sábado, 29 de junho de 2019

CANTARES – Rafael Rocha

Do livro “Marcos do Tempo” - 2010

Cantares (I)

Cheguei até este limiar cheio de mim
Profetizando a dor escondida dos homens.
E delimitando no infinito do horizonte
Marcos e marcas para todos os viajantes
E neste limiar que pretende ser eterno
Profetizo o verso ainda não posto à mesa.
(1)
O povo não é mais pescador dele mesmo.
Arrasta a maldição da dor
devido aos gestos estudados
de quem ocupa a tribuna
e se diz autoridade.
O povo vive de restos malditos
e nasce em berço muito pouco esplêndido.
Não pretendo atirar a primeira pedra.
Prefiro denunciar ao mundo
a ganância dos chefes.
Não pretendo aceitar
os ditames da última era.
Debruçarei meu corpo
nos balaustres das pontes.
Atentarei meu olhar nos rios sujos da cidade
e tentarei falar a voz humana:
“Sou pobre, mas honesto”.
Nem mais isso os meus queridos
devem no balcão da vida.
(2)
Hipócritas
outros homens dizem possuir a voz de Deus
e abrem um livro dito sagrado
para fundar igrejas
e corromper a mente dos ingênuos,
vendendo a fé como uma sopa
e a crença como um pão adocicado.
A justiça fica adormecida em seus palácios
fazendo ouvidos moucos à pregação
inconveniente da ideia do Senhor.
Eles consagram os vendilhões do templo
e beijam a moeda retirada do bolso do pobre.
Este é um novo ritual
a fazer do inalcançável a ilusão alcançada
e comprada como um sapato
ou um trago de cachaça.
Ladrões da inocência!
A espada dos honestos ainda irá perfurar
seus imensos corpanzis de mentira e sujeira.
(3)
Ah, terra minha!
Ah, gente minha!
Vamos agitar nossa força nas estradas!
Vamos subir aos mais altos andares!
Vamos agarrar nossas aspirações na marra!
Túmulos não foram feitos apenas
para quem não tem onde morrer de fome.
E a terra ainda não foi de todo
descoberta como ela merece.
Escuta, ó gente minha!
As areias e os seixos dos rios
ainda estarão aqui pelos próximos séculos
e elas devem crer que nossos guerreiros
souberam agir com mente firme
e mão generosa.
(4)
Nem Cristo.
Nem Guevara.
Nem Buda.
Nem Maomé.
Nem Ocidente ou Oriente.
A salvação é criar um tempo definitivo.
Agitar!  Lutar! Sangrar!
Não vamos mendigar
aos pastores da mentira
a ideia de um deus de bordel.
Para que essa cegueira?
Nós somos o Reino!
Nós somos os tímpanos da vida!
(5)
Meu verso está sendo posto à mesa
às mãos dos semeadores da palavra.
Não deem as costas ao poema!
Não estilhacem o sangue do poema!
Não quero ver meus queridos agonizando
sob a oratória dos corruptos
e dos compradores da fé!
(6)
Lotadas as estradas
com a esperança
e seu verde brilhante,
os homens golpearão seus inimigos
dentro do mais curto espaço do tempo
e meu espírito vestirá a pele dos libertos,
desvendando as traições
dos compradores de almas.
(7)
E todos irão saber
que o Senhor da Liberdade
é um Senhor que respira e vive
na alma do homem da terra.
Ele é forte e tem seu livro sagrado
escrito na palma de suas mãos
e em sua pele enrugada.
Com igrejas, templos
e palácios derrubados,
com os falsos senhores desgrenhados
o homem real da terra
poderá desfrutar a vida
e aprisionar parasitas
que de nada cuidam,
mas apenas solicitam
a presença da morte.
(8)
Caminhemos!
Caminhemos!
A estrada é longa!
Vamos buscar mulheres e homens!
O Senhor da Liberdade respira
e tem seu livro sagrado
escrito na pele enrugada
dos homens tristes e pobres.
(9)
Quando o verdadeiro vento nordeste
varrer o semi-árido,
as fogueiras das vaidades
terão de ser apagadas,
mas acender-se-ão luzes de águas
e as chuvas ficarão plantadas
nas almas dos guerreiros da vida.
E dos livros rasgaremos as páginas
das histórias oficiais
escritas pelos opressores.
(10)
Ah, meu verso profético!
Que beleza!
Aqui chegaste para extravasar a tua ira.
Aqui estás para render homenagem
ao homem de nossa gleba Nordeste.

Cantares (II)

