segunda-feira, 2 de setembro de 2019

ANDANÇAS – Rafael Rocha

Segundo capítulo do livro homônimo lançado em 2018
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MATANÇA E VINGANÇA
Terêncio Nunes não conseguiu salvar o pequeno povoado de Calumbi naquele dia de março de 1920. Tinha armado todos os seus homens, inclusive os jagunços vindos da Bahia. Distribuíra farta munição, mas os seus comandados não estavam devidamente prontos e aptos para enfrentar os perigosos cangaceiros de Zé Viola.
Apesar da renhida luta entre os homens de Terêncio e os cangaceiros (iniciada com um longo tiroteio, culminando com a invasão da pequena vila por dezenas de homens armados com fuzis, facões e punhais), a resistência dos seus habitantes terminou cessando.
Ainda que todos ou quase todos tenham se rendido, o bandoleiro fez uma carnificina e depois deixou na praça do povoado um círculo macabro de cabeças degoladas. Aqueles que não morreram resolveram ficar ao lado do vencedor.
E tiveram de entregar tudo que possuíam de mais caro, fossem objetos de ouro, prata, dinheiro ou, como o bandido gostava, a entrega, sem protestos, das meninas mais bonitas e tenras para serem descabaçadas por ele e seus lugares-tenentes.
Terêncio foi o último a perder a vida.
Conhecedor das macabras e sanguinolentas ações daquela escória, ele não cedeu em sua luta, mesmo sabendo-a inglória. Na verdade, lutava mais por si próprio e por sua família.
No exato momento em que seu punhal rasgava o ventre de um dos cangaceiros, o choro de seu filho recém-nascido ecoava dentro da casa grande.
O punhal e o facão de Terêncio Nunes respingavam sangue, quando uma de suas criadas, nhá Zefa, enrolou o menino em alguns panos, colocou num cesto de palhinha e se embrenhou pelas ruas escuras do povoado.
Ela enfrentou o perigo com destemor. Embrenhou-se por entre os cactos, os pés de palma, os mandacarus e outras plantas da caatinga, seguindo em direção à fazenda Ingazeira, ali perto, (questão de quinze minutos de caminhada) onde colocou nos braços sexagenários do “coronel” Otaviano Nunes, pai de Terêncio, o pequeno e ainda não lavado corpo do neto.
– O que aconteceu, mulher? – inquiriu o “coronel”.
– Uma tragédia, senhor! Os cangaceiros... eles... eles... foram lá... mataram quase todo mundo.... muita gente morta...
Imediatamente, o “coronel” Otaviano entregou a criança aos cuidados da criadagem, e, a seguir, convocou e armou todos os seus homens.
Aos melhores atiradores entregou alguns modernos Winchesters trazidos da terra dos ianques por seu outro filho Antenor Nunes, já morto pela tuberculose, e partiu para defender o rebento mais velho.
Também enviou um emissário, solicitando ajuda urgente aos Pereira, da vila de Princesa Isabel, na Paraíba, seus amigos e compadres de longa data.
Quando o “coronel” chegou a Calumbi, a vila estava envolta em uma fedentina de corpos mortos, inchados e dilacerados pelos cães de rua, com os seus moradores trancados a sete chaves, temerosos de olhar para o macabro círculo de cabeças degoladas disposto na praça central.
Ele alcançou a casa do filho Terêncio e deu um urro de animal ferido ao ver o corpo da nora ensanguentado e cheio das marcas selvagens de múltiplos estupros. Na cadeira de balanço, na varanda da casa, indo e vindo ao sabor do vento, estava a cabeça de seu filho coberta pelas moscas.
Enquanto rasgava as vestes e urrava como um louco, agarrado ao corpo de Terêncio, chegaram os homens dos Pereira, da vila de Princesa.
Soube, por eles, que o bando de Zé Viola estava acampado nas proximidades das Furnas dos Cavalos, perto da povoação da Baixa Verde e isso bastou para que o sexagenário homem solicitasse vingança aos espíritos infernais da caatinga.
Ajudado por um dos seus capangas, montou em seu cavalo e partiu em busca de sangue para a sua honra:
