domingo, 8 de dezembro de 2019

ONTEM – Rafael Rocha

Do livro “Abismo das Máscaras” - 2017
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Eu escrevi em dezenas de cadernos
o encantamento das palavras
e perguntei por mim nas entrelinhas:
- Onde estás?

Na verdade estive morto no último inverno
dentro de um poema sem causa
e ressuscitei sob a luz do astro-rei
encontrando a mim mesmo
no lugar onde eu estava.

Não sei bem se o amigo entendeu a lavra
dos poemas escritos no último verão
(sei o quanto ele deve estar ansioso)
declamando o sonho de ser
antes de seguir direto para olhar o sol poente.

Olhando as espumas no meu copo de cerveja
pensei na primeira e na última mulher.
Fiz a pergunta que se faz traiçoeira:
- Onde elas estão?

Na verdade tudo era um ontem.
Não apenas eu
mas o mundo inteiro.

sábado, 7 de dezembro de 2019

RELÍQUIA - Rafael Rocha

Do livro “Meio a Meio” – 1979
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Eu te amei numa noite de chuva.
Não sei se fui o homem adequado,
mas sei que fui sensível
sabendo cavalgar tua carne macia e branca.
Não por amor dos obscuros fatores da vida.
Sim por plena satisfação dos nossos anseios.

Fui extremo e concessivo na firmeza da paixão.
Apertei-te a mim com agrado
e dei-te a delícia de mim.
Defendi teus instintos animalescos
e tuas justificativas.
E não te fiz muito mal quando pediste
a possessão dos felinos ou quando me envolvi
no perfume das tuas gramíneas

Dei o que querias!
Fiz justiça ao teu sexo
de suavidade máxima e promessas
e deixei que na partida o beijo
fosse um agrado mais de amigo que de amante.
Retirei-me lentamente
após a breve acumulação em ti.

Dei adeus enquanto dormias
satisfeita das minhas prodigalidades.
Dentro de ti restou o pedaço de um bardo.
Quiçá um novo artista.
Outros, que não eu, segarão teu horto
amadurecido por minhas águas
e trarão à luz da terra 
hinos aprisionados de nós mesmos.

