
Nunca é tarde para se buscar a liberdade.
A livretude deste sábado nos arde.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

TESTEMUNHA (1967) - Rafael Rocha

Do livro “Poemas dos Anos de Chumbo” – 2017
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Fechadas as portas e janelas
das ruas vêm os gritos.
Estampidos secos de tiros.

Escondido nas sombras
um homem testemunha
jovens sendo mortos.

Em seu peito bate
estímulos de medo.
Ele tenta silenciar o coração.

Os corpos são arrastados
aos caminhões verdes.
As trevas calam a dor.

O homem escondido
não viu nada
fecha os olhos e parte.

Na manhã seguinte as ruas
presidem o silêncio
e a vida escravizada.

POEMA DO TEMPO PERDIDO – Rafael Rocha


Do livro “Felizes na Dor – Tributo ao poeta Charles Bukowski” - 2016
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ficar como hoje
(porra!)
na solidão de um pequeno quarto
um cigarro (um só cigarro!)
aceso entre os dedos
e sem cerveja
(essa é a merda maior de todas!)
deitado num colchão fino
posto no chão
por bondade de outros.

ainda estou magro para esse morrer...
mas, sim, se assim ficar
morrerei magricela
pois não tenho dinheiro
nem trabalho
ainda que um diploma de jornalista
esteja pendurado no prego
de minhas paredes de dívidas reais.

e toda manhã eu vejo os outros...
indo trabalhar e trabalhar e trabalhar
todo mundo ganhando dinheiro
indo aos botecos, bares e boates
fazendo a vida voar, voar, voar...

... ainda estou alegre
por ter um colchão no piso de cimento
para poder dormir e sonhar
com o que eu possa ser qualquer dia.

AMOR EST INSANIRE – Rafael Rocha


Do livro “Loucura” - 2018
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          Amor é coisa pouca.
          Amor é coisa muita.
          A verdade do amor é o desvario.
          Amor é loucura.
          Não é paraíso
          nem é algo divino.

               Dizem alguns:
               - O amor é lindo!
               Mas o amor não tem beleza!
               O amor é algo pirado
               que busca a dominação.
               Amor não tem juízo.
               Amor não tem vergonha.

           Amor não pede perdão
           quando chega nem quando parte.
          Amor não tem medo de odiar
          e mata também sem piedade.

                O amor é destrutivo.
               Não seria amor se não destruísse.

CHICOTE NOVO – Rafael Rocha

Do livro “Farol” – 2019
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Os pobres de espírito das cidades nuas
revelaram suas almas:
deram as espáduas ao feitor
prontos a perderem a paz e os sangues
sob o látego do chicote novo.

E nos próximos invernos...
E nos próximos verões...
Sem falar das estiagens agrestes...
Levarão até mesmo os humanos íntegros
a se perderem em dores pelas ruas.

Deixaram soltas nos ares as pragas
e puseram a esperança de volta
à antiga caixa de Pandora.
Os pobres de espírito das cidades nuas
vão conhecer a nova escravidão.

Os que se fizeram pássaros vão aos ares,
olhando com temor os ninhos
e os seus filhotes do futuro,
sentindo a extinção das vidas alegres
e os seus destinos incertos.

O medo e a doutrina do terror
retornam com armas, cruzes e salmos
às casas de todos os homens.

