terça-feira, 23 de julho de 2019

NOITE COMO ASSUNTO – Rafael Rocha

Do livro “Meio a Meio” - 1979
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Não! Não sejam necessárias as reminiscências.
Minhas noites sempre têm mais luzes.
Maiores multidões de segredos.
Muitas e imensas solidões.

Para início de conversa eis as estrelas:
Tão separadas umas das outras! Dá pena vê-las
mensageiras de sinais do cosmos infinito!

Não!
Recordações passadas não são necessárias
para construir um poema para a noite/hoje
com o tempero incerto da noite/amanhã.
Faço isso com minhas ideias.
Simplesmente!

A noite tem mais luzes e mais abrigos.
Recantos onde todos curtem sorrisos e tristezas.
Possui feminilidade e perfumes.
Bares abertos.
Ouvidos atentos para milhões de lábios.

A noite tem próprios refúgios:
Locais onde podemos argumentar sem medo.
Ruas desertas para ouvir/curtir a madrugada.
Vias onde caminhamos ao acaso
com e sem possibilidade de retorno.

Há o bairro do meretrício
desaguadouro de mágoas em ventres amplos.
E ainda os botecos das ruas estreitas
(fétidos de fezes e de urina)
com seus imensos braços abertos.

Cadeiras, mesas, copos, garrafas.
Refrões claros e escuros.
Muitas mãos gesticulando.
Outras compassadas em eterna espera.
Toda uma completa vivência da noite/hoje
nalguma batucada vibrátil
compasso de algum beijo
no tilintar dos copos em elevação ritual.

Existem despedidas provisórias.
Existem despedidas sem nexo.
Existem despedidas amargas e eternas.

E todos parecem
na espera ilusória de algum sol...

DUALISMO – Rafael Rocha

Conto inserido no livro ‘O Espelho da Alma Janela” (2009) agraciado pela Academia Pernambucana de Letras (APL) em 1988, com o Prêmio Leda Carvalho
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Depois de terem feito amor adormeceram.
Ele penetrou em um sonho onde as mulheres eram todas iguais a ela. Ela mergulhou em um pesadelo no qual os homens a possuíam como se fosse a única mulher na face do planeta. Para ela, um pesadelo cheio de dores, pois quando imaginava já se achar perto do fim, começava outro, e mais outro. Nunca parecia acabar.
Ele sentia o corpo das outras mulheres como se fosse o dela. E o cheiro de todos esses corpos era o cheiro dela. As atribuições, os pelos pubianos, as curvas, os sinais eram todos dela. E não queria sair desse sonho. Todas as mulheres eram como ela e ele o único homem sobre a terra, a possuí-la, a tê-la para si.
No pesadelo (ou pesadelos) ela começou a chorar. No sonho (nos sonhos) ele começou a rir. Na cama, ela rolou de um lado para o outro, aturdida, tentando fugir do pesadelo. Toda a população de homens do planeta estava procurando tomá-la toda para si. Ela queria acordar. Ah, como estava sendo difícil acordar!
Ele dormia com um sorriso nos lábios, deitado de costas, quase sem mover um músculo do corpo. E era outra ela a beijá-lo na boca. Estava quase acordando quando outra ela chegava e o levava para o prazer de senti-la completamente sua. Ah, como é bom dormir assim!
No pesadelo, de repente, a fisionomia errada. Um rosto de homem que não era ele. No sonho, de repente, o rosto errado. Um corpo de mulher que não era o dela. As coisas se transformaram e ele mergulhou em um pesadelo. Não era mais ela. Era outra. Não possuía a beleza dela. Era apenas uma a mais de tantas conhecidas.
No pesadelo, quando a fisionomia errada se aproximou, ela sorriu. Conhecia aquela cara. Não era a dele, e ao mesmo tempo era uma lembrança de todos os carinhos, carícias atrevidas que ela já conhecera. Desejou mergulhar mais no sonho, porém as fibras do seu corpo desejavam acordar do torpor provocado pelo pesadelo.
Ele buscou provocar sua fuga do sono e as fibras de seu corpo provocaram o desejo dela.
Ambos rolaram na cama e ficaram frente a frente. Uma das pernas dela passou por cima do corpo dele. Um dos braços dele envolveu a cintura dela. Saíram devagar do sono. Olharam-se bem dentro dos olhos. Os lábios a se entreabrir. As bocas a se unir. Rapidamente, todas as chamas se acenderam e os corpos penetraram um no outro. E ele era todo dela e ela completamente dele.    
Depois de terem feito amor, acordaram.
Uma das mãos dela acariciou o rosto dele. Uma das mãos dele acariciou o rosto dela. Sorriram um para o outro. Que sonho eu tive, disse ele. Também tive um sonho, disse ela.
– Um sonho calmo e gostoso é muito bom. Sonhei que você estava vivendo em todas as mulheres do mundo.
– Meu sonho foi horrível! Um pesadelo! Estava louca para acordar! Sonhei que eu era a única mulher no mundo.
– Na verdade, você é realmente a única mulher do mundo para mim. Não existe outra.
– Você estava em todos os homens do mundo. Mas era um pesadelo! Como eu ficava dolorida ao ser possuída por todos os homens do mundo que eram você!
– Interessante tudo isso!
– Um pesadelo não é coisa boa.
– Como terminou o seu sonho?
– Um homem diferente apareceu e tentou fazer comigo o que você sempre faz.
– No meu sonho chegou outra mulher. Também tentou fazer comigo o que você faz.
– Não gostei disso!
– Eu também não gostei nada disso.
 Ambos se levantaram e começaram a se vestir. Estavam calados e seus olhos não mais queriam se encontrar. Tentavam dizer alguma coisa. Mas ela lembrava o outro homem. Ele recordava a outra mulher.
Já na rua pareciam separados por uma grande muralha. Ela se perguntava: quem será a outra? Ele se inquiria: quem será o outro? Quando ela não estava olhando, ele a olhava de esguelha. Quando ele não estava olhando, ela o olhava de viés. Será que ele me quer ainda? Será que ela ainda me deseja?
Quando se despediram estava escrito no livro do destino de cada um deles a criação de uma nova saudade. Nunca mais iriam se encontrar neste mundo.
Ela pensava em outro homem. 
Ele pensava em outra mulher.