Profetizo o verso ainda não posto à mesa.
E neste limiar que pretende ser eterno
Crio marcos e marcas para todos os viajantes
E delimito no infinito do horizonte
A dor escondida guardada dentro dos homens
Até alcançar este infinito cheio de mim
(11)
Agora fiquemos sós.
Ainda temos muito tempo.
Nossos refúgios são seguros.
Estou olhando para a terra
e nela vejo uma força radiante.
Não preciso que você olhe para mim.
Não sou forte nem tenho intento insidioso.
Mas não estou assim tão adormecido.
Quero atrair você para uma missão conjunta
aos momentos em que trocamos
ideias e argumentos.
“Qual será a missão?” - eis a pergunta.
Olhe: as ruas estão perigosas
e os seres humanos
têm suas almas sonâmbulas programadas
por vídeos televisivos e mentiras oficiais.
Não se preocupe.
O mundo tem conserto.
Vamos entrelaçar nossas ideias
como cordas emaranhadas
a amarrar os navios do porto.
(12)
Fiquemos sós.
Tenho a intenção de amar
a sua ideia esplêndida
nos nascentes e nos poentes
dos marcos deste planeta.
E desejando olhar
bem para dentro de mim
você verá minha postura de guerrilheiro
cumprindo um caminho evolutivo
sem precedentes.
“Quem és?” - eis outra pergunta.
Olhe: na amplidão das nossas madrugadas
sempre aparecem as cinzas de um outrora.
Jogo-as pela janela do meu quarto.
Mas não se preocupe.
Não vou jogar fora as cinzas de amanhã.
Quero fazê-las voar célere ao seu encontro
como a luz daquela estrela
que somente hoje alcançou a terra.
(13)
Em verdade, em verdade vos digo:
a vida dos melhores humanos
está jogada na sarjeta
e é por esse motivo
que precisamos ficar a sós
e fazer um estudo dinâmico
daquilo que somos.
Hoje é uma noite de agosto.
Ela é fria.
A ventania entra pela janela do meu quarto
trazendo os gritos dos guerreiros iguais a nós.
Em verdade, em verdade vos digo:
somos muito mais
do que habitantes das sarjetas
e por essa questão temos de ficar a sós
para recriar os sonhos dos grandes profetas.
(14)
Em verdade vos digo:
Quando os deuses da terra eram outros
o homem era muito mais feliz do que hoje.
Mas ainda há tempo
para moldar uma nova mística
e para plantar uma semente
mais formosa de planta.
Por isso temos de ficar a sós. 
Eu e você.
Somos os únicos a compreender a nudez,
a beleza, a dor, a alegria e a verdade das coisas.
Em verdade, em verdade vos digo:
podemos fazer o vento
carregar mensagens otimistas
para todos os deserdados do planeta.
(15)
Fiquemos sós.
Vamos enrodilhar nossos dedos uns nos outros.
Vamos amalgamar nossos cérebros para a luta.
Ao longo das grandes avenidas
ninguém se fala mais.
Ninguém mais se olha para entender
as substâncias dos rostos e dos corpos.
O homem hoje ri ao matar seus semelhantes
e ao olvidar seus ancestrais,
sem chorá-los pelas suas perdições nas multidões.
“Que faremos?” - eis outra questão.
Nada! Não faremos nada!
Ficaremos sós para profetizar o novo tempo.
Ficaremos sós para ver
a verdadeira história ir e voltar.
(16)
A luz de sua imagem na plena madrugada
é uma condensação de paixão para meus olhos.
Em verdade, em verdade vos digo:
haverá um tempo em que nos encontraremos
arrependidos de nada termos sido
tanto um para o outro
e de nada termos feito de bom
do outro para o um.
Assim é necessário ficarmos sós,
criando tempo de mim e tempo de você,
tentando ser ousados na criação e nas decisões.
Nos palácios, os opressores de hoje
riem de nossos anelos,
mas nós daremos rédeas à imaginação
quando ficarmos sós.
(17)
Nosso ficar a sós servirá
para perturbar todo o universo.
Servirá para acabar
com as leis dos “dinossauros”.
Para uma olhadela melhor às auroras.
Servirá para um mergulho fundo
dentro de cada poro nosso.
Em verdade, em verdade vos digo:
iremos implodir milhões de silêncios
e criar novas estrelas para iluminar
nossas futuras madrugadas.
(18)
Fiquemos sós.
“Queres ficar a sós comigo?”
Venha então!
Conheceremos melhor
as vitórias e as derrotas.
Nas nossas rugas saberemos quem somos,
para onde vamos
e qual o objetivo desta missão.
Em verdade, em verdade vos digo,
ó homem simples:
o saber dos sonhos
cria em mim o dom da palavra.
O saber das lutas
cria em mim o desejo da vida.
Em verdade vos digo:
ao ficarmos sós
entraremos em contato
com todas as raças do mundo.

Cantares (III)

Delimito no infinito do horizonte
A dor escondida guardada dentro dos homens
Crio marcos e marcas para todos os viajantes
E profetizo o verso ainda não posto à mesa.
Até alcançar este limiar cheio de mim
Limiar que pretende ser eterno
(19)
As esperanças ainda estão vivas nas ruas
apesar de os olhos dos homens
não brilharem como nos dias de antanho.
Quase todos estão trêmulos
e sozinhos e ansiosos
um tanto esquivos das suas realidades.
Talvez pensem que tudo esteja perdido
e que o reinado da dor
e da morte tenha se revigorado.
Em verdade, em verdade vos digo:
não devemos nos esquivar
daquilo que vivemos.
É preciso reunir nossas forças
na beira de todos os rios
antes que as sombras da morte
derrubem a estrela perpétua
do seu altar de sonho.
(20)
Meus queridos, a gleba Nordeste
não é uma terra morta
cheia de cactos selvagens.
Ela é a imagem dos olhos das crianças.
Das nossas mulheres
e dos homens voluntariosos.
Não deixemos que o lampejo da liberdade
se deixe ficar agonizante
nas mãos dos fascistas que beijam
as correntes da escravidão,
as bandejas dos desvarios
e das loucuras do ouro.
No reino de dentro de cada um de nós
não devem existir disfarces.
Em verdade vos digo:
temos de nos comportar
como se o vento nordeste
seja um frêmito de guerra
com garras flamejantes.
(21)
Não somos homens esclerosados.
Não somos fantoches nem marionetes.
Estamos amparados uns aos outros pelo suor
a escorrer através dos poros
quando trabalhamos a terra.
E, quando gritarmos juntos e unidos,
o sussurro da vitória será um trovão
que de tão formidável abalará
as entranhas dos comensais da morte.
Caminhemos!
Caminhemos!
A estrada é longa!
Vamos buscar mulheres e homens!
O Senhor da Liberdade respira
e tem seu livro sagrado escrito
na pele amarfanhada
dos humanos tristes e pobres.
(22)
Os queridos que escolheram andar
na outra margem
deixaram de aceitar
a realidade destes tempos.
“Ah, como é violenta essa vida!” – pensaram.
Eles entregaram gratuitamente
as almas ao deus do bordel
e aos homens que usam
um livro de capa negra
para fundar igrejas.
Foram empalhados
como espantalhos e programados
para vender a fé como um trago de cachaça
e para roubar a moeda do bolso do pobre.
Será contra essa nação de hipócritas
que iremos lutar.
Não vamos dizer que possuímos
a voz da divindade.
Possuímos nossa verdade e nossa fome.
Nossa pobreza e nossa honestidade.
(23)
Em verdade, em verdade vos digo:
o vento nordeste
está cantando solenemente o hino
da mais cruel realidade da nossa vida.
Que os hipócritas fiquem longe,
não se aproximem,
nem mais um passo deem.
Estamos em frêmito de concepção,
pois somos a raça dos escolhidos
antes que as águas cubram as planícies.
Em verdade vos digo:
antes que a vontade dos corruptos
seja cumprida
os brotos das árvores
serão muitos mais novos
que as sementes plantadas
pelas mãos dos opressores.
(24)
Eis aqui: nosso maior anseio.
Eis aqui: nossa ideia essencial.
Eis aqui: a explosão de nossos suspiros.
Pétalas de flores se abrem
quando ganhamos mais uma vez o dia
ao rufar dos tambores da vitória
dos nossos heróis.
(25)
Qual caminho você escolhe, meu amigo?
Não, nada disso!
Eu não estou fazendo papel de místico.
Eu sou um guerrilheiro espirituoso.
Sou um peregrino a viver
das minhas explosões verbais.
Não vou obrigar ninguém a seguir caminhos.
Se você prefere a derrota, siga!
Também é muito bom sofrer derrotas.
Com elas aprendemos o sentido da vida.
(26)
Eu falo porque quero falar.
Gritarei quando desejar gritar.
Faço parte do mundo e o mundo é meu.
Os hipócritas que nos governam
não são donos do mundo.
Está envergonhado de mim?
Que assim seja!
Mas em verdade, em verdade vos digo:
ao ficar envergonhado de mim
você estará mais do que nunca sendo covarde
e como um leproso pensando não ter cura
esconder-se-á nas cavernas do próprio medo.
Em verdade vos digo:
não ando pelo mundo
a derramar lágrimas de lástima.
Nem vou gemer e me acovardar
para ganhar as honrarias
dos chefetes de última classe.
(27)
E então eu pergunto outra vez:
quer ficar a sós comigo?
Este ficar a sós não significa esconderijo.
Significa guerra.
Significa luta.
Significa que iremos tocar fogo
nas histórias oficiais
escritas pelos que se dizem donos da verdade.
Quer ficar a sós comigo?
Mostraremos o quanto somos válidos
e não iremos criar leis
para termos desculpas
a serem descumpridas.

