quinta-feira, 19 de setembro de 2019

PEDAÇO DE MAU CAMINHO - Rafael Rocha

Do livro “Contos Delirantes com Versos em Bolero” – 2017
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O condomínio Parque das Camélias fica situado no bairro do Janga, na cidade de Paulista,  Pernambuco. É um lugar calmo e pacífico. Dentro do condomínio existe o pequeno boteco de seu Lula, espaço onde, depois de uma boa caminhada ou um jogo de futebol no campo de grama sintética ali existente, os jovens e os mais velhos vão beber umas “geladas”.
Em um sábado, adentrou no condomínio um caminhão de mudanças e os trabalhadores começaram a retirar móveis e caixas e a levá-los ao bloco 13 (exatamente onde mora um amigo meu, o Antônio) para um apartamento do segundo andar, desocupado já há três meses.
Quando não tinham mais móveis ou caixas para levar ao apartamento, os carregadores, já bem suados, dirigiram-se até o boteco de seu Lula e pediram água e refrigerantes para aplacar a sede e o calor.
- E a dona disse que vinha atrás no carro dela, seguindo a gente. Até agora nada! - falou um deles.
Aquele que parecia o motorista, porque não carregou para dentro nem um mísero alfinete, encolheu os ombros.
- Ela vem, sim! - rebateu - E a gente espera, porque temos de receber o pagamento pelo serviço, né? 
Não demorou muito tempo para um Toyota de cor prata adentrar o condomínio e parar logo atrás do caminhão de mudanças.
Dele desceu uma mulher muito, muito bonita.
Todos os homens puseram os olhos naquele pedaço de mau caminho, como bem salientou seu Lula, o dono do boteco.
Morena clara, olhos amendoados e verdes, cabelos castanhos deslizando pelos ombros, indo quase até o meio das costas. Nariz arrebitado. Boca carnuda.
A jovem usava um curto short jeans colante, a mostrar um traseiro empinado e saliente, a beleza das coxas e das pernas.
Uma blusa branca completava a indumentária, destacando os seios, e esquentando ainda mais o quente sábado, fazendo com que os homens que a olhavam ficassem mais suarentos ainda.
Com um andar semovente de fêmea no cio ela começou a transtornar os machos ao redor. Dirigiu-se ao motorista do caminhão, tirou da bolsa um maço de notas e uma folha de papel, pagou e recebeu do motorista o recibo assinado.
A seguir, agradeceu, e sem olhar para ninguém encaminhou o esguio monumento ao bloco 13 onde entrou e desapareceu.
- Vamos ter confusão por aqui dentro de alguns  dias! - profetizou seu Lula.
- Será que ela vai morar sozinha por aqui? – indagou Oriosvaldo, que morava no bloco 10,  um pouco mais longe.
- Esquece Oriosvaldo, essa daí não é carne pra teu prato brincou Valteir, que morava no bloco  9.
Antônio se dirigiu ao motorista do caminhão de mudanças e fez algumas perguntas. Depois de receber as respostas, ele retornou, encheu o copo de cerveja, tomou um gole e calmamente acendeu um cigarro.
- Diz, cara! Fala! Quem é aquele pedaço de mau caminho? - perguntaram todos quase em uma só voz.
- Ela vai morar sozinha no bloco 13. Alugou o apartamento em frente ao meu por seis meses. Foi o que o motorista do caminhão disse.
- Vamos ter confusão por aqui! Vamos ter... - continuou a profetizar seu Lula.
Antônio, do alto de seus 50 anos, era casado e de bem com a vida, filhos já adultos e esposa bonita e bem conservada.
Porém, como qualquer macho, não deixava de olhar para os atributos de uma mulher, principalmente se a mulher   fosse especial como essa que acabava de chegar. Mas ficou calado e não disse uma só palavra.
Todos sabem como é o ser humano em matéria de querer se meter na vida dos outros. Portanto, em menos de duas horas...
- O nome dela é Camila. Tem 28 anos. Solteira. Trabalha como modelo. Já foi capa de revista. Figurou em um filme nacional. É carioca. Torce pelo Flamengo. Vai passar seis meses aqui entre Olinda e Recife para posar para uma revista masculina – espalhou Pedro Paulo, morador do bloco 12 e que era conhecido por saber da vida de todos os moradores, ainda que esse mérito não fosse dele, mas da mulher e da sogra, que morava com ele.
- Vai posar nua? Pra qual revista? - perguntaram todos ao mesmo tempo.
- Que pedaço de mulher! Puta que pariu! Quero saber em que revista ela vai sair nua, Pedro Paulo! - pediu seu Rogério, o septuagenário do condomínio - Uma mulher desse tipo é puro Viagra.
- Tira o corpo, seu Rogério! - zombou  Oriosvaldo - O senhor não tem mais nada duro não!
- Tás pensando o quê, rapaz!? Quer experimentar pra ver? - conclamou seu Rogério, levando a mão à virilha.
- Esse troço vai dar em merda! Ora, isso vai! - continuava a profetizar seu Lula.
Os dias e semanas foram passando e a linda Camila pouco era vista pelos moradores. Tudo porque ela saía às cinco da manhã e só retornava perto da meia-noite, diariamente. E, nos fins da semana, ninguém a via, pois o apartamento ficava fechado.