- Venham comigo! Vamos matar todos aqueles filhos da puta! Todos!
Os cangaceiros de Zé Viola foram (em sua grande maioria) presos e esquartejados nas Furnas dos Cavalos por um bando de homens mais enlouquecidos e sedentos de sangue do que eles.
O chefe foi agarrado, juntamente com a sua mulher Marinalda de Jesus, quando tentava fugir por entre as plantas espinhentas da caatinga. Ambos se arrastavam como ratos sob o sol causticante do sertão, com a mulher maldizendo o marido, chorando e buscando proteção divina para o fruto de seis meses abrigado em seu ventre. De nada adiantou. Presos e levados à presença do “coronel” Otaviano foram supliciados na base do esquartejamento aos miúdos. O cangaceiro Zé Viola ficou por último para ver Marinalda de Jesus sofrer as dores do inferno e a fúria da vingança.
O próprio “coronel” Otaviano fez questão de enfiar seu facão do mato na barriga da mulher, na base do umbigo, rasgando o útero e matando o feto lá no fundo do ventre. Depois, o arrancou das entranhas da cangaceira, elevou o pedaço de carne para o alto como um troféu cobiçado, e o dilacerou com um só golpe do facão, do meio das pernas à cabeça.
Zé Viola, amarrado em quatro estacas enfiadas no chão por vários cordames, com as pernas e braços abertos, a se recortar como um X no solo ressecado, ainda teve coragem para insultar o “coronel”.
 - Velhote, filho de uma puta!
 E quando o facão do coronel decepou os seus órgãos genitais, e depois se enfiou desde o estômago até sua espinha dorsal como faca quente na manteiga, o bandoleiro ainda conseguiu escutar antes de mergulhar nos braços da morte:
 - Morra! Prefiro ser um filho da puta vivo do que um filho da puta morto!
 No restante daquele dia os homens do “coronel” Otaviano se dedicaram ao trabalho de esmigalhar braços e pernas, orelhas e órgãos genitais.
Retiraram dos dedos e dos pescoços degolados dos bandoleiros, joias dos mais diversos tipos. Recolheram as armas brancas, as espingardas e fuzis, os víveres, os jumentos e os cavalos espalhados pela caatinga, fugindo do cheiro de sangue fresco a deslizar pela terra seca e pelas rochas.
Os pedaços de dedos, cabeças decepadas, braços e pernas dos cangaceiros mortos foram jogados e dispersados numa extensão de quase dois quilômetros pelos homens do “coronel”.
Quando o sol começou sua sinfonia do poente, a imensa lua cheia sertaneja nasceu totalmente rubra como se tivesse testemunhado a cruel e sangrenta vingança.
Depois desse dia de fúria, o “coronel” Otaviano iniciou a educação do neto, prometendo a Deus, ao mundo e aos homens, que viveria outros vinte anos para observar o crescimento do rapaz.
Planejou tudo com o único filho que lhe restava, o raquítico João Maria, cujas más línguas sertanejas diziam que ele estava morrendo de sífilis devido às suas reinações com as quengas da velha Maria Peixoto, lá nos cafundós da fazenda Saco, em Vila Bela, atual Serra Talhada.
João Maria recebeu poder nas propriedades do filho de Terêncio para fazê-las prosperar mesmo sob as mais variadas intempéries que sempre assolavam o sertão.
Em contrapartida, o “coronel” Otaviano cumpriu a promessa de viver mais vinte anos e, quando seu neto completou os 19, ele, já penetrando nas sendas da morte, recordou que se esquecera de batizá-lo por causa da fúria acumulada em sua mente naqueles dias de vingança.
Nesses anos todos, ele nunca soube que os habitantes de Calumbi já tinham na ponta da língua o nome do rapaz. Ainda assim, chamou o padre do povoado, o holandês Dickens von Derley, e ordenou que ele batizasse seu neto com o nome de Otaviano Nunes Neto.
No entanto, o rapaz foi inscrito no batistério da pequena igreja de Calumbi como Otaviano Neto do Nunes. 
Tudo porque o religioso estrangeiro preferiu confiar na sabedoria do povo da terra do que na palavra de um homem beirando os 90 anos.