Cantares (IV)

Crio marcos e marcas para todos os viajantes
E delimito no infinito do horizonte
A dor escondida guardada dentro dos homens
Até alcançar este limiar cheio de mim
E neste limiar que pretende ser eterno
Profetizo o verso ainda não posto à mesa.
(28)
Eis-me aqui na terra completamente seca...
Um rosto enrugado de homem
olha para o céu
buscando as águas da chuva.
Nas suas pequenas e rústicas casas,
as crianças brincam com a sopa
de suas próprias fomes.
Mas o homem tem o olhar da esperança
mergulhado até o fundo da retina no horizonte,
esperando e contando nos dedos
os poucos grãos de feijão que poderá ter
após umas poucas gotas de água
caírem por sobre a terra.
(29)
E eis nas igrejas e templos e palácios dourados
a safadeza de quem se diz autoridade,
prometendo mundos e fundos
para florir a terra seca
e preparando o corpanzil para voar
até as paisagens europeias,
onde poderá gastar o dinheiro do suor do outro
e desovar em algum recanto
de Wall Street
no Manhattan inferior
a sabedoria que julgam
apenas eles a possuir
por serem governo.
Em verdade vos digo, ó párias do dólar:
há de chegar o dia
em que suas casas serão invadidas
pelas almas mais simples desta nação.
Há de chegar o dia em que vocês ficarão
olhando tristes para os remendos
de suas calças e de suas casacas.
(30)
A voz dos deserdados
ainda não é forte o bastante
para rugir o trovão da guerra nas caatingas,
mas os espíritos hoje são outros.
Não são adolescentes
seguindo uma coluna vermelha.
Eu também não pretendo ser um líder.
O homem da salvação
chegará no momento certo
marcado há muito tempo na história da raça.
Ele virá quando as águas dos rios
começarem a cobrir as praças.
Quando o mar ocupar
os vazios do espaço a ele tomado.
E ele será muito mais que um Enviado.
Não será um Guevara nem um Cristo.
Não será um Maomé nem um Buda.
Será simplesmente ele:
o homem do tempo definitivo.
O homem da agitação.
O homem da luta.
O homem vindo para sangrar.
(31)
Em verdade, em verdade vos digo:
O devir não mais será
como está nos “livros históricos”
escritos pelas classes dominantes.
O homem a surgir será
o mais forte de todos os homens.
Beberá terra para matar a sede.
Comerá vento para matar a fome.
E estará dando seu sangue
a todos os companheiros
postos ao seu lado
na perseguição da verdadeira vida.
Em verdade vos digo:
ele não vai enveredar
pelos ardilosos caminhos
da história oficial escrita
pelos vendilhões dos templos.
(32)
Portanto, querem ficar a sós comigo?
Ao pé de qualquer rocha deste Nordeste
esculpida pelo vento rebelde das fronteiras
veremos o verdadeiro significado do tempo.
A palavra medo será riscada do dicionário.
E nunca mais iremos
enveredar pelos labirintos
engendrados pelos ladrões da inocência
para dar uma ilusão de vida aos nossos filhos.
Em verdade, em verdade vos digo:
Será para sempre e será logo!
Ele virá a nós para o povo
voltar a ser pescador dele mesmo.
Ele estará ao nosso lado
designando como será a luta
para aprisionar os homens
que dizem representar
o poder de um deus
e que vendem ilusões como se vende cachaça.
Ele chegará para extravasar
a ira mais honesta
e para render tributo
ao homem do Brasil nordestino.
(33)
Marcos e marcas.
Vermelha é a cor das almas dos homens.