Dois meses se passaram. Nenhum  acontecimento digno de nota e de comentários envolvendo Camila.
Até que dona Neusa, uma viúva de 80 anos, fofoqueira como ela só, e que morava sozinha no apartamento logo ao lado do de Camila resolveu entrar em ação.
Juntou toda a mulherada do bloco 13 e dos outros blocos em um sábado à tarde, no pátio, pertinho do lugar de onde os maridos bebiam no boteco de seu Lula depois do jogo de futebol e abriu o verbo:
- Escuto e vejo com esses ouvidos e olhos que a terra há de comer. É uma piriguete bem safadinha. Eu observo, eu escuto...
- Mas dona Neusa, pelo que me disseram, ela sempre chega tarde do trabalho. E acorda cedo... - falou a esposa de Pedro Paulo.
- E geme, minha filha! Geme na cama de uma maneira que só deus sabe...
- Eu nunca escutei gemido algum, dona Neusa! - disse a mulher de Antônio.
- Eu acho que vocês têm é de vigiar seus maridos. Essa mocinha deve ter seduzido todo mundo. Ela geme porque tem homem na cama. Deve estar levando um por um de seus maridos para a cama dela. Cada noite fica com um.
- Que vergonha! Que safadeza! - exclamou a sogra de Pedro Paulo.
A mulher de Pedro Paulo não gostou da entrada da mãe na conversa e falou ríspida:
- Não se meta nisso, mamãe!
- Com falta de respeito eu me meto, filha. Eu me meto! E concordo com a Neusa! Tem cipó duro no meio! Ora, se tem!
Na mesa do boteco de seu Lula, os solteiros e os casados observavam a reunião especial das mulheres.
- Chamo isso de inveja! - exclamou seu Lula - Por isso que eu disse que vai ter confusão. E já começou!
- Quando um monte de mulher feia, mal resolvida e mal amada se junta, pode apostar que vem merda por aí!... – disse seu Rogério, o septuagenário, batendo no chão com a bengala.
- Que é isso, seu Rogério? Minha mulher não é desse tipo não. Minha mulher é bonita e bem resolvida. Que é isso? - reclamou Pedro Paulo.
- Também não concordo com o senhor não, seu Rogério! - falou Antônio.
A acalorada discussão entre as mulheres sofreu uma pane repentina. Os homens levantaram-se das cadeiras onde estavam sentados no boteco de seu Lula e ficaram a olhar a beleza de Camila, em um short minúsculo e pequeno sutiã de praia, a descer do Toyota que tinha estacionado ao lado de onde as mulheres estavam reunidas.
Os olhos dos machos brilharam de excitação, observando a linda mulher encaminhar-se direto para o local de reunião das matronas do condomínio.
Todas se calaram, mas Camila ficou no meio delas. Ela pediu para falar. As mulheres fizeram um círculo em volta de Camila, como os jogadores de futebol fazem antes de começar o jogo e ficaram a escutá-la.
- Que diabo está acontecendo? - perguntou seu Lula.
Dez minutos depois...
Burburinho! Exclamações de júbilo! Gritinhos excitados!
A seguir aplausos e mais aplausos e todos vendo as mulheres dando beijinhos umas nas outras e se abraçando e rindo satisfeitas como nunca. Dona Neusa abraçou a linda Camila e ambas se encaminharam enlaçadas e alegres para o bloco 13, seguidas pelas outras.
Aparvalhados e sem ter como explicar o motivo daquela radical mudança de comportamento, os homens começaram a beber e a fumar cada vez mais depressa. Apenas seu Lula estava com uma pulga atrás da orelha. Chamou Pedro Paulo e pediu:
- Vai lá no bloco 13 e espiona. Pergunta à tua mulher. Depois volta e conta pra gente o que significa essa coisa toda.
 Pedro Paulo aquiesceu e foi.
Vinte minutos depois, eis que ele volta e agora todos os solteiros e casados estão de olhos e ouvidos atentos.
- Fala, homem! Diz! O que anda acontecendo?
Pedro Paulo soltou uma sonora gargalhada.
- Não dá para acreditar! - exclamou.
- Fala! Fala, homem! - gritou seu Lula.
- Aquele pedaço de mau caminho tem nome. Chama-se corrupção. Ela comprou toda a mulherada daqui, principalmente dona Neusa.
- Que história é essa? - gritaram todos a uma só voz.
Pedro Paulo não parava de rir. Pediu uma cerveja e bebeu até a metade pelo gargalo.
- Um filme! Um filme que ela vai fazer! Um comercial para TV! Dona Neusa vai ganhar um papel no filme como a mãe dela, e minha sogra vai ser a tia. A mulher de Antônio vai ser diarista.
- Que porra de filme é esse? - todo mundo agora estava morrendo de curiosidade - Explica, Pedro!
- Os gemidos noturnos eram treinos de voz e fazem parte do roteiro do filme. E dona Neusa e minha sogra vão atender à filhinha e à sobrinha doente no filme com o remédio salvador, enquanto a diarista traz um copo com água. E cada uma vai ganhar um cachê pela participação no valor de cinco mil reais.
Pedro Paulo voltou a cair na risada, arrematando:
- E avisaram que precisam de um velhinho para fazer o papel do vovô dela!
Os olhares de todos os homens recaíram, invejosos, sobre seu Rogério.