DESDENHO – Rafael Rocha

Do livro “Loucura” - 2018
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À porta da insanidade o homem saudável
canta uma ária feito louco cidadão.
Seu ritmo é repleto de pedidos
por fêmeas cheias de paixões vivazes.

A loucura desdenha o homem são
a pedir uma chave para abrir a porta:
- Não merece entrar em minha casa
e muito menos habitar essa morada.

O homem saudável desejava viver
os instantes de um louco vivaz na terra
buscando a filosofia do nada e do seu deus.
(Ser um divino humano)

Retirou-se assim da esperança
e fez da própria vida um inferno
para ser chamado de louco
no tempo que lhe restava na terra.

A VOLTA DOS RINOCERONTES – Rafael Rocha

Do livro “Farol” – 2019
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Flores cinzentas em jardins suspensos
matam o desejo sexual dos homens.
O odor dessas flores é de enxofre
quando mulheres catalogam orgasmos
e deixam de expandir os gritos
nos lençóis das camas e travesseiros.

Viver está se tornando uma farsa...

Os rinocerontes voltam às ruas,
atropelando sem piedade os pensadores.
Os caminhos até as mulheres amadas
são fechados com cercas de ferro.
Os caminhos até as águas límpidas
são vigiados por capitães-do-mato.

Morrer é mais fácil do que antes...

Os poetas e os idealistas e os sonhadores
esperam flores coloridas nascendo livres
como novas crianças nos jardins suspensos.
A Terra-Mãe está repleta de angústias.
Os vulcões entrando em erupção.
E os rinocerontes marchando pelas ruas.

Permanecer humano passou a ser estranho!

domingo, 1 de setembro de 2019

A ÚLTIMA DAMA DA NOITE – Rafael Rocha

Sétimo capítulo do romance lançado no ano de 2002
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Luiz Ferrari já se arrependera da aventura em que se tinha metido. Junto com mais três seminaristas saíra do seminário de Olinda, naquela fria noite de julho de 1951, com a intenção de conhecer o Recife e agora rezava a todos os santos pela ocorrência de um milagre de retorno rápido à sua cela no seminário.
Desde o mês de março tinha sido interno por seus pais, numa jura familiar da necessidade de se ter um padre na família para Deus colocar suas bênçãos sobre todos.
Não perguntaram se ele desejava isso. Nem ele mostrou sinais de rebeldia. Tinha sido educado por suas muitas tias solteironas para aceitar a vida religiosa e não sabia discernir o verdadeiro sentido da vida sem Deus, a Virgem Maria, o Crucificado e demais santos. Mas agora estava num local desconhecido e para ele pavoroso!
Nunca em sua vida conhecera ruas tão sombrias, onde grupos de mulheres vestidas indecentemente o abordavam, tocavam e falavam obscenidades.
A presença delas trouxe-lhe a lembrança o seu preceptor no seminário, o abade Giacomo Vitale, que sempre procurava mostrar que o principal perigo do mundo não era o Diabo, e sim, seu emissário, a mulher, enviada à Terra para tentar e levar ao inferno as almas dos homens.
Na Bíblia, todos os internos estudavam que a mulher nascera de uma costela de Adão, porém, muito mais do que isso era colocado na mente deles pelos preceptores.
“Por causa da mulher, Adão pecara e perdera a vez no Paraíso. Tudo por obra e graça da mulher, por ter levado em conta os conselhos da serpente, alma viva de Satanás”, diziam.
Seus três companheiros tinham praticamente desaparecido. Entraram em um daqueles sobrados, onde se escutavam gritos e gemidos, algazarras parecidas com festas e orgias. Perambulando pelas ruas do Bairro do Recife, Ferrari rezava a Deus e a todos os santos pedindo para não cair nas garras do demônio, quando uma sombra o alcançou na esquina da Rua do Bom Jesus com a Avenida Rio Branco.
Le garçon est-il perdu? Qu'est-ce qu'un garçon mignon fait dans la rue à la fois comme ça?
Procurou ver quem assim falava, misturando francês com um português estranho, e se viu cara a cara com Hely D’Anjour. Não imaginava que figura podia ser aquela. Olhos amendoados como os dos orientais, pálpebras pintadas de azul, mãos de longos dedos, onde o vermelho das unhas fazia um contraste com a capa branca caída sobre os ombros, quase alcançando a cintura.
Olhou e viu os lábios grossos, pintados de carmim, mostrando um sorriso lúbrico. Só não entendeu aquele desejo e luxúria a tremeluzir neles.
Emudecido, imaginando que aquela figura só podia ser o diabo em pessoa, o seminarista apressou o passo para fugir, porém D’Anjour foi mais rápido. Em um átimo estava ao lado do rapaz.
Nadim de temer d’mim, chèrie. Se tá perdido qui pr’ajudar. Sei tudo de cá, mas oui....
− Não sei o quê... Não sei nada... Tô querendo voltar pra casa e...
− Ah, oui... O queridim tá perdido... Pobrezim, pobrim.... Mass pooode deirrar as côsas aqui com a Berta. Sou a Roberta Cucu, a forfura darqui... Posso fazer chèrie munto ferliiiz.
− Não posso... Preciso voltar... Não sei como...
− Ah, ora nô... Nô pudê ir ora . Pr’onde querres ir, hein, mon enfant? Diz, diz...
− Preciso voltar pro seminário! Não sei ir... Não sei onde estou... Eu... Eu...
Pobrim de ti, mon petit! Mas deirre. Mainha darrá jeitim.... Ei, avez-vous dit séminaire?
− Sim, do seminário... Seminário... Vou ser padre... Tô no seminário de Olinda... Saí com uns colegas e eles me deixaram por aí... Perdi-os... Perdi-me... Pode me ajudar? Você pode me ajudar?
Oui, clarro, chèrie! Pooosso, poooossso, poooossooo... Porrém, ooolhe. Olinda é looooonge e arroraaa nô carro pr’alá. Nô tem jeitim. Une heure du matin et le petit prêtre dans la rue! Terrible! Que côsa! Pecaaado, pecaaado, pe-ca-dooo! Vem cá d’mim pro quentim e manhãzinha mostro como vorrtar alá. Oui? Tá certim?
− Não sei se devo... Não se devo tirar você do caminho... Você vai pra casa, não vai?
−Ah, mon amour, mon petit! Clarro! Clarro! Je rentre à la maison! Bien... É log’ali pertim. Ter um cantim só d’mim. Lá o petit amour vai drumir e logo a solar sol levo o meninim a pegar quarrrquer carro pr’Olinda e prontim, prontim... Tá bien, chèrie?
O seminarista Ferrari olhou para o acompanhante. Não sentiu perigo aparente, mesmo com os instintos apregoando ser melhor esperar o dia nascer ali mesmo na rua. Todavia, o corpo pedia um lugar quente.
A frieza da madrugada estava pondo-o em estado de torpor desvairado. Não achou ruim aceitar o convite daquela figura estranha, meio homem e meio mulher. 
Quem seria mesmo? Disse chamar-se Roberta, mas estava dando a impressão que tudo isso eram apenas maneirismos e gestos estudados. “Que mal ele pode me fazer? Está oferecendo ajuda... Por que não?”, pensou Ferrari. Assim, decidiu acompanhar D’Anjour.