Cantares (V)

Para todos os viajantes e caminheiros
A dor escondida fica no infinito do horizonte.
Cria marcos e marcas no limiar cheio de mim
Até alcançar o vazio que pretende ser eterno
Profetizando o verso ainda não posto à mesa
Escondido dentro das almas dos homens
(34)
Eis que ele está chegando:
O homem do tempo definitivo!
O homem da agitação!
O homem da luta!
Em verdade vos digo:
ele vem para agitar as almas e ganhar o dia.
No grande encontro dos rios da cidade
encaminhará ao fundo do oceano as dores
e as tristezas dos menos aquinhoados.
E nos abismos abissais fará naufragar
as estratégias dos governos opressores.
Eis que ele vem: definitivo como a morte!
(35)
E você que por aqui passa,
qual será o rumo a escolher?
Você diz não possuir rumo e caminha
como se a vida estivesse escrita
desde seu nascimento.
Em verdade, em verdade vos digo:
a vida vai começar a ser escrita no futuro
e você deverá fazer parte dessas escrituras
ao lado da maior força jamais vista na terra.
Não tenha medo e não tenha vergonha.
São teus filhos que necessitam de espaço
e de novos verdes e de lares mais calmos.
(36)
“Para que isso?” - pergunta o pobre de espírito.
“Eu já tenho o que preciso
e nada devo aos outros
e meus filhos retratam a minha vida.
Para que esse místico homem definitivo?
Tudo que construí eu fiz e nada mais.
É necessário deixar de curtir o realizado?”
Em verdade vos digo,
ó, pobre humano ingênuo,
não há misticismo no homem definitivo.
Ele é o que é e o que são todos.
Ele não é o retrato da lástima nem da miséria
e muito menos covarde para se esconder
por detrás dos ombros
dos exploradores da terra.
(37)
Ah, quando os queridos do Nordeste
empunharem o mastro
do emblema do homem
a terra irá tremer desde
o Itapicuru ao Capibaribe.
E então será tarde para
os fascistas tomarem tento
de tudo que foi dito e ficou escrito.
Em verdade, homens da terra, eu assinalo:
será criado um vácuo aos pés dos opressores
e grandes caminhos
de salvação para os oprimidos.
O chão será de lama para muitos
e de podridão para outros.
Mas os escolhidos serão os enérgicos
fincando com teimosia a bandeira da luta
pela grandeza da vida.
(38)
Nossa será a terra.
Nosso será o reino absoluto
ao lado do emblema rubro da vida.
Serão nossos os rios
e as vegetações das margens.
E poderemos possuir
todos os recursos minerais
e lavrar em prata e cobre
nossas próprias moedas.
Porém, o homem definitivo não terá efígie
a ser desenhada em notas monetárias.
Ele será a imagem permanente
de todos os homens
e mulheres e crianças
e animais e plantas.
Em verdade vos digo, verdugos da vida:
chegará o tempo em que subirão ao cadafalso
e aos gritos verão suas cabeças
entregues aos carrascos.
(39)
E os hinos de força
sairão das gargantas libertadas
ressoando por toda a extensão da pátria
do Itapicuru à desembocadura do Capibaribe.
“Sou o predestinado
para traduzir a nova língua.
Os sabores da liberdade
estão em mim e sobre mim
e os oferto para vocês, queridos da terra.
Os horrores dantescos dos infernos
serão entregues
aos infiéis e aos habitantes
dos grandiosos templos e palácios”.
Em verdade vos digo, em verdade proclamo:
os hinos de força da vitória maiúscula
sairão das gargantas
dos mal vestidos e dos famintos.
E serão traduzidos em uma nova língua
dentro das noites nordestinas,
das grandes luas cheias
e das brilhantes estrelas.

Cantares (VI)

Escondido dentro das almas dos homens
Profetizo o verso ainda não posto à mesa
Crio marcos e marcas no limiar cheio de mim
Até alcançar o vazio que pretende ser eterno
E para todos os viajantes e caminheiros
Trago a dor escondida no infinito do horizonte
(40)
Todos deverão ficar a sós comigo
quando os rios e o mar
levarem de roldão as terras
e quando os grandiosos
templos e palácios na ruína
desabarem para sempre
no lodo e na lama.
E aquele que virá
com a amplidão da noite ou a da aurora
terá uma imensa multidão para escutar
seus hinos de liberdade.
Em verdade vos digo,
ó homens simples:
Ele trará a permanência
da agonia para os donos do ouro
e para os homens
que vendem a fé como cachaça.
E o deus que estará ao seu lado
terá parecença
com a verdadeira imagem
dos humilhados e perseguidos.
(41)
Eu sou apenas a voz
a clamar no deserto de hoje
para mostrar aos homens o tempo a vir
Não sou aquele conjugado no pretérito.
Sou apenas a voz
a gritar do meio das caatingas
a mesma coisa que vocês poderão ver e dizer
aos filhos e aos netos e os netos aos filhos.
Pois a história irá marcar o homem definitivo
no que ele sempre é e no que sempre será.
Ele é o tempo futuro a abrir portas e janelas
a todos os futuros tempos dos homens.
(42)
Ao chegar perto dos escolhidos
a voz retumbará:
“Sou aquele pelo qual
o sangue do Nordeste do Brasil
pediu com urgência à majestade superior.
Sou aquele que possui
a noite amarrada ao dia.
Eu sou o que sou.
Homem e poeta peregrino.
Guerrilheiro e abençoada matriz do mundo.
Eu vim e vou e não passo.
Estou aqui para matar a sede de justiça.
Estou aqui para alegrar os desafortunados.
Em verdade vos digo:
eu vim, vou e continuo indo.
Sou a emoção verdadeira e o rubi brilhante
da bandeira empunhada
pelos corações dos homens simples”.
(43)
E aos opressores e aos corruptos virá o clamor:
“Valerá a pena ver
minha chegada bem de perto.
Valerá a pena ver os vossos jardins
com as flores murchas.
Eu sou o incriado que saiu
dos parafusos das vossas fábricas
e das fumaças poluidoras.
Sou o redivivo da vingança
e vim trazer a vós outros a agonia absoluta.
Minha espada está sendo colocada à prova
desde algumas centenas de anos, ó infiéis.
E agora que cheguei aos vossos jardins
não haverá perdão
para a exploração do homem pelo homem.
Eu sou aquele
a quem o beijo da traição republicana
molhou as ruas com o sangue
dos meus inocentes.
Eu vim.
Eu vou.
Eu não passo.
Sou o homem definitivo
para rir de vossos remorsos”.
(44)
“Tirarei a paz de espírito
dos governos gananciosos
e ninguém mais em toda
a confusão das galáxias
tornar-se-á partícipe
da inclemência dos corruptos.
Eu vim.
Eu vou.
Eu fico e não passo.
Sou o imortal a viver
dentro das casas de taipa.
Sou o espírito redivivo
das árvores derrubadas.
Sou a mente elementar
da terra nordestina
assaltada e violada
pelos vendedores de deuses
e pelos ditos grandes filósofos
visitantes de Wall Street
no Manhattan inferior.
Vou mostrar quanto valho.
Verão meu entendimento
no expirar do vosso mundo
e na chegança do reino
permanente dos famintos e deserdados”.
(45)
Depois, ele não mais irá
precisar revogar palavras.
Os crepúsculos serão de todos,
bem como as tardes,
e as manhãs e as noites quentes ou frias.
Depois, ele não mais precisará
repetir a voz
deste cantador que profetiza
nas caatingas a sua vinda.
Em verdade vos digo:
ele será a palavra e a voz finais
para decidir e revisar
todos os horários do reino.
Será a mulher mais bela
e desejada da pátria
e o homem másculo e enérgico
em busca da vida.
Eu digo:
ele habitará os becos e as vielas escuras
e será uma luz a iluminar
os corações dos homens
Eu digo:
ele foi, é e será o homem definitivo
a empunhar a bandeira
da liberdade e da vida.
(46)
Na espera da ressuscitação
marcos e marcas.
Vermelha é a cor da liberdade dos homens.

