quarta-feira, 23 de outubro de 2019

MORTAL HERANÇA – Rafael Rocha


Do livro “Farol” – 2019
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Quando o grande terremoto
varrer a cidade ímpia,
onde os ladrões
fecharam as aves em gaiolas,
tudo ficará gangrenado
e com sangue purulento:
- Mortal herança
pronta para os abutres.

Abismos se abrirão
na crosta da Grande Terra
e homens endemoninhados
recriarão a história,
escrevendo a farsa de mitos
como se fossem heróis,
destruindo
direitos e sonhos
e esperanças.

Quando o imenso tsunami
alcançar a grande baía
os alienados cantarão salmos de medo.

Nenhum deus virá salvá-los.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

A ÚLTIMA DAMA DA NOITE – Rafael Rocha


Oitavo capítulo do romance lançado no ano de 2002
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Do diário de Jurandir Farias:

Ela não morreu de uma hora para outra como se imagina. Foi uma morte gradual, lenta, como se o tempo não desejasse seu morrer antes que todos os sopros e ventos deste mundo conhecessem melhor seu corpo.
Sabia, sim, estava partindo de vez, mas as únicas reclamações a sair de sua boca diziam respeito ao abandono em que se achava relegada: “Eu, eu, eu, logo eu, a mais famosa, a mais procurada, a mais badalada madama...”
Chamou-me ao seu leito de morte ali mesmo no prédio da Rua Vigário Tenório.
No dia 29 de dezembro de 1986, pus-me em contato com odores acres de velhice, mofo, rato e baratas no antes mais limpo puteiro da zona. Conhecedor daquela pensão em seus melhores dias, fiquei estarrecido ao notar o abandono em que se encontrava a casa.
E recordei ocasiões anteriores... Seresteiros reunidos no grande salão/bar, encantando os fregueses com canções da época e as mulheres da noite vestidas com suas melhores roupas, maquiadas e vivazes... E, com o passar dos anos, devido ao progresso, os violões e cavaquinhos substituídos pela famosa radiola de ficha.
Tudo nesse local falava de amores passageiros, paixões desvairadas e desejos carnais, tentando desobrigar das responsabilidades da vida, homens, mulheres, sapatões, viados e coisas mais.
Porém, era um antro gerador de sonhos e muitos romances criaram asas no ambiente, como o do coronel do Exército, Ernani Mastrogallo e a louríssima Mércia Silene.
Foi uma paixão avassaladora.
A menina da noite contou a Maria Rosa como estava sendo assediada pelo militar e ficou surpresa ao ver a madame sorrir.
Silene perguntou se isso era possível e se a mainha estava disposta a perder sua companhia por ela estar amando, recebendo duas perguntas em troca, às quais nunca conseguiu responder:
− Menina, seus sentimentos são sentimentos de muié ou de puta? E uma puta é bicho ou muié?
Um mês depois, a louríssima Silene abandonava a pensão da Vigário Tenório e, junto com o coronel Ernani partia para a cidade de Florianópolis, onde ainda hoje vive, cercada de filhos, netos, e proprietária de uma fazenda onde se cultiva soja e se faz criação de gado.
Esse foi um dos pormenores contados pela mainha antes do seu encantamento. Uma das coisas a fazê-la rir e chorar ao mesmo tempo, ligada à felicidade alcançada pela afilhada ao partir para essa aventura, e à dor de imaginar que tinha perdido um pedaço de si mesma.
“Por isso me senti iguá a Silene, partindo pro desconhecido. Também fiz isso e só ganhei dissabor”, foi um pedaço de sua confissão.
Vendo assim o seu tempo sendo colocado para escanteio, passou a falar depressa demais, e as histórias criavam liames umas com as outras, quase me levando a imaginar seu cérebro saindo das engrenagens.
De repente, às dez horas da manhã, sentou-se na cama e segurou meu rosto com suas mãos esqueléticas, exclamando: 
− Também matei gente, meu !... Isso incomoda tua mainha! Tenho um medo tão grande de partir p’ôtro mundo com esse pecado... Perciso de um padre pra me sarvar! Oh, Deus!...” 