ARQUIVO MORTO – Rafael Rocha


Conto inserido no livro “O Espelho da Alma Janela e outros Contos” - 2009 - Livro agraciado com o Prêmio Leda Carvalho - em 1988 - pela Academia Pernambucana de Letras (APL)
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O seu trabalho será fácil. Não se preocupe. Consistirá simplesmente em juntar estes papéis datilografados a qualquer uma destas pastas de cor azul. Um conselho: você não deve ler o conteúdo datilografado. Por quê? Ora, não é da sua conta. Depois de juntar os papéis às pastas azuis, numere-as com o número de ordem e arquive-as na estante possuidora do número. Apenas isso. Muitas vezes não terá nada o que fazer e, nesse caso, fique esperando. Sempre aparecerá algum serviço para você. Mas não durma. Espere acordado pois, com toda certeza, digo-lhe isso por experiência própria, você sempre terá algo para fazer, nem que seja pensar nos seus próprios pensamentos”.
– Que papel estarei representando?
“Simples. Você estará guardando coisas impossíveis de serem renovadas hoje. Vamos dizer: você é um Vigia da Renovação. Algo assim como um guardião de objetos que poderão ter uma serventia em outros dias, mas que hoje não prestam para nada. Você, porém, nessa função, procurará manter em ordem, sem poeira, que é o envelhecer do tempo. Tudo em ordem para ser usado em alguma ocasião específica. Essa ocasião específica aparecerá de uma forma ou de outra e você um dia terá de prestar contas de seu serviço. Por isso, faça-o com perfeição. Será bem pago todos os meses. Não haverá motivos para reclamações”.
– Estarei sempre só neste cubículo?
“Sim, estará sempre só. Todos os dias quando chegar, encontrará novos papéis datilografados sobre sua mesa. Seguirá a regra já exposta, que é muito fácil. Não há possibilidade de erro. Note que o próximo número a arquivar está na casa dos quatrilhões, mas não se incomode com isso. Siga a seqüência que tudo dará certo. Não há nem haverá motivos para preocupações”.
– Mas, estando eu sozinho, não cederei à tentação de ler o que vem escrito nos papéis?
“Você foi escolhido dentre muitos porque temos a certeza de que é incapaz de fugir a uma regra. Sua mente não comporta coisas acima dos conhecimentos que possui. Muito menos uma fuga da ordem estabelecida, porque você é obediente e, por ser assim, temos como certo que é incapaz de penetrar nas sendas contrárias. Por isso confiamos em você. No dia que cismar e tomar ao pé da letra a vontade de ler o conteúdo destes papéis, saberá de antemão o que acontecerá consigo”.
Portanto, doutor, eis todo o retrospecto do caso. Não vá agora pensar coisa ruim de minha pessoa se, hoje, após tudo isso, eu tenha desobedecido às regras estabelecidas, tornando-me inconveniente ao meu próprio trabalho. Após dez anos exercendo a profissão dentro daquele estreito espaço, arquivando papéis que não sabia quem colocava na mesa toda manhã, já que como foi dito, não era da minha conta, deu-me um dia vontade de conhecer o conteúdo dos mesmos. Lembro-me bem doutor, foi numa sexta-feira, quando fiquei absolutamente sem fazer nada. Não podia dormir, era proibido. Alcançou-me então uma sensação estranha. Algo que me espicaçava a cabeça como uma agulha penetrando fundo no meu cérebro:
– Que segredo se escondia naqueles papéis?
Ora, isso não era da minha conta. Isso não devia ser do meu interesse. Mas as horas passavam e, quanto mais o ócio me envolvia, a curiosidade aumentava. Claro que sei o que o senhor vai perguntar: só teve curiosidade em saber disso depois de dez anos de trabalho? É, doutor. É. Não dá pra entender realmente. Nem posso explicar com certeza. Mas, sentado no centro daquela sala, com toda aquela solidão de papéis ao meu redor, senti coisas diferentes nesse dia. Notei, por exemplo, durante dez anos eu tinha arquivado muitas pastas (milhares) e as estantes continuavam como no primeiro dia em que ali chegara, com os mesmos espaços abertos para novas pastas azuis. Isso me deixou embatucado. Por que? Comecei a perguntar dentro de mim. A lógica mandava que aquele cubículo deveria estar abarrotado de pastas arquivadas. Porém, continuava com a mesma aparência do meu primeiro dia de trabalho.