Cantares (VII)

Do infinito do horizonte trago a dor escondida
E profetizo o verso ainda não posto à mesa
No limiar cheio de mim crio marcos e marcas
E alcanço o vazio que pretende ser eterno
Para todos os caminheiros e viajantes do mundo
Escondidos dentro de suas almas de homens
(47)
Eis o clamor daquele
que profetiza nas caatingas:
Em um tempo
não muito mais longe que um tempo
todos irão conhecer a todos sob as matizes
das vermelhidões dos crepúsculos
e das auroras.
Eis o clamor definitivo da nossa raça!
Eis o clamor profético
vindo dos leitos secos dos rios:
A vida de cada um será julgada
pelo ganho e pelo roubo.
E o homem e a mulher nascidos na miséria...
E o homem e a mulher que não possuem terra...
E o homem e a mulher sem face corruptora...
terão lugar ombro a ombro,
braço a braço, mão a mão,
junto ao homem definitivo.
(48)
E a terra deixará de pertencer
aos fascistas e às suas corjas.
Os padres e pastores vendilhões da fé
deixarão de violar as mentes,
usando uma cruz
ou um livro de capa negra,
e os herdeiros do homem definitivo
alcançarão o topo
e trarão para o resto do mundo
a cura do câncer maligno.
Em verdade, em verdade vos digo:
os humildes não sobrevivem nos dias de hoje
porque existe um grande câncer
corroendo a República.
Em verdade, em verdade vos digo:
hoje a escravidão do homem
tem outro nome
escrito nos dossiês de RH
dos gananciosos patrões.
(49)
As vozes dos humildes tomarão outros rumos
lado a lado, mão a mão, braço a braço
com o homem definitivo.
Eu vos digo:
Os dias serão medidos com calma e vagar.
Os governos pagarão caro
a desdita do homem da terra.
Eis o clamor do profeta das caatingas:
O maior mentiroso é quem governa o país!
Esse é um cancro hereditário
vindo da raça dos lusitanos.
Cancro que precisa ser extirpado com urgência,
juntamente com os outros cancros da mentira
a se esconder nas vestes
e nos ornamentos das religiões.
Padres mentem!
Pastores mentem
para o bem dos cofres das igrejas!
(50)
O que devemos fazer com essa gente
que não nos respeita?
Precisamos retirar do arquivo morto
as cores da liberdade
pois elas serão os futuros
e grandiosos marcos da vida.
Em verdade, em verdade vos digo,
ó homens simples:
não será mais necessário
fazer a marcha de uma coluna.
Todos estarão ombro a ombro,
peito a peito, mão a mão,
com a ideia concreta do homem definitivo,
trazendo do infinito do horizonte
a dor escondida
para todos os caminheiros
e viajantes do mundo.
(51)
Valerá a pena retirarmos
as cabeças dos travesseiros.
Comprimir os neurônios dos gananciosos
numa bola de papel.
Valerá a pena dizer:
“Estou dizendo isso, porque assim deve ser.”
“Estou fazendo assim
para que meus filhos possam viver.”
Valerá a pena cortar
a voz dos políticos pela raiz,
antes que eles comecem a colocar
emblemas de promessas em nossos ouvidos.
Valerá a pena dizer:
“Não! Isso é mentir!.
Eles mentem!
A única verdade está conosco e dentro de nós
e essa verdade é nosso reino”.
Em verdade vos digo,
homens humildes da terra:
nós ressuscitaremos nossa ideia
como Lázaro ressurgiu de entre os mortos,
mas nem mortos estávamos
e nem mortos estaremos.
Retornamos para o cumprimento da ação final
e valerá a pena ver
a chegada do homem definitivo
dentro dos corpos de todos
os homens e mulheres do mundo.
(52)
Eu já vos disse e mais uma vez repito:
meus queridos, a nossa gleba
não é uma terra morta
cheia de cactos selvagens.
Ela é a imagem dos olhos das crianças,
das nossas mulheres
e dos homens voluntariosos.
Não deixemos
que o lampejo da bandeira rubra
se deixe ficar agonizante
nas mãos dos césares que beijam
as bandejas dos desvarios
e das loucuras do ouro.
No reino de dentro de cada um de nós
não devem existir disfarces.
Em verdade vos digo,
mais uma vez e outra vez:
temos de nos comportar
como se a alma do Nordeste
seja um frêmito de guerra
com garras flamejantes.