OLHOS ABERTOS PARA A MORTE – Rafael Rocha

Nono capítulo do livro homônimo lançado no ano de 2012 – Agraciado com Menção Honrosa pela Academia Pernambucana de Letras (APL) – Prêmio Vânia Souto Carvalho (2011)
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A noite estava fria.
Nos morros e campos do quartel do 14º Regimento de Infantaria, Fernando entrava em mais um dia de treinos.
Há alguns meses servia ao Exército.
O pai chefiava o grupo no qual ele e mais cinco rapazes estavam inscritos.
Todos tinham familiares nas Forças Armadas, mas aquele grupo se preparava para ingressar numa tropa especial que viajaria aos EUA dentro de alguns meses, com o objetivo de realizar outro tipo de treinamento.
Fernando Clemens, Glauco, Rômulo, Saraiva e Ximenes, respectivamente, soldados 41, 53, 58, 67 e 72, lutavam para ultrapassar a noite friorenta vestidos apenas de sunga.
Descalços, corriam pelos morros, observados pelo agora general Wellington Clemens, acompanhado nessa ocasião pelo capitão de Exército dos EUA, O’Higgins Leary, que seria dentro de alguns dias o comandante do grupo.
O norte-americano mostrava satisfação com o que via.
Em um português arrevesado disse ao general Clemens: “Eles são bons! O senhor soube treiná-los, general. E o seu filho é muito especial”.
O general mostrou satisfação com o elogio. “Desde pequeno ele vem sendo treinado para ser um exemplo de soldado, capitão”, exclamou.
“Em nossa base eles terão muito trabalho para fazer. Vão aprender também a matar inimigos. Matar sem piedade. Espero que estejam preparados para isso”, redargüiu o ianque.
“Garanto que eles estarão preparados capitão. Bastante preparados”, anuiu o general.
O fim da madrugada encontrou os cinco rapazes com os pés cortados e os corpos dilacerados pelos espinhos do mato. Ainda assim não mostravam resquícios de que estivessem sentindo dores.
Ninguém reclamava. O general Wellington Clemens deu por encerrado o exercício às 5 da matina.
Após tomarem banho e vestirem a farda os recrutas retornaram ao pátio, ficando postados como sentinelas sem mover um músculo durante uma hora, um ao lado do outro. 
Ao fim desse período foram liberados para descanso.

sábado, 28 de setembro de 2019

ITINERÁRIO – Rafael Rocha

Do livro “Abismo das Máscaras” 2017
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O tempo não tem horário
é um itinerário
onde apenas há passado
coisas gastas
e antigas
como o espaço onde estamos
a esperar:
o último terminal.

O poeta aguarda
ainda com esperanças
e vive entre homens
e mulheres
dentro de uma abóbada vazia
respeitando
o trâmite silencioso
das coisas transmudadas em nada.

Ele é dono de tantas esperas
está aqui como criança nua
(tristemente nua)
quase no fim do itinerário
e quase a ser passado.

A vida ofereceu coisas para chorar
e outras pequenas para alegrá-lo
mas todo poeta tem dessas coisas
antes do esvanecimento.

Sobram terra e vegetais.
Sobram recordações.

MESCLAS ANTERIORES – Rafael Rocha

Do livro “Meio a Meio” - 1979
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 “Ontem, na tarde loura de aquarela
Alguém me perguntou – como vai ela?
Como vai o teu amor? – Eu respondi:
Não sei. Uma mulher passou na minha vida...
Não me lembro... E nessa hora comovida
Como nunca lembrava-me de ti”.
Menotti Del Picchia

Ainda sobraram uns pedaços da tua presença:
O cheiro do teu corpo em algumas camisas.
O teu jeito cotidiano de mostra-se má.
Coisas tuas que o tempo não apaga
tais como um gesto de carinho
um imenso desejo do meu sexo
as veracidades da tua natureza de mulher.
Restou o teu retrato em três por quatro,
completamente intato
na minha bolsa capanga.
Um pouco do teu jeito
espalhou-se nos meus jeitos
coisas tuas que emolduraram
meu desespero desequilibrado.
De ti restou um pouco
de nossa viagem aos mercados
das coisas que compramos juntos
tentando um mundo novo
a nossa imensa amizade,
as nossas rusgas no jardim.
Ainda restou a tua graça no meu pensamento.
Escrínios de teu rosto bonito
nos rostos dos camaradas.
Restaram vozes tuas
quando cantavas ao meu ouvido
canções que falavam do amor na terra
e acima dela.
Depois de tudo isso eu restei-me
com todos os teus restos.
Com o teu modo de me ouvir falar
de um futuro ilusório.
De um canto só nosso.
De algumas crianças.
De relações integrais
– teu corpo no meu corpo –
E assim quem restou fui eu mesmo,
eu inicialmente
que sabia as lutas que travaste
com o mundo e com tu mesma.
Que sabia de cor as tuas vestes mais íntimas.
Que sabia o ponto de partida
e chegada do teu êxtase.
Restou, antiga amada,
as cores das nossas almas.
Nossos frêmitos, nossas fugas, nossas dores.
Restou na realidade tua completa ausência.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