A ÚLTIMA DAMA DA NOITE – Rafael Rocha

Quarto capítulo do romance lançado no ano de 2002
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Marco Cícero soube da proximidade do “encantamento” de Maria Rosa exatamente quando deslizava em sua cadeira de rodas do quarto à sala de estar para o café da manhã.
A fumaça branca alcançou-o na sala e um cheiro adocicado de ameixas invadiu suas narinas. As lembranças acordaram-no ainda mais. Adiantou a cadeira de rodas até a varanda e ali se deixou ficar quedo com as lembranças.
Sua filha Marly pôs-se a seu lado. Olhando-a, ele viu nos olhos da moça o espanto de quem não entende mistérios e muito menos realidades fantásticas. Um sorriso bailou imperceptivelmente nos lábios e fê-lo acariciar as mãos da filha.
Assim, ambos ficaram envoltos pela fumaça e por odores estranhos exatamente às seis da matina. O semblante de Marly buscava enfrentar os olhos de Marco, mas ele os fechara para mergulhar nas reminiscências.
Respeitando o pai e sua história de vida, ela acariciou levemente o rosto do homem e deixou-o sozinho na varanda.
Recordava...
Quem eu quero não me quer/ Quem me quer mandei embora / E por isso já nem sei / O que será de mim agora...
Os dedos percorriam o violão com grande intimidade. O instrumento musical era o corpo da mulher amada, as cordas os sentidos. A música a voejar no ar se esvaía no prazer de ter sido criada, manipulada e acariciada com a experiência de dedos e mãos tão mágicas. Os frequentadores do bar se deixavam levar pela voz de Marco Cícero, como hipnotizados. As mulheres da vida esqueciam, por instantes, que estavam a vender o corpo e se entregavam por inteiro ao prazer da melodia triste e plangente, levada às janelas dos puteiros, onde desaparecia sobre os clamores de gemidos, ais e uis e dos rangidos das molas das velhas camas patentes.
Passo as noites meditando / Revivendo meu castigo/ No meu quarto de saudade / Solidão mora comigo
Os olhos de Marco pousaram na linda mulher de pele branca e grandes olhos castanhos a espiá-lo na mesa defronte e seus dedos quase esqueceram a melodia a dar sequência nas cordas do violão. Soube naquele instante: tinha alguém para usufruir a noite consigo. Viu, num relance, os olhos da fêmea dando-lhe a mensagem de que seria sua companhia noturnal até as estrelas desaparecerem do firmamento.
Por onde anda quem me quer? / Quem não me quer onde andará?/ O que será da sua vida? / Da minha vida o que será?
Levantou-se e, dedilhando o violão, dirigiu-se para os olhos de Maria Rosa que o fitavam embevecidos, com brilhos insinuantes de lubricidades inconfessáveis.
Ambos saíram do bar lado a lado, dobrando numa das ruas transversas à Avenida Marquês de Olinda, em direção à Vigário Tenório. Os fregueses do boteco de Tião Marinheiro ficaram a escutar a voz de Marco Cícero distanciando-se, e depois deram vazão aos seus instintos, levando os copos cheios de cerveja às bocas, acendendo cigarros, dando risos pueris e fazendo sinais às meninas da noite”, que só então começavam a “fazer sala” para eles.
Não sou capaz de ser feliz / Nos braços de um amor qualquer/ Ah, se uma fosse a outra/ Que eu amo tanto e não me quer.
Porém, os desvarios sexuais na grande cama de casal da madame” quase põem Marco Cícero em pandarecos. Acordou na manhã seguinte com os raios do sol a entrar pela janela do quarto da pensão. Vendo-se sozinho e nu, com a carne do corpo lacerada pelas unhas cortantes da mulher, amaldiçoou a hora em que a conhecera e se deixara levar pelos seus encantos.
“Devia estar muito bêbado! Ora, porra! Que papel de burguês de merda estou fazendo! Caralho!”
A porta se abriu inundando de luz o aposento e Marco Cícero ficou embevecido com a aparição. Nua, com os pequenos seios de mamilos arrebitados, Maria adentrava o quarto com uma bandeja cheia de comida nas mãos, onde também se via um estojo de primeiros socorros. A pele macia e branca da fêmea mostrava ao homem que ele não tinha se enganado na escolha da beleza para aquela noite. E, ainda mais, o cheiro a sair do corpo feminino começava a deixá-lo em transe ou, melhor dizendo, como um animal no cio.
Maria Rosa notou tudo isso.
− Coma primeiro pra ficar mais forte. Que ôme”! Quase me mata na noite passada. Fudedô” do cacete tu é, visse?
− Esquece a comida. Não tenho fome alguma. É você...
− Eu sei... Sei... Mas será muito mió cumê” o que eu trouxe e deixar que eu faça uns consertos nesses arranhões. Desculpe, mas fui obrigada a enfiar as unhas em tu antes da minha perseguida cair abaixo, visse?
− Você é linda! Você é...
− “Dispois... dispois... dispois... Seje” bonzinho e coma pra ficar “fortinho”. Sou tua “subremesa”, certo?
A sobremesa, na realidade, foi um “repasto” nunca experimentado por Marco Cícero. As carícias feitas em seu corpo pela experiente mulher punham-no em estado de excitação tão desesperado, que via até formigas deslizando nas paredes entrar em trabalhos sexuais.
Quando se compenetrou que deveria dar seqüência aos trâmites da verdadeira paixão, sentiu a mulher tentando por todos os meios fugir do seu contato. Mesmo assim ele buscava-a, sedento e faminto, querendo conhecer seus ardilosos segredos, mergulhar nos seus recônditos mistérios. Sabia-se um bom amante, mas naqueles instantes matutinos estava superando-se em todos os sentidos. O desejo escorria por suas vísceras como as águas do Capibaribe encontrando-se com as do Beberibe, buscando as espumas do mar.
De repente, notou como a mulher enfraquecia suas defesas, enfiava-se com tudo e quase toda dentro dele, agoniada, molhada, deslizante, suada e praticamente vencida. Ouviu-lhe o grito furioso de fêmea no cio, o gemido longo e gutural, seguindo-se o gozo mais fantástico que ele nunca vira na vida. Pela boca, pelos olhos, pelas narinas e pelos outros orifícios do sinuoso corpo, Maria Rosa soltava longos e odoríficos vapores de fumaça branca e o envolvia num abraço mágico e atordoante.
Voltando de suas reminiscências, Marco Cícero, antes de chamar sua filha e pedir-lhe que pusesse a mesa para o café da manhã, exclamou: 
− E agora ela está morrendo! Como é que pode morrer uma mulher como aquela? Como é que morre uma mulher como aquela?...