sábado, 7 de setembro de 2019

MARÇO (1968) – Rafael Rocha

Do livro “Poemas dos Anos de Chumbo” - 2017
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Neste março friorento
deste ano de 1968
estou perto dos meus 19 anos
buscando sorrisos
e alegrias esparsas.
Mas os olhos do mundo
estão cansados para sorrir
e a pátria enlutada
sofre sob coturnos.

Não tenho jeito para lutar
como aqueles amigos que se foram.
Fico sentado à mesa
girando letras no papel
criando ondas de versos
que poucos lerão
em defesa
dos meus famintos irmãos.
E pelas ruas os assassinos marcham
com as baionetas caladas e armadas.

Meu pai e minha mãe olham
meu corpo e por temor de mim
fecham as portas e janelas
à minha repentina ideia
de sair às ruas e abrir
todas as portas da vida.
Nem sequer conhecem
o prazer da límpida água
a nascer no meu caminho.

Não tenho ainda uma namorada.
Nem uma amante delicada.
Sequer um sonho de mulher
para contar-lhe histórias de heróis.
Mas sinto um medo imenso
pelos filhos que eu possa ter
e de que nada mude
e tudo permaneça entregue
à sanha dos assassinos da liberdade.

OUSADIA – Rafael Rocha

Do livro “SANGRAMENTO” incluído na coletânea “POETAS DA IDADE URBANA” - 2013
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Ouso tudo de minhas pretensões:
Voar ao encontro das loucuras.
Nadar nas lavas dos vulcões.
Escalar o mais alto pico de Vênus.