No caso do trabalho, sempre fui muito pontual. Chegava no horário determinado, às 10 horas em ponto e largava às 15 horas, todos os dias. Ninguém além de mim no local. Nunca vi pessoa alguma colocar novos papéis sobre a minha mesa. No princípio, pouco me importei com isso. Estava ganhando o suficiente para me manter no mundo e, bastando seguir as regras estabelecidas, tudo estaria bem. Só, como eu já disse, uma agulha começou a espicaçar meu cérebro e, a partir daí, eu, que nem sequer olhava os papéis e os escritos das primeiras laudas (digo laudas, porque sempre vinham separadas, grampeadas para que o trabalho de arquivar fosse mais rápido), comecei a olhar de viés para a folha inicial. No início não prestei muita atenção. Vi, é claro, palavras escritas, mas não procurei lê-las atentamente. Até que, na última sexta-feira, tomei coragem e pus meus olhos sobre a primeira de umas quase trinta laudas datilografadas e tive uma surpresa: Na primeira folha estava escrito apenas o nome: J.L…
Curioso, dei para abrir pastas e pastas e a ler o primeiro nome que vinha escrito na primeira folha. Encontrei muitos Paulos, Joãos, Marias, Pedros, Fernandos, Rosas, Marcos, Silvas, Albuquerques, Cavalcantis, Rodrigues, Cardosos, centenas de nomes e sobrenomes. Para ser mais sincero ainda, no começo só li os nomes escritos na primeira folha. Não me interessei em saber qual era o conteúdo das outras. O que me intrigava era aquela pasta que continha o nome J. L… A última daquele dia de trabalho (o mais cansativo dos dias de trabalho que eu tive em dez anos). A última pasta que eu teria de arquivar naquele dia e, por estranho que pareça, J. L…, doutor, é o meu nome e sobrenome.
Que faria o senhor na minha situação?
De certa forma, não me interessa saber. Sei que eu me senti obrigado a ler o que estava escrito naquelas folhas, cuja abertura vinha com meu nome e sobrenome. Assim, dito e feito, comecei a folhear as páginas e vi, horrorizado, a história de minha vida escrita, parágrafo por parágrafo, com todas as vírgulas e pontos e reticências, desde meu primeiro choro ao sair do ventre de minha mãe, até… Bom, aí é que o caso torna-se complicado. Não consegui entender o final. Entender ou não, para ser sincero, não levo isso em conta agora. O caso é que tinha algo em relação ao senhor. Vi o seu nome numa das últimas laudas que falavam de mim e cá estou fazendo consigo esta análise. Não me considero idiota, não me considero louco, não sou paranóico nem psicopata. Estou aqui porque vi o seu nome na última folha, logo no fim da leitura (não deu pra entender o significado, pois as palavras começaram a perder o sentido) e tinha de haver, tem de existir uma explicação para tudo isso. De resto, depois do seu nome e da confusão de linhas e palavras misturadas, só encontrei uma infinita reticência. Como soube do senhor se nem o conheço, se nunca o havia visto antes? Fácil! Procurei na lista telefônica e paguei esta consulta como qualquer cliente. Agora, doutor, será que pode me explicar essa coisa esquisita? Será que pode me explicar esse troço? Principalmente porque, hoje pela manhã, encontrei na minha mesa de trabalho o pagamento de um mês inteiro de serviço e, como se diz na gíria, o “bilhete azul”. Eu quero uma explicação, doutor. Acredito que o senhor possa explicar tudo. Diga-me o segredo de tudo isso.
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Foi encontrado morto em seu apartamento, às 18 horas de ontem, o funcionário público identificado apenas como J. L… De acordo com o parecer do médico legista, a causa mortis foi suicídio desde que, após a autópsia, encontraram no seu organismo grande vestígio de barbitúricos.
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O psiquiatra Antônio M. R., foi encontrado morto, em seu consultório, às 20 horas de ontem, com uma bala na cabeça e duas no coração. A polícia ainda não conhece os motivos do crime.
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“O seu trabalho será fácil. Não se preocupe. Consistirá simplesmente em juntar estes papéis datilografados a qualquer uma destas pastas de cor azul.................... Você estará guardando coisas que não podem ser aproveitadas hoje............. Não há possibilidade de erro.....................Temos a certeza de que é incapaz de fugir a uma regra...................No dia que cismar e tomar ao pé da letra a vontade de ler o conteúdo destes papéis, saberá de antemão o que acontecerá com você”.