sábado, 31 de agosto de 2019

OLHOS ABERTOS PARA A MORTE – Rafael Rocha

Oitavo capítulo do livro homônimo lançado no ano de 2012 – Agraciado com Menção Honrosa pela Academia Pernambucana de Letras (APL) – Prêmio Vânia Souto Carvalho (2011)
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Tirar boas notas e sobressair-se além dos outros colegas na escola, tornou-se uma obsessão para Fernando Clemens. Essa obsessão foi criada no ambiente familiar por intermédio do seu pai, o coronel de infantaria Wellington Clemens, caxias por natureza e instinto. Os castigos corporais que ele infligia ao filho, caso suas regras não fossem obedecidas, tornaram-se fatores específicos para que o jovem seguisse à risca tudo que lhe era ordenado. Assim foi desde que iniciou o curso primário, aos sete anos de idade, até o término do colegial, aos 17 anos. Suas notas em todas as disciplinas eram as maiores. Tanto que terminou sendo apelidado de “enciclopédia” pelos colegas.
Além disso, sempre seguindo os conselhos do pai, era mão fechada em tudo que dizia respeito aos estudos. Não repartia seus conhecimentos com ninguém. Não fazia parte de grupos de estudo. Tudo era para ele mesmo. Na ocasião das provas buscava sempre ficar bem distante dos colegas para fugir da cola. Sabia que muitos buscavam com os olhos descobrir o que ele colocava em resposta às questões. Ninguém descobria nada porque ele escondia muito bem com as mãos, debruçando-se todo sobre a carteira escolar, dando as costas aos colegas. Deixou de ser conhecido como “enciclopédia” para tornar-se “livro lacrado”.
Por causa desse comportamento, não tinha amigos. Era um solitário na ida para as aulas e no retorno para casa. Enquanto grupos de alunos se juntavam no recreio para todo tipo de brincadeiras, ele ficava em um canto a ler ou a rever seus apontamentos escolares. Não sabia, porém, que, fora os meninos, as meninas gostavam de debater entre si sobre aquele comportamento diferente e a apostar, qual seria aquela a conseguir tirá-lo do sério.
Ele gostava muito de olhar para uma delas, mas na sua circunspeção não fazia mais nada. Vera Lúcia, a mais bela e namoradeira, colocou sua fama em jogo, ao apostar que conseguiria a conquista. O caso chegou ao conhecimento do restante dos alunos e as apostas começaram a ser feitas. Fernando tinha 14 anos e cursava o quarto ano ginasial, equivalente hoje à oitava série do fundamental.
Foi nesse espaço de tempo que um novo aluno ingressou no educandário. Tratava-se de Eric Souza. Logo que Fernando o viu antipatizou com ele. O sentimento foi recíproco. Atrasado nos estudos, galanteador e excêntrico, Eric tentou se envolver com Vera Lúcia. Ao saber da aposta feita por ela junto com os colegas da escola, não gostou, dizendo que seria muito melhor dar uma lição especial em Fernando, fazendo com que os professores perdessem a fé no rapaz. Para isso ele, Eric, estaria disposto a ir até às últimas consequências.
Os outros alunos mostraram ao Eric o quanto Fernando era diferente. Tinha o perigo enraizado nas veias. Não era uma pessoa normal como eles. Mas o novato fez ouvidos surdos a todos os conselhos. Contaram o que ocorrera com Clodoveu. Eric riu e disse que se fosse com ele a história seria outra. Na verdade, Eric se aproveitava do seu avantajado porte físico de praticante de pugilismo. Além disso, sua idade estava muito à frente da idade dos outros alunos. Eric já tinha completado os dezoito anos.
Um dia, quando o professor de História faltou à aula por motivo de doença, Eric estava na sala cercado pelos outros alunos, a tagarelar. Um pouco distante, em sua carteira, Fernando escutava. Descobriu então que as ideias de Eric estavam ligadas ao socialismo e ao comunismo. O rapaz não escondia de ninguém que participava de um grupo ligado ao Partido Trotskista. Sem querer, Fernando escutou elogios a Lênin, a Trotsky, descobriu-se a conhecer pela voz de Eric o Manifesto Comunista, livro que o rapaz sempre levava no bolso. Ouviu maldições e todos os tipos de condenações aos Estados Unidos da América do Norte.