Ouso...
Dizer o bem abraçado com a ruindade.

Ouso...
Poetar o bêbado do primeiro bar.

Ouso...
Colocar na boca de qualquer humano
O beijo de minha realidade
E sentir a vida escorrer.

Ouso tudo dos anseios programados
Desde o primeiro segundo vindo
De um ventre em um choro desabrido
Ser poeta e ser delírio e ser louco.

Ouso...
Minha loucura elogiar diariamente.

Ouso...
Cego ver o mundo na escuridão.

REINADO – Rafael Rocha

Do livro “Felizes na Dor – Tributo ao poeta Charles Bukowski” - 2016
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como nada tinha que fazer em casa
concedi-me licenciosidade
e parti para um universo paralelo
na rua
ao dobrar a esquina ela apareceu
deu um sorriso
depois... já um pouco longe
olhou para trás
e sorriu de novo
eu nada tinha que fazer mesmo...
parti em seu encalço
e ela percebeu...
a caçada tinha começado!

diminuiu o ritmo das passadas
e olhou para trás sorrindo de novo
espera aí, porra!
fiz um sinal e ela estacionou o corpo,
recostando-se
num muro todo grafitado
com as letras incoerentes dos loucos
vagabundos das noites
que é que tu queres? - perguntou
continuava sorrindo

parecia zombar de minha caçada
segurei seu braço e a puxei
toda para mim
e ela riu de novo
e disse que estava sendo machucada

merda, tens lugar para ir?
tu não tens?
prefiro que tu tenhas
então vamos...
passei os braços em torno:
a cintura fina e a carne magra
aceitaram meus braços, dedos e mãos;
na primeira esquina penumbrosa
encostei-a contra um poste sem luz...

por sinal, não tinha nada mesmo a fazer
fiz ali mesmo
e escutei seu gemido e uma praga
e seu sorriso sumiu do rosto
porra! que pressa! devagar, porra!
não tinha nada mesmo a fazer naquela hora
e na escuridão do poste sem luz
reinei a maior foda de minha vida.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