ESTAME – Rafael Rocha


Do livro “Marcos do Tempo” – 2010
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A estrutura dos meus poemas
É nivelada nos neurônios
Criadores das palavras
A trazer imagens e sonhos.
Essa estrutura é uma incógnita
Gira em tramas labirínticas
Tecidas em organizada mandala
De minhas experiências.

Organizo versos
Cantando calado
Letra a letra
Sem ponto/vírgula
Parágrafos vazios 
Músicas ocultas

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

PNEU FURADO E SEM MACACO – Rafael Rocha


Do livro “Contos Delirantes com Versos em Bolero” – 2017
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Como estão hoje os meus companheiros de há quatro décadas?
Lembro de histórias e das mais arrematadas loucuras que fizemos em bando pelas ruas do Recife e de Olinda lá pelos anos entre 1977 e 1980.
Sei que eles não mais estão a fazer aquelas farras homéricas e talvez seja uma tolice cair nesse despenhadeiro e relembrar fatos passados, mas como disse o Zeca, as histórias têm de ser contadas e, além disso, escritas.
- E quem melhor do que você para escrever elas, porra!? - perguntou Zeca.
Não sei se devo carregar a responsabilidade de escrever essas histórias, ainda que estivesse participando do grupo e me aventurando em espaços quase loucos da vida.
- Ao menos uma! - pediu Zeca.
 Sentados no bar Mustang, na Avenida Conde da Boa Vista, numa noite de sexta-feira, logo após sairmos das aulas na Universidade Católica, matutávamos para onde deveríamos ir.
Éramos cinco. Eu, Marcus, Evaldo, Henrique e Gilson.
Lá pelas tantas, ou seja, já depois da meia-noite quando nem havia mais ônibus pelas ruas, Henrique tomou a resolução.
- O Zeca disse que depois de sair da aula iria beber em Olinda. Lá no Bar Maconhão, à beira-mar do Carmo. E que se a gente quiser ir se encontrar com ele... Vamos?
Não precisou nem de votação. Unanimidade.
O problema agora seria achar transporte. Os ônibus já estavam nas garagens e não existia bacurau como hoje a funcionar de hora em hora. Ônibus agora só às cinco da matina
Apenas os táxis notívagos realizavam viagens e esses táxis eram fuscas de cinco lugares com o motorista.
- Vai ser complicado - disse Evaldo - Somos cinco e qualquer táxi só leva quatro.
- Vamos tentar com aquele táxi que está ali parado - falou Henrique – Pode ser que dê certo e ele leve nós cinco. Daqui para Olinda o cara ganha uma boa graninha.
- Problemático... problemático... - resmungou Marcus.
Eu preferi ficar calado e deixar que eles resolvessem o problema.
Henrique e Marcus foram até o táxi e falaram com o motorista por alguns minutos. Este, um senhor magro, cabelos grisalhos, olhou para a gente, pensou um pouco e aceitou.
- Tudo certo - disse Henrique - Eu disse a ele que somos gente fina, estudantes universitários e que queremos ir até Olinda para continuar a farra. Ele aceitou levar, mas fez um pedido: a gente paga um extra para ele.
Nossa sorte, naquela época, foi a de não sermos os roliços senhores que somos hoje devido à idade e às muitas cervejas. A magreza de cada um ajudou.
- Bom! - disse o motorista - O maior e mais forte de vocês vem na frente comigo. Os outros quatro se apertam no banco traseiro.
Gilson era o maior e mais forte. Ele se ajeitou na frente.
A arrumação no banco traseiro não foi muito fácil, mas conseguimos.
Fiquei até a perguntar aos meus botões se nós quatro tínhamos engordado a lataria do carro por mais meio metro.
Dito e feito, depois de todos se arrumarem, o fusca táxi saiu normalmente com sua carga e rumou para Olinda.
Viagem tranquila até que saímos dos limites do Recife e entramos nos de Olinda, quando, logo depois da Escola de Aprendizes Marinheiros, numa área erma, o pneu dianteiro direito estourou.