Eric viu que seu discurso estava alcançando os ouvidos de muitos dos colegas e continuou a catequese. Ao virar o rosto para trás, seus olhos encontraram os de Fernando. Fixaram-se olhos nos olhos. Cada um descobriu naquele exato momento como estavam em lados opostos. Eram inimigos. “E você, livro lacrado, não vai falar nada? Vai ficar calado só escutando, é?”, perguntou Eric agressivamente, e como não recebesse resposta, saiu do lugar de onde estava e se aproximou de Fernando. “Você não acha que já está na hora de o Brasil deixar de ser o quintal dos norte-americanos, livro lacrado?”, perguntou Eric.
Como sempre, Fernando não estava com afinidade alguma para discutir. Virou o rosto para o livro que estava lendo, tentando fazer Eric deixá-lo em paz. Nesse momento, Clodoveu entrou de gaiato na conversa. “Não adianta, Eric. Ele é um dos tais. Ele é dos verde-oliva. O papai dele é coronel do Exército”. Fernando pousou seus olhos frios nos olhos de Clodoveu que, assustado, baixou a vista, mas logo recuperou a dignidade ao escutar Eric dizer. “Que surpresa! Então o papai dele veste farda, é? Faz mal não. Muita gente que veste farda também vai apoiar a revolução. Quem sabe o papai dele possa apoiar a gente. Quem sabe, não é?”
Fernando resolveu deixar de escutar a conversa. Sentiu mais do que descobriu que a situação iria descambar para alguma agressão e queria ficar longe disso. Não estava querendo ser agredido. Olhando o perfil de Eric descobriu que não iria longe como na briga com Clodoveu. Levantou-se da carteira para sair. Porém, Eric o segurou pelo pulso e com toda força o obrigou a sentar-se de volta. Os outros alunos ao verem que Fernando dessa vez estava em apuros, riram e o cercaram, com Eric na frente a comandá-los.
“Não saia do lugar, livro lacrado! Hoje é tudo muito diferente. Não sou Clodoveu, nem você vai enfiar lápis no meu rosto”, disse Eric. “Agora, responda para mim. Eu perguntei a você e quero que você responda. Você não acha que o Brasil deve apoiar o comunismo e deixar de ser o quintal dos ianques? Vamos, livro lacrado, responda!” Fernando levantou os olhos e olhou Eric. “Não sei nada disso! Só quero estudar. Quero ficar em paz”, reclamou. Notou como Eric franzia o cenho. Tentou se levantar de novo e foi empurrado de volta à carteira. Dessa vez com violência. Sua cabeça bateu contra a parede. A dor foi forte, mas fez de conta que nada sentira.
Do outro lado da sala de aula, as meninas olhavam de vez em quando para o grupo de rapazes. Não sabiam o que estava acontecendo, mas também sabiam não ser da conta delas, não era da alçada delas se meter naqueles assuntos. Apenas Vera Lúcia, mais afastada, punha seu olhar tanto em Eric como em Fernando. A seguir, ela se esgueirou e saiu da sala. “Quero ficar em paz!” reclamou Fernando. “Deixem-me em paz!” Tentou outra vez se levantar e ninguém impediu. Ao tentar dar um passo à frente viu que Eric se pusera em pé e estava fechando com seu corpo todo o espaço. “Deixe-me passar. Deixe-me passar”, pediu.
Além de não ser atendido, teve seu estômago atingido por um formidável soco. A seguir, Eric, com a mão aberta o acertou na altura do peito. Caiu no chão. Depois, ganhou várias bofetadas no rosto. Um soco no nariz. Escutou alguém gritar que a diretora estava vindo. Foi erguido por Eric e posto sentado na banca de estudos. O nariz sangrava. Uma tremenda dor no peito fazia com que sua respiração ficasse opressiva. 
“O que aconteceu por aqui?”, perguntou a diretora auxiliar. “O que há com você menino? Está sangrando. O que houve por aqui?” Como não obtivesse resposta, achou por bem levar Fernando até o ambulatório para medicá-lo. Depois retornou e olhando os alunos um a um disse: “Tenho tempo e vocês também vão ter tempo demais. São dez da manhã e não teremos mais aula, porém ninguém sai desta sala até que eu saiba o que aconteceu”. Quando o relógio marcou meio-dia, a diretora auxiliar suspirou e resignada liberou os alunos para casa. Durante todo esse tempo ninguém dissera nada. No portão de saída, Eric segurou firme no pulso de Vera Lúcia. “Foi você, não foi? Foi você que avisou a diretora, não foi? Não faça mais isso, sua piniqueira safada. Nunca mais faça isso.”