ANDANÇAS – Rafael Rocha

Segundo capítulo do livro homônimo lançado em 2018
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MATANÇA E VINGANÇA
Terêncio Nunes não conseguiu salvar o pequeno povoado de Calumbi naquele dia de março de 1920. Tinha armado todos os seus homens, inclusive os jagunços vindos da Bahia. Distribuíra farta munição, mas os seus comandados não estavam devidamente prontos e aptos para enfrentar os perigosos cangaceiros de Zé Viola.
Apesar da renhida luta entre os homens de Terêncio e os cangaceiros (iniciada com um longo tiroteio, culminando com a invasão da pequena vila por dezenas de homens armados com fuzis, facões e punhais), a resistência dos seus habitantes terminou cessando.
Ainda que todos ou quase todos tenham se rendido, o bandoleiro fez uma carnificina e depois deixou na praça do povoado um círculo macabro de cabeças degoladas. Aqueles que não morreram resolveram ficar ao lado do vencedor.
E tiveram de entregar tudo que possuíam de mais caro, fossem objetos de ouro, prata, dinheiro ou, como o bandido gostava, a entrega, sem protestos, das meninas mais bonitas e tenras para serem descabaçadas por ele e seus lugares-tenentes.
Terêncio foi o último a perder a vida.
Conhecedor das macabras e sanguinolentas ações daquela escória, ele não cedeu em sua luta, mesmo sabendo-a inglória. Na verdade, lutava mais por si próprio e por sua família.
No exato momento em que seu punhal rasgava o ventre de um dos cangaceiros, o choro de seu filho recém-nascido ecoava dentro da casa grande.
O punhal e o facão de Terêncio Nunes respingavam sangue, quando uma de suas criadas, nhá Zefa, enrolou o menino em alguns panos, colocou num cesto de palhinha e se embrenhou pelas ruas escuras do povoado.
Ela enfrentou o perigo com destemor. Embrenhou-se por entre os cactos, os pés de palma, os mandacarus e outras plantas da caatinga, seguindo em direção à fazenda Ingazeira, ali perto, (questão de quinze minutos de caminhada) onde colocou nos braços sexagenários do “coronel” Otaviano Nunes, pai de Terêncio, o pequeno e ainda não lavado corpo do neto.
– O que aconteceu, mulher? – inquiriu o “coronel”.
– Uma tragédia, senhor! Os cangaceiros... eles... eles... foram lá... mataram quase todo mundo.... muita gente morta...
Imediatamente, o “coronel” Otaviano entregou a criança aos cuidados da criadagem, e, a seguir, convocou e armou todos os seus homens.
Aos melhores atiradores entregou alguns modernos Winchesters trazidos da terra dos ianques por seu outro filho Antenor Nunes, já morto pela tuberculose, e partiu para defender o rebento mais velho.
Também enviou um emissário, solicitando ajuda urgente aos Pereira, da vila de Princesa Isabel, na Paraíba, seus amigos e compadres de longa data.
Quando o “coronel” chegou a Calumbi, a vila estava envolta em uma fedentina de corpos mortos, inchados e dilacerados pelos cães de rua, com os seus moradores trancados a sete chaves, temerosos de olhar para o macabro círculo de cabeças degoladas disposto na praça central.
Ele alcançou a casa do filho Terêncio e deu um urro de animal ferido ao ver o corpo da nora ensanguentado e cheio das marcas selvagens de múltiplos estupros. Na cadeira de balanço, na varanda da casa, indo e vindo ao sabor do vento, estava a cabeça de seu filho coberta pelas moscas.
Enquanto rasgava as vestes e urrava como um louco, agarrado ao corpo de Terêncio, chegaram os homens dos Pereira, da vila de Princesa.
Soube, por eles, que o bando de Zé Viola estava acampado nas proximidades das Furnas dos Cavalos, perto da povoação da Baixa Verde e isso bastou para que o sexagenário homem solicitasse vingança aos espíritos infernais da caatinga.
Ajudado por um dos seus capangas, montou em seu cavalo e partiu em busca de sangue para a sua honra:
- Venham comigo! Vamos matar todos aqueles filhos da puta! Todos!
Os cangaceiros de Zé Viola foram (em sua grande maioria) presos e esquartejados nas Furnas dos Cavalos por um bando de homens mais enlouquecidos e sedentos de sangue do que eles.
O chefe foi agarrado, juntamente com a sua mulher Marinalda de Jesus, quando tentava fugir por entre as plantas espinhentas da caatinga. Ambos se arrastavam como ratos sob o sol causticante do sertão, com a mulher maldizendo o marido, chorando e buscando proteção divina para o fruto de seis meses abrigado em seu ventre. De nada adiantou. Presos e levados à presença do “coronel” Otaviano foram supliciados na base do esquartejamento aos miúdos. O cangaceiro Zé Viola ficou por último para ver Marinalda de Jesus sofrer as dores do inferno e a fúria da vingança.
O próprio “coronel” Otaviano fez questão de enfiar seu facão do mato na barriga da mulher, na base do umbigo, rasgando o útero e matando o feto lá no fundo do ventre. Depois, o arrancou das entranhas da cangaceira, elevou o pedaço de carne para o alto como um troféu cobiçado, e o dilacerou com um só golpe do facão, do meio das pernas à cabeça.
Zé Viola, amarrado em quatro estacas enfiadas no chão por vários cordames, com as pernas e braços abertos, a se recortar como um X no solo ressecado, ainda teve coragem para insultar o “coronel”.
 - Velhote, filho de uma puta!
 E quando o facão do coronel decepou os seus órgãos genitais, e depois se enfiou desde o estômago até sua espinha dorsal como faca quente na manteiga, o bandoleiro ainda conseguiu escutar antes de mergulhar nos braços da morte:
 - Morra! Prefiro ser um filho da puta vivo do que um filho da puta morto!
 No restante daquele dia os homens do “coronel” Otaviano se dedicaram ao trabalho de esmigalhar braços e pernas, orelhas e órgãos genitais.
Retiraram dos dedos e dos pescoços degolados dos bandoleiros, joias dos mais diversos tipos. Recolheram as armas brancas, as espingardas e fuzis, os víveres, os jumentos e os cavalos espalhados pela caatinga, fugindo do cheiro de sangue fresco a deslizar pela terra seca e pelas rochas.
Os pedaços de dedos, cabeças decepadas, braços e pernas dos cangaceiros mortos foram jogados e dispersados numa extensão de quase dois quilômetros pelos homens do “coronel”.
Quando o sol começou sua sinfonia do poente, a imensa lua cheia sertaneja nasceu totalmente rubra como se tivesse testemunhado a cruel e sangrenta vingança.
Depois desse dia de fúria, o “coronel” Otaviano iniciou a educação do neto, prometendo a Deus, ao mundo e aos homens, que viveria outros vinte anos para observar o crescimento do rapaz.
Planejou tudo com o único filho que lhe restava, o raquítico João Maria, cujas más línguas sertanejas diziam que ele estava morrendo de sífilis devido às suas reinações com as quengas da velha Maria Peixoto, lá nos cafundós da fazenda Saco, em Vila Bela, atual Serra Talhada.
João Maria recebeu poder nas propriedades do filho de Terêncio para fazê-las prosperar mesmo sob as mais variadas intempéries que sempre assolavam o sertão.
Em contrapartida, o “coronel” Otaviano cumpriu a promessa de viver mais vinte anos e, quando seu neto completou os 19, ele, já penetrando nas sendas da morte, recordou que se esquecera de batizá-lo por causa da fúria acumulada em sua mente naqueles dias de vingança.
Nesses anos todos, ele nunca soube que os habitantes de Calumbi já tinham na ponta da língua o nome do rapaz. Ainda assim, chamou o padre do povoado, o holandês Dickens von Derley, e ordenou que ele batizasse seu neto com o nome de Otaviano Nunes Neto.
No entanto, o rapaz foi inscrito no batistério da pequena igreja de Calumbi como Otaviano Neto do Nunes. 
Tudo porque o religioso estrangeiro preferiu confiar na sabedoria do povo da terra do que na palavra de um homem beirando os 90 anos.