- Porra! - exclamou o motorista - Que azar! Puta merda!
Tivemos de descer do fusca.
- Vamos trocar o pneu! - disse Henrique - A gente ajuda!
O motorista coçou a cabeleira grisalha. Encolheu os ombros e falou:
- A merda é que estou sem macaco!
- Que beleza! - exclamei - Quero ver agora como vamos sair dessa! E ainda teremos de pagar a corrida até aqui.
Henrique, porém, era cheio de ideias.
- Nada disso! Com macaco ou sem macaco vamos trocar o pneu, deixar o carro ajeitado e ir para Olinda - falou.
- Como? - perguntou Evaldo.
Henrique olhou para o motorista e perguntou:
- Tem as ferramentas para desapertar os parafusos?
- Tenho, sim – apressou-se ele a dizer, abrindo o porta-malas dianteiro, pois o motor do fusca fica na traseira, e de lá retirando um montão de ferramentas, bem como o estepe.
- Ótimo! - exclamou Henrique, arrematando - Agora, vocês levantam o carro aqui do lado direito e eu retiro o pneu estourado, mas vejam bem, vejam bem, fiquem segurando o maldito fusca e não larguem o desgraçado. Não quero que essa lataria despenque em cima de mim.
Fizemos o que ele mandou fazer.
Eu, Evaldo, Gilson e Marcus erguemos o fusca. O motorista ficou ao lado de Henrique para ajudar, e este começou a agir.
Deu algum trabalho desparafusar tudo e retirar o pneu estourado porque o local estava bem escuro e o motorista usava apenas um isqueiro para clarear. De vez em quando o vento que vinha da orla marítima apagava a chama.
Mas Henrique conseguiu retirar o pneu e quando estava prestes a colocar o novo, um automóvel Galaxie preto parou ao lado e dele desceram dois homens com revólveres apontados em nossa direção.
- Parados! Polícia Federal! Fiquem parados e levantem os braços!
- Ninguém levanta os braços, porra nenhuma! - gritou Henrique, deitado no chão ao lado do pneu dianteiro tentando encaixar o pneu novo.
O motorista do táxi saiu do lado de Henrique, levantou-se e se encaminhou até os dois homens. Falou com eles durante algum tempo que pareceram longas horas. As armas continuavam apontadas para a gente.
Mas não largamos o carro. Afinal de contas, o Henrique estava lá em baixo e...
- Eles estão ajudando a colocar o pneu que estourou - explicou o motorista - Estou sem macaco e eles tiveram que levantar o carro.
Um dos homens fez a volta e foi confirmar o que o motorista falava. Olhou, guardou a arma num coldre axilar e disse para o companheiro:
- Relaxa e guarda a arma! Estão mesmo trocando o pneu! Vamos dar uma mãozinha.
Os dois vieram, e ajudaram a levantar ainda mais o fusca, facilitando o trabalho de Henrique.
Depois de tudo pronto, pneu novo colocado, carro no chão...
- Bom, vocês são rapazes corajosos. Ainda bem que fomos nós a passar por aqui. Estamos perseguindo quatro comunistas que fugiram do quartel general lá do Derby. E quando vimos vocês...
Lembro que o regime de governo da época era a ditadura civil/militar.
- Foi isso... Foi isso... - disse o outro homem - Tiveram sorte de sermos nós. Outros teriam atirado primeiro e perguntado depois.
A seguir, entraram no Galaxie preto e partiram.
Ficamos a olhar uns aos outros. Até que o motorista quebrou o silêncio.
- Como é? Vão ou não vão para Olinda?
Voltamos a nos ajeitar dentro do veículo e rumamos para a Marim dos Caetés. Já estávamos loucos para beber.
Chegando na frente do Bar Maconhão, descemos, fizemos a vaquinha e demos o dinheiro ao Henrique para ele pagar a corrida.
O motorista do táxi recebeu o dinheiro, contou, viu tudo certo, deu uma risada gostosa e exclamou para Henrique:
- Imagina! Imagina! Achar que vocês eram comunistas!
E o Henrique, com o rosto escurecido de graxa, inclusive as duas mãos, disse: 
- Nunca mais você vai encontrar comunistas iguais à gente!