LIGAMENTOS – Rafael Rocha

Do livro “Abismo das Máscaras” - 2017
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Ao vê-la nua e toda aberta em minha cama
anseio pelos seus aromas e sabores
e espalho aos ventos errantes pelo quarto
as convulsões das entranhas e dos espasmos.

As paredes cinzas são agora cúmplices
de quando os corpos se agarram sacolejantes.
De quando as bocas fremem as luxúrias
molhando as fronhas, os lençóis e os travesseiros.

Ela oferta o corpo e como estando enlouquecida
grita em silêncio pela mágica das deglutições
e espalha líquidos quentes por todos os espaços

de onde eu suguei o néctar salgado dela mesma
e de onde penetrei macho sem meios termos
ligando a paixão carnal ao limbo da esperança.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

VINDA – Rafael Rocha

Poema inserido no livro “Meio a Meio” 
publicado no ano de 1979
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Cheguei perto de vários crepúsculos
e de imensos ventos traiçoeiros
sem saber falar a verdade do amor branco.

No dia em que cheguei fui repartido
em muitas partes distintas.
Deram-me o silêncio e eu recusei.

Cheguei quando a noite
roubava territórios ao dia
e quando vozes fracas
ricocheteavam nos muros:
Deram-me uma solidão perdida e eu recusei.

De tantas outras vezes fui repartido
mas construí minha solidão própria.
Senti-me imensidade de olhos gastos.
Mãos vazias e grandes pés sem conforto.

Disseram-me que eu partisse.
Deram-me o amor gasto pelo dólar.
E então eu decidi ficar e chegar de novo
com os braços abertos
para o vento e às montanhas.