Cantares (VIII)

No limiar cheio de mim crio marcos e marcas
E alcanço o vazio que pretende ser eterno
Do infinito do horizonte trago a dor escondida
Para todos os caminheiros e viajantes do mundo
E profetizo o verso ainda não posto à mesa
Escondido dentro das almas de homens
(53)
Está perto o momento em que
os arquivos de RH dos gananciosos
receberão a visita daquele que nunca veio,
mas que sempre está e sempre renasce.
Ele irá rasgar as atas e os estatutos
das mentiras oficiais
que regem a ideia dos salários.
Porque o homem definitivo sabe:
a escravidão nunca acabou
sobre a face da terra.
Apenas ganhou outro nome
e outro eufemismo.
Agora a escravidão é chamada de trabalho
e quem lucra são os vendilhões dos templos,
são os patrões e os corruptores
das nossas verdades.
(54)
Bem-aventurados aqueles que acusam.
Bem-aventurados os que ousam dizer:
“A história escrita da pátria
é uma grande mentira.
É a lavagem dos cérebros
para o uso das máquinas.
É o beneplácito dos governos
para o uso do dinheiro
ganho pelo suor dos homens da terra
durante séculos.”
Estes estarão lado a lado
com o homem definitivo
quando ele quebrar as correntes
e libertar os escravos
e rasgar as atas e os estatutos
das mentiras oficiais.
E, ainda:
bem-aventurados aqueles que sofrem
por não possuírem casas de pedra
para abrigar os filhos.
Também serão herdeiros da ideia.
Eles farão o reino
brilhar como a luz solar
alimentando o oxigênio da terra.
(55)
E o profeta das caatingas
continua seu clamor:
Mentiroso é quem governa!
Mentiroso é quem eleva um deus
acima do ser humano
e aos altares dos templos
em busca do ouro dos pobres.
Eles são muitos,
mas são covardes, ímpios e corruptos.
Matam para calar o verbo.
Assassinam a verdade.
Mas eu vos digo, ó homens simples:
a ideia do homem definitivo
será a salvação da nossa gleba.
E ela virá cedo ou tarde,
ainda que o sol deixe de nascer
ou a lua seja desviada
para outros recantos do universo.
Em verdade vos digo:
a única salvação é essa ideia
e ela está escrita
nas palmas das mãos dos humildes.
(56)
E mais uma vez repito:
a voz ressoará o clamor
a ser ouvido do Itapicuru ao Capibaribe:
“Eu vim.
Eu vou.
Eu fico e não passo.
Sou o imortal a viver
dentro das casas de taipa.
Sou o espírito redivivo
das árvores derrubadas.
Sou a mente elementar
da terra nordestina
assaltada e violada
pelos vendedores da fé
e pelos ditos grandes filósofos
visitantes da Wall Street
do Manhattan inferior.
Vou mostrar quanto valho.
Verão meu entendimento
no expirar do vosso mundo
e na chegança do reino permanente
dos famintos e deserdados”.
(57)
“Não sou Cristo.
Não sou Guevara.
Não sou Maomé.
Não sou Buda.
Não sou Oriente.
Não sou Ocidente.
Sou Norte e Nordeste.
Sou o espírito do grande chefe de Canudos
redivivo nas almas
e nos olhares dos famintos.
Eu chego.
Eu vou.
Eu passo.
Eu fico e transmito
a glória de cada um possuir o que merece
e repartir com o outro
aquilo que ao outro falta.
Recebo com carinho
todos os bem-aventurados,
todos os que acusam os vendilhões.
Estarei lado a lado com os sem-teto.
Bem-aventurados são esses homens de bem
que não roubam o suor do outro
nem a vida do irmão.
Todos estes farão parte do reino que há de vir.
Todos farão o Belo Monte das cidades libertas.
E cedo ou tarde estaremos nas culminâncias,
quando o mar cobrir os grandes arranha-céus
e quando os rios ocuparem
seus leitos roubados.”
(58)
“O vazio se encherá de mim
e eu serei todos.
O verso estará posto à mesa
para matar a fome.
A dor escondida
desaparecerá no horizonte.
e os marcos e as marcas
do mundo serão outros,
pois nascerá um novo céu
e uma nova terra,
anseio antigo a viver escondido
nas almas dos homens.
Já estou entre vocês, ó meu povo,
Já estou voando entre vós, queridas aves.
Beijo minhas arvores e deito em meus campos.
Aceitai o meu retorno!
Aceitai minha vinda!
Vinde aos meus braços, meus queridos da pátria!
Vinde para meu lado, homens sem-teto!
Vinde até mim, pequeninos artesãos!
Não há vitória sem luta
e as batalhas serão muitas.
A guerra não acabou em 1897.
Os tabuleiros nordestinos
ainda estão banhados em sangue.
Vinde a mim, guerreiros voluntariosos!
Eu sou o homem definitivo
e vocês serão os definitivos homens e mulheres
donos dos rios e das planícies.
Serão os definitivos a apascentar no futuro
os animais e as plantas
que habitam o céu e a terra.
Está escrito!
Assim seja!”


IDENTIDADE RECIFENSE – Juareiz Correya

Orelha escrita pelo poeta Juareiz Correya para o livro “Marcos do Tempo” (2010) do poeta Rafael Rocha

O Recife deve ter mais de um milhão e 600 mil poetas, um número aproximado ao da sua população. E desconhecemos a maioria. Os que publicam, os que fazem os seus feitos circularem em livros, cada vez mais raros, jornais e revistas (com espaços reduzidos e negados), blogs e sites, via segura para escapar do ineditismo, mantêm a resistência poética necessária para que a palavra mais humana da existência não desapareça ou seja jogada no abismo do esquecimento.
O poeta Rafael Rocha, que tem pouco publicado a sua poesia e tem a sua projeção limitada por uma cidade cada vez mais mesquinha e desatenta com os seus valores, embora seja reconhecida nacionalmente como a “capital do lirismo brasileiro”, publica agora este seu segundo livro de poesia intitulado MARCOS DO TEMPO. O primeiro – Meio a Meio – foi publicado em 1979, exatamente há 31 anos.
Rafael Rocha, jornalista profissional, com um romance e um livro de contos já publicados, volta a acreditar na criação poética, consciente de que é com a poesia que um escritor diz tudo.
E assim escreve sobre o Recife, anuncia crenças e marcas do seu tempo, em versos que sintetizam filosofia pessimista e releituras de Manuel Bandeira, Drummond e Neruda e discursa, em oito longos cânticos, com revolta e indignação, num tom profético que lembra o poeta Álvaro Alves de Farias e o seu proibido “Sermão do Viaduto”.
Mergulha no dorso da noite e louva a vida com o seu amoroso erotismo.
E proclama, identificado com a sua terra:
“Não sou Cristo. Não sou Guevara / Não sou Maomé. Não sou Buda. / Não sou Oriente. Não sou Ocidente. / Sou Norte e Nordeste.”