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

POETA QUE SE EXPÕE E QUE SE ENTREGA

Prefácio escrito pela escritora e professora Divina de Jesus Scarpim – São Paulo/SP, para o livro “TUDO PODE SER AMOR” do poeta e escritor Rafael Rocha a ser lançado, no Recife, no próximo mês de dezembro de 2019
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Esse foi o segundo livro do poeta Rafael Rocha que li, e nessa segunda leitura senti tanto prazer quanto na primeira.
Desde o começo da leitura - e no livro inteiro - reencontrei a voz que me agradou no outro livro: o poeta-personagem que não se esconde, que se expõe e que se entrega, que me chamou várias vezes para tomar uma cerveja, vendo a vida da mesa de um bar.
Ah, como quis aceitar esse convite!
Quase posso vê-lo em poemas como “Realidade” e gosto dele porque desde sempre e em todo momento ele se expõe, na dor, na fragilidade, nas dúvidas e nas contradições que fazem o caos organizado e o egocentrismo de não se amar.
Rafael Rocha fala de amor - o título do livro deixa claro o tema -, mas o legal é que não é o amor piegas e óbvio, é o amor-confissão sem pejo e com doçura.
Na entrega da intimidade expor a alma não basta, entrega-se fisicamente, sem timidez ou falsos pudores, em toda sua humanidade nada recatada, como no poema “Masturbação”. Ele é humano, e isso é muita coisa.
Para começar, o poema de abertura - “Compulsão” - define amor sem plagiar Camões ou Gregório de Matos, embora em sua sinceridade confessional e artisticamente despudorada penda mais para o último.
E o amor, como o título entrega, é vário e variado, é paralelo e perpendicular, é específico e inclassificável, é o amor não idealizado que toca o cotidiano, é o amor à infância lembrada e perdida - “Instante” –, é o final do amor: a indiferença.
E no poema-título vemos o passar do tempo sem inconformismo, sem perda de esperança, sem raiva, suavemente amor.
A impressão que o texto passa é essa: até a morte pode ser uma forma de amor, porque o amor é pergunta e resposta.
Esse poeta-personagem humano e exposto, como não poderia deixar de ser e de fazer, não oculta e até destaca o sensual, o que é justo, porque sexo e amor, em casos e casos, são um. Por isso o amor é explícito e o sexo também.
Mas não se assuste! Não há o que temer porque a poesia não permite a pieguice, a apelação barata. E os encontros de corpos, no durante e no depois, são louváveis!
Explícito, poético e comovente - como em “Caminhos” - nosso poeta sabe falar de sexo com poesia de qualidade.
E - por ser quem é - não pode deixar de expor sua heterossexualidade explícita, “à antiga”, nas relações em que o masculino está forte e presente nas ações, nas fantasias do homem desejado e esperado pela mulher ávida e sedenta de seus beijos e do seu sêmen.
Ele é o heterossexual que, em “Buracos negros”, faz um belo louvor à mulher.
Ele é o poeta-personagem que na cama a três é o único homem, e é também - sem nenhuma contradição - o heterossexual sem preconceito que sabe ver outra forma de amor diferente da sua, mas igualmente bela. Que sabe admirar essa beleza e que se entristece com o ódio - tão oposto a esse amor - que vê apontado para ele com a intenção de destruí-lo: “Rapazes”.  
No amor, pelo amor e por amor estão presentes, como na vida, muitas coisas, ou muitos amores que podem ser chamados por outros nomes: tempo e morte, histórias completas e belas - como em “Lembranças” -, solidão, desejo do que deixou de existir; uma visita bem-feita a outro poeta: “Parafraseando o Soneto d’Arvers”; a velhice triste que se vê nos próprios olhos e na mesa onde dançam as pedras de dominó.
Há o amor do poeta que analisa a juventude sem distinguir se é a que vê ou sua própria; há versos longos, versos curtos, versos musicais, poemas que imaginam dança; há, na metalinguagem bem-feita, o poema sendo poema e vivendo, tornando-se ele também personagem; e no lindo poema “Memorial” vejo o poeta se poetando!
Há também a consciência política, a crítica social incisiva, a consciência ecológica, a luta no limite que o amor alcança. Lutar por um mundo melhor também é amor. Mesmo o ateísmo é, nesse poeta, o conhecimento de que estão dando a uma outra coisa, nada louvável, o imerecido nome de amor.
No poema “Cataclisma”, num toque de distopia, vejo o sol se apagando sem que o texto perca a docilidade. E, finalmente, a melancolia doce de “Fim de festa” fecha o livro.
Que a gente fecha com a certeza de que não perdeu tempo.
                                DJS
   São Paulo/SP, julho de 2019