DESDENHO – Rafael Rocha

Do livro “Loucura” - 2018
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À porta da insanidade o homem saudável
canta uma ária feito louco cidadão.
Seu ritmo é repleto de pedidos
por fêmeas cheias de paixões vivazes.

A loucura desdenha o homem são
a pedir uma chave para abrir a porta:
- Não merece entrar em minha casa
e muito menos habitar essa morada.

O homem saudável desejava viver
os instantes de um louco vivaz na terra
buscando a filosofia do nada e do seu deus.
(Ser um divino humano)

Retirou-se assim da esperança
e fez da própria vida um inferno
para ser chamado de louco
no tempo que lhe restava na terra.

A VOLTA DOS RINOCERONTES – Rafael Rocha

Do livro “Farol” – 2019
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Flores cinzentas em jardins suspensos
matam o desejo sexual dos homens.
O odor dessas flores é de enxofre
quando mulheres catalogam orgasmos
e deixam de expandir os gritos
nos lençóis das camas e travesseiros.

Viver está se tornando uma farsa...

Os rinocerontes voltam às ruas,
atropelando sem piedade os pensadores.
Os caminhos até as mulheres amadas
são fechados com cercas de ferro.
Os caminhos até as águas límpidas
são vigiados por capitães-do-mato.

Morrer é mais fácil do que antes...

Os poetas e os idealistas e os sonhadores
esperam flores coloridas nascendo livres
como novas crianças nos jardins suspensos.
A Terra-Mãe está repleta de angústias.
Os vulcões entrando em erupção.
E os rinocerontes marchando pelas ruas.

Permanecer humano passou a ser estranho!