CALENDÁRIO – Rafael Rocha

Do livro “Marcos do Tempo” - 2010
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Das chuvas de janeiro
Às nuvens de abril
Folia em fevereiro
O março já sumiu
Lembrando que no junho
O maio foi vazio
E nos ventos de agosto
Julho é muito frio
Quando setembro vir
Novembro é chegado
Ao fim de um outubro
Nunca sossegado
Tudo permanece dezembrado.

FOME – Rafael Rocha

Do livro “SANGRAMENTO” incluído na coletânea “POETAS DA IDADE URBANA” - 2013
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Famintas palavras e famintos verbos:
Deitar, amar, sofrer e lacrimejar a dor.
Famintas palavras não me fazem falta.
Infelizmente não posso musicá-las
Nem fazer as rimas terem sabor.

Rimas soltas, rimas desarticuladas
Nascem como feras desabridas na selva.
Rimas naturais não me fazem festa.
Felizmente não quero festejá-las
Em nenhuma floresta.

Não tenho nome a dar. Nem filosofia
A enxergar escritos vãos em páginas.
Nenhum nome vai marcar a verdade
De meu ser autêntico e anárquico
Cantando a liberdade.

Fui mais feliz quando o mundo se escrevia
Em aborrecimentos e humores tardios.
Ainda sou feliz por essa nostalgia
Mas não sou um astro de cinema
Para fingir a alegria.

Teimo em ser eu. Teimo em ser humano.
E se poeta acreditarem de mim:
Teimo em ser vários solitários
E os machos e as fêmeas têm de se convencer
Sobre o quanto somos vários.

O imperfeito habita em mim: Poeta anarquista
Inventor de palavras e verbos famintos.
As rimas ficam escondidas no meu caminho
E os escritos vivem perdidos
Nos meus labirintos.

VENTO – Rafael Rocha

Do livro “Contos Delirantes com Versos em Bolero” - 2017
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Meus fracassos o vento pode conhecê-los
como as pessoas de hoje reconhecem.
Outros abraços não me vêm aos braços.
Outros beijos minha boca não esquece

das outras bocas onde senti macios
sabores carnais de leves pétalas.
Talvez o vento possa reconhecê-las
invadindo a casa dos meus sonhos

que de agora mais estranhos mostram
cores esparsas e impressões fugazes.
Talvez o vento recorde tais fracassos
vindos da ressonância do passado.