JC
Recife, outubro de 2010

INÁCIO DA DINÁ – Rafael Rocha

Do livro “O Espelho da Alma Janela e Outros Contos” (2009)

Uma casa (?) de madeira caindo aos pedaços em alguma das margens do rio Capibaribe. Numa das margens? Coisa de grande monta escrever assim. Talvez alguma área de lama em algum braço morto do rio. Um pedaço de mangue ainda não aterrado em nome do progresso. E, sobre o progresso, nestes espaços, para que falar? O mau cheiro das águas parecia vasculhar o perfil do casebre e dos outros casebres alinhados em torno. Qualquer olhar a se nortear pelo espaço afora, conseguiria ver ao longe os grandes edifícios quase envoltos pela penumbra do entardecer.
Um bulício de gente. Ordens. Militares fardados. Mulheres. Umas em prantos. Outras falando coisas por falar. Homens maltrapilhos, descalços. Crianças de barrigas inchadas, nuas, magras. Na realidade, tudo em olhos de espanto. Olhos de comiseração. Olhos de fome e, por que não dizer, olhos de miséria e desconfiança? Policiais militares. Policiais civis. Homens de branco saindo do casebre. Um corpo envolto num lençol sujo. Um rosto de menina. Olhos arregalados injetados de sangue.
E sangue. Tudo sangue nessa periferia cidadã. E o rio sujo. O braço morto do rio apresentando o trágico: a vida zumbi de homens e mulheres e meninos e meninas. Contraste com os homens fardados, os homens de branco, Contraste com o fumo hollywood, carlton em mistura com o fumo barato e às cachimbadas dos velhos mais distantes, acocorados, catando coisas invisíveis na lama marginal.
E aos olhos de Inácio, o corpo ensangüentado de Diná envolto no lençol sujo. Os cabelos de Diná: as tranças caídas e se balançando ao vento. E aos olhos de Inácio, as imagens do homem: nu e bestificado em cima do corpo da irmã, subindo e descendo, subindo e descendo, fazendo o sangue escorrer no chão de lama. Subindo e descendo, sem ligar aos gritos, sem ligar aos movimentos ásperos de fuga do pequeno corpo de treze anos.
E, aos olhos de Inácio, o olhar do homem. A faca nas mãos, gestos rápidos de fuga, vestindo-se, ameaçando-o, batendo-lhe no rosto com a palma da mão direita, suada, sangrando de alguma mordida da Diná. Diná se escondendo como um pequeno animal assustado. Um cãozinho que houvesse sofrido uma grande surra e, depois, o grito, o pulo sobre o homem, a mordida na garganta e Inácio vendo a faca subindo e descendo, subindo e descendo, subindo e descendo e o corpo da menina no mole, mole, caindo sobre a lama.
Que fazer com o garoto? Levá-lo. Para onde? Nada de perguntas idiotas! O menino não tem ninguém por ele. É órfão. É de menor idade. Para a Fundação? Não. Juizado primeiro. Vamos ver se ele nos diz alguma coisa.
Dizer o quê? Não conhecia o homem. Se era dali do meio deles? Não. Nunca o tinha visto. Você está mentindo garoto. Não, não senhor, nunca vi ele. Primeira vez hoje. Nunca o vi. Nunca vi ele.
Você vai para a escola, falou a mulher toda cheirosa de perfume. Você vai aprender a ler, escrever, trabalhar. Vai ser um homem. Vai esquecer tudo isso. Aprenderá tudo na escola.
A escola? Que seria aquela escola para os seus onze anos? Muitos meninos. Meninos maus. Meninos tristes. O Carola, que fumava cigarros cheirosos encarrapitado no imenso pé de jaca? O Bonifácio, que metera um canivete nas nádegas do vigilante? O Enildo, que dormia na cama de todo mundo e tinha um jeito de menina? O Espiridião, muito alto, negro como carvão e de quem todos tinham medo e diziam que já “despachara” dois caras da polícia lá pelas bandas do bairro dos Afogados?
A escola? Ele não podia esquecer a escola. A mulher cheirosa de perfume ele lembrava pouco. Só a vira uma vez. Mas a escola ensinara muita coisa. Ensinara a andar macio como um gato. Ensinara a fumar aqueles cigarros cheirosos. Ensinara a usar um canivete. E o Bonifácio fora o melhor dos professores. Aprendera com ele a lidar com as ruas da cidade do Recife, com os edifícios, com as pontes, com os homens, com as mulheres, com os soldados, com os carros…
E com o rio?...
O rio não. Do rio ele tinha medo. O rio lembrava Diná. O sangue de Diná na lama. O rio lembrava a morte. Ele não sabia fazer nada contra o rio. Lidar com homens e mulheres, com os tiras, era muito fácil. Uma vez, um policial civil quase o prendera. Usou de todas as artimanhas, sabedorias do mestre Bonifácio, ofereceu metade do apurado do roubo recente e ficou livre. Os homens são fáceis. As mulheres são fáceis. Mas o rio não é fácil. Nunca o rio, nunca aquele tiro e esse medo de morrer.
Correu pelo calçadão da Rua da Aurora. Escutava atrás dele as fortes pisadas dos policiais e gritos de raiva. Uma sirene aberta fez doer os seus ouvidos. O sangue molhava sua camisa e pingava sobre o calçadão. Se fossem só os homens! Mas agora era tudo! Os edifícios pareciam rir dentro da noite. As ruas metiam medo. Pareciam repletas de fantasmas. Como se apiedando de sua situação a noite escondeu a lua por trás de uma imensa nuvem. Tinha de se esconder logo. Não agüentava mais. Com um salto felino se jogou nas águas escuras. O corpo caiu na lama. Arrastou-se sofregamente e conseguiu se esconder sob a ponte de ferro, deitando o corpo cansado num dos vãos abertos entre duas colunas.
Dormiu e sonhou com Diná. Sonhou com Diná e com a cidade. Os edifícios voando sobre sua cabeça, transformando-se em imagens de demônios. Sonhou com Diná e com o rio. A maré baixa. A maré alta. A maré subindo e nunca descendo. Subindo e nunca descendo. A água tocando seus pés descalços. O frio. O frio. O frio… 
Com o corpo meio roído pelos siris ou caranguejos, num dos vãos abertos entre duas colunas, sob a ponte da Boa Vista, com uma bala nas costelas e um sorriso nos lábios, foi encontrado morto às onze horas do dia seguinte, o corpo de Inácio da Diná.