Sei que hoje o tempo nos transborda
paisagens frias e insossas. Sem paixões
onde a tristeza faz morada eterna.
Onde a saudade marca a luz sem cor.

Outros beijos já não vêm à minha boca.
Outros abraços já não falam de amor.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

A LOUCA – Rafael Rocha

Do livro “Loucura” – 2018
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- Em memória de Maria Rita dos Espelhos –

Todos fogem quando ela passa louca
louca e louca e cada vez mais louca
puxando e arrancando seus cabelos
e cuspindo e comendo terra e chorando
desgrenhada e com um olhar feroz
a dardejar um mistério enorme de dor.

A cidade e o bairro conhecem a sua vida
desde que um filho da puta a violentou
numa noite chuvosa de fim de carnaval
no turbilhão dos frevos e dos maracatus
numa sala de espelhos onde sua imagem
ficou presa sem poder ganhar salvação.

Todos sabem o quanto ela é louca
louca e louca e cada vez mais louca
apesar de um corpo lindo e perfeito
apesar de uma boca bela e carnuda
apesar de uns olhos grandes e verdes
vive envolta em um manto de insânia.

Bairros e ruas da cidade a sabem inteira
de olhar nos espelhos das lojas e vidraças
a figura maltrapilha em roupas estampadas
de vermelho sangue e do azul das lágrimas
choradas de quando seu pai a chicoteava
ao chegar bêbado das solidões noturnas.

Todos fogem quando ela passa louca
louca e louca e cada vez mais louca
puxando e arrancando seus cabelos
rindo e chorando sua desgraça
e a dor de nada ser nesta vida
apenas uma louca cada vez mais louca.

Os espelhos e as vidraças são os amigos
da sua loucura. O mundo zomba ao vê-la:
cabelos desgrenhados e chorando e gritando
louca e louca e cada vez mais louca
pela criança nascida de seu ventre violentado
levada no vento para algum lugar não seu.

O mundo inteiro sabe o quanto ela é louca
louca e louca e cada vez mais louca
apesar de chorar infortúnios dia e noite
e gritar por ajuda a um deus que nada faz
vendo o mundo fugir quando ela passa louca
louca e louca e cada vez mais louca.

DIFERENTES – Rafael Rocha

Do livro “Abismo das Máscaras” - 2017
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É verdade, companheiro, a hora é de sangue.
Homens maus estão amarrando as vidas
e assassinando inocentes.
Os exploradores estão nas ruas
vestidos de escuridão e com o livro do caos
expondo um deus único e pronto
para matar a liberdade.

É verdade, camarada, a hora é complicada.
As livretudes estão sendo assassinadas.
Nada mais existe além de nossas forças
para transformar a noite em festa brilhante.

Temos de ter muito cuidado com os hinários
louvando o deus da mentira e seu pretenso filho.
A única verdade, camarada, está sendo morta
nos reflexos de olhos dos bandidos.
E essa verdade é o sonho de sermos
aquilo que desejamos ser
e não o que desejam que devamos ser.

Existe um chamado extremo das ruas
para sairmos desfraldando bandeiras.
Não existe outra forma de defesa
a não ser esta, camarada:
- A luta mortal pela vida de homem livre!

Sim, companheiro! A hora é de sangue!
A hora é de guerra!
A hora é de desembainhar a espada
e de fazer nascer um tempo novo
em aliança
com as multidões dos diferentes.

VINDA – Rafael Rocha

Do livro “Meio a Meio” - 1979
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Cheguei perto de vários crepúsculos
e de imensos ventos traiçoeiros
sem saber falar a verdade do amor branco.

No dia em que cheguei fui repartido
em muitas partes distintas.
Deram-me o silêncio e eu recusei.

Cheguei quando a noite
roubava territórios ao dia
e quando vozes fracas
ricocheteavam nos muros.
Deram-me uma solidão perdida e eu recusei.

De tantas outras vezes fui repartido
mas construí minha solidão própria.
Senti-me imensidade de olhos gastos.
Mãos vazias e grandes pés sem conforto.

Disseram-me que eu partisse.
Deram-me o amor gasto pelo dólar.
E então eu decidi ficar e chegar de novo
com os braços abertos
para o vento e às montanhas.