ESCRITOR DO COTIDIANO – Valdeci Ferraz

Orelha escrita pelo advogado e poeta Valdeci Ferraz para o livro “O Espelho da Alma Janela e Outros Contos” (2009) do poeta e escritor Rafael Rocha, agraciado no ano de 1988 com o prêmio Leda Carvalho pela Academia Pernambucana de Letras (APL)

Certa vez, dentro de uma noite recifense, entre goles de cerveja e ao som das músicas de fossa vindas de uma radiola de ficha, eu e Rafael Rocha olhamos o céu estrelado e perguntamos: o que vamos fazer? (discutíamos o destino). Sem pestanejar, Rafael, então com 23 anos, respondeu: vou fazer Jornalismo! Eu já havia lido alguns contos e poemas dele. No entanto, pensei que a carreira de jornalista talvez não fosse a ideal para alguém que se revelava tão introspectivo. Mesmo assim aprovei a ideia, e melhor ainda, fui junto. Passamos no vestibular. Depois de um ano, abandonei o curso (não era minha vocação). Rafael seguiu em frente. Eu não sabia que, junto com ele, naquela noite recifense, havia uma legião dos melhores escritores do mundo que assinaram embaixo quando ele afirmou que seria um jornalista.
Em 1978, Rafael Rocha, então estudante de jornalismo, inscreveu o conto “Arquivo Morto” em um concurso promovido pelo Clube de Oficiais da Polícia Militar de Pernambuco. Não obteve classificação, mas este conto foi citado de forma elogiosa na coluna do jornalista Paulo do Couto Malta, no jornal Diário de Pernambuco, fato que soou como uma profética referência à vocação de Rafael no mundo literário da prosa.
Rafael estreou na literatura com um artesanal livro de poesias denominado MEIO A MEIO, lançado quando ele cursava jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP – no ano de 1979.
Após a conclusão do curso de Jornalismo, em 1981, seu conto “Grãos de Terra Sobre” recebeu, em 1989, menção honrosa da Academia de Letras e Artes de Araguari, Minas Gerais. Também em 1988, o livro aqui apresentado, este O ESPELHO DA ALMA JANELA E OUTROS CONTOS foi agraciado com o prêmio Leda Carvalho pela Academia Pernambucana de Letras, e, no ano de 2002, sob o patrocínio da Companhia Editora de Pernambuco – CEPE – Rafael lançou o romance A ÚLTIMA DAMA DA NOITE, com uma elogiosa apresentação escrita pelo premiado escritor Raimundo Carrero.
Como Carrero salientou na orelha de A ÚLTIMA DAMA DA NOITE, Rafael investe na literatura com uma coragem invulgar”. Concordo com essa frase do famoso autor de “Somos Pedras que se Consomem” e vou mais além, assinalando que se formos olhar dentro da ótica jornalística, os contos de Rafael estão sinceramente ligados a fatos do cotidiano, como também observou o grande jornalista Ronildo Maia Leite, no jornal Diário de Pernambuco, ao elogiar contos aqui inseridos: “(...) Inácio da Diná é uma pequena reportagem literária. (...) e Forno nº 8 é o quase impossível e maravilhoso furo – e todo furo é quase impossível – de um processo de tortura. Como escreve bem esse cara...”
Esta obra, O ESPELHO DA ALMA JANELA E OUTROS CONTOS, reúne pequenas joias na categoria contos. O trabalho, ainda que agraciado pela Academia Pernambucana de Letras (APL) em 1988, somente agora (2009) vem a público, revisto e aumentado pelo autor, e nele o leitor poderá constatar a lapidação permanente do tempo na criação e formação de um grande escritor. Nas páginas de leitura fácil e de profunda sensibilidade, podemos notar influências de Franz Kafka (Forno nº 8 e Arquivo Morto), de Maximo Gorki (A Menina dos Amendoins), de Jorge Amado (Inácio da Diná) e de tantos outros escritores cujos estilos se pulverizam na variedade dos temas abordados.

VSF
Recife, 2009

TERRA PERDIDA – 1967 – Rafael Rocha

Do livro “Poemas dos Anos de Chumbo” (2017)

O meu país é uma terra perdida
cheia de almas torturadas.
Terra onde a dor faz a sua rima
com o desamor de homens ruins.
Hoje no meu país os vermes nascem e crescem.
Tem alimento para todos eles.
Mas as nossas crianças estão magras
e a liberdade morreu.

Tudo está inerte e frio e pusilânime.
O medo habita nas esquinas.
A fome de amor faz a rima 
com uma palavra cruel.

ARTE E POLÍTICA – Valdeci Ferraz

Prefácio do advogado e escritor Valdeci Ferraz para o livro “Poemas dos Anos de Chumbo” (2017) de Rafael Rocha

A poesia e a política não estão atreladas apenas pela primeira sílaba.
O poeta Fernando Pessoa, após relutar durante algum tempo, acabou se convencendo que ambas são essencialmente frutos da mesma árvore, a qual se alimenta de emoções.
“Um escritor não pode abster-se de sentir politicamente”, disse ele certa vez.
Sendo a arte uma forma de fazer política, seja do “eu sozinho” ou do “estar no mundo”, os versos livres da poesia de Rafael Rocha transcendem o tempo e emolduram visceralmente a angústia do homem na sua dimensão social.
Engajado emocionalmente com tudo o que se refere à humanidade o poeta profetiza: “Um dia não haverá cadeia sobrando para os ladrões das almas que fazem dos seres humanos peixes em um aquário”. 
Eis o papel do escritor, eis o poeta.

MARTÍRIO - 1965 - Rafael Rocha

Do livro “Poemas dos Anos de Chumbo” (2017)

Mataram a liberdade na praça
chamada de república.
Com balas e fuzis assinalados
feriram o coração do homem da terra.

Invadiram o palácio da princesa
e trouxeram seu defensor em grilhões
com armas e brasões assinalados
apontados para os corações dos rios.

Quantos anos vai durar esse martírio?
Qual homem acenderá a luz no túnel 
como o libertador?