GRÃOS DE TERRA SOBRE... – Rafael Rocha

Conto inserido no livro “O Espelho da Alma Janela” (2009) agraciado pela Academia Pernambucana de Letras (APL) em 1988, com o Prêmio Leda Carvalho e com Menção Honrosa pela Academia de Letras e Artes de Araguari (MG) no ano de 1986. Dedicado a minha avó materna Lídia Barros de Almeida (In Memoriam)
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Nós não sabíamos o quanto ela podia ter feito para explicar a vida.
Agora, quando a olhamos perante o vazio das suas lembranças – coisas isoladas em parênteses temporais, intervalos fechados entre duas incógnitas – sentimos entristecidos o enorme tamanho de sua ausência.
Ela vive um espasmo agudo de velhas estrofes, reminiscências do seu tempo e, quantas vezes, a princípio, seus gestos e sua voz trêmula pareciam profetizar novas ações e esperanças. Realmente, se formos observar todas as multidões de orações de seu rosário, na contida solidão de sua alma nonagenária, quem – possuindo-a em prosa e versos – escreveria e contaria sua lenda diante do angustiante massacre do tempo?
Então, sempre poderemos vê-la, perdida e esquecida em algum lugar espaço da casa. Às vezes, deglutindo para si mesma, sonhos de uma espécie fantasiosa, os quais não somos dignos de conhecer. 
A mania de gritar em nossos ouvidos uma riqueza material nunca existente, ou ainda, de dar-nos as boas-vindas e inquirir de cada um de nós do tempo, da saúde, do trabalho, da família e, por incrível que pareça, dos nossos amores.
Seu corpo teima em viver. Seu cérebro, hoje fútil, quase sempre esquece o fio da meada e estaciona em algum ponto imaginário de sua vida vagarosa, apertada entre o quarto e um pedaço de sala, na escuridão para sempre dos seus olhos pequenos.
 Foi preciso, portanto, nosso crescimento vir a ser mental para o nosso espaço unidade comungar de tudo o que se passava dentro dela. Em primeiro lugar, notamos o pensamento vivo e ignóbil de nossos cérebros de que ela sempre tinha sido a mesma, assim velha e enrugada, deslizando para uma esclerose compacta das artérias. 
Nem sequer pensamos: um dia ela também brincara com algumas bonecas de pano. Nunca imaginamos: sua carne também teve desejos de sexo. Nem chegamos a crer: seus olhos também derramaram lágrimas por causa da morte e, por dores da vida, seus lábios sorriram com sua primeira criança chorando em seus braços. Nunca acreditamos em nada do que ela nos contara.
Mas nessa nossa estúpida qualidade de quem possui oportunos meios de viver, ouvir, ver, gritar, correr e amar nas pressas deste século, e, também apressadamente, tentar transformar o mundo, hoje vimos seus gestos e ficamos estupefatos a pensar antecipadamente no futuro de nós mesmos.
Estúpidos, não vimos por onde acreditar que essa carne flácida, enrugada, feia e velha, teve um dia o desabrochar da menina-moça e a suavidade veludo perfume da amante.
 Então, nesse princípio de entendimento, quando chegamos a ver o quanto ela representa de humano, quando observamos que sua presença dentro do nosso mundo ainda é uma presença de carne e respiração como a nossa e não uma alegoria simbólica do passado - mas uma presença concreta de nome e gestos mortais - acreditamos em sua revelação de vida.
Realmente, pareceu aos nossos olhos e ouvidos que esse entendimento, mesmo tardio, tornou-se, ele mesmo, uma construção erguida por sua presença de carne e espírito.
E, assim, quando naquela tarde de setembro, seu corpo passou rente aos nossos, buscando refúgio em uma das poltronas da sala, com as mãos apalpando as paredes e os móveis, sem pedir ajuda a nenhum de nós, quando a vimos sentada, estávamos tão vivos dentro do seu silêncio, que ficamos aterrorizados quando ela nos disse:
“É muita terra lá no quarto. Muita terra. Muita...”
Como nossas bocas não pronunciaram palavras, assustadas com aquela interrupção dos nossos instantes de seres presos a um colóquio de sonhos interiores, ela teimou em continuar falando e, a partir daí, sentimos sua presença tão igual à nossa no túnel do tempo:
“Acordei coberta de terra. Tive de balançar o lençol da cama para poder me levantar. Da cabeça aos pés coberta de terra. Vocês têm de achar um jeito de limpar o quarto. Ele está cheio de terra. Muita terra.”
Assustados, olhamos uns para os outros. Tudo que ela falara tomou uma forma ágil de pássaro. Algo assim como uma premonição vaga, porém concreta, de um fim em começo, igual à carne se envilecendo e, aos poucos, caindo como poeira de dentro de suas vestes, mostrando o esqueleto numa órbita fixa de satélite a planeta, mistifório de estrelas ao epílogo do ciclo vital.
Saímos de casa e fomos para a rua. Não nos olhamos mais e parecia que estávamos vendo a vida de cada um saindo do corpo indivíduo. Observamos que nossos pensamentos eram uns dos outros e não próprios a cada um.
Quando voltamos da rua e entramos em casa, ela ainda permanecia sentada na mesma poltrona, não sabemos dizer se mais certa com seus pensamentos, puxando e repuxando com o polegar e o indicador da sua mão direita, uma mecha de fios prateados da cabeleira que deslizava e se enrolava, deslizava e se enrolava de forma quase contínua sobre a sua orelha e a sua face.
Nos outros dias, nossos pensamentos estavam bem mais ligados a todos os comezinhos gestos dela. Ligamos a ela de tal forma nossas individualidades que os reflexos dos nossos pensamentos saltitavam nas paredes da casa e, como em um cinema, ficamos estáticos assistindo a sua história. À noite, nossos olhos observavam seus gestos procurando o sono, ouvíamos suas conversas com pessoas invisíveis dentro do quarto, suas canções dos tempos de outrora perturbando a nossa letargia de seres vivos.
A pergunta que mais nos fazíamos era apenas uma: “Quem está vivo e quem está morto?”
Nós, que de há muito tínhamos desacreditado em Deus, ficamos espantados com o retorno de milhares de subdivindades à nossa casa.
Ela rezava as ave-marias de modo tão ininterrupto que o quarto se enchia de anjos e tresandava a velas de igreja.
Porém, não achamos justo reclamar de nenhum desses fatos, mesmo quando a ouvíamos, quase aos gritos, pedir perdão por todos os pecados de sua vida, girando velozmente os dedos pelas contas do rosário em busca de uma ave-maria mais poderosa que todas ou de um salve rainha mãe de deus que lhe abrisse as portas da morada celeste.
Um dia houve quando a surpreendemos num colóquio com a parede do quarto. Falava de sua inutilidade.
Falava de sua solidão.
Chamava pessoas cujos nomes nos eram estranhos. Fantasmas de sua remota infância talvez estivessem desfilando perante ela. Rostos que só ela teve oportunidade de conhecer. Sabíamos de sua cegueira, mas ela estava vendo com os olhos da memória e suas conversas com a parede do quarto deviam receber respostas, pois existia uma continuidade assombrosa de questões debatidas.
Ouvimos sua oração para uma subdivindade feminina protetora dos cegos e o seu pedido de retorno da visão para voltar a pregar botões em camisas de brim, costurar camisas para os rapazes da rua onde morava, alinhavar calças e ternos de linho, acertar o acabamento final em palas e bainhas numa velha máquina de costura Singer.
E, depois, como se uma enorme pedra desabasse sobre o seu corpo, vimos seus dedos rodopiando nas contas do rosário e uma oração sem nome chegou aos nossos ouvidos.
Ficamos transidos de medo, ouvindo sua voz trêmula chamando a morte. 
E, então, quando resolvemos voltar à quadra da infância, vimo-nos garotos em volta de seu corpo de matrona risonha, a nos ofertar, ao pé da velha máquina de costura, carretéis de madeira outrora cheios de linhas coloridas, caixas vazias de sapatos, onde amarrávamos barbantes para arrastar pelos corredores de sua casa automóveis e trens imaginários, como hoje ela puxa suas recordações através de uma longa teia de lembranças, em ligação íntima à sua crença cristã na vida eterna, e ao seu temor humano dos sete palmos abaixo dos grãos da terra.

GARGALHADAS – Rafael Rocha

Do livro “Marcos do Tempo” – 2010
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Amada, quando a dor bater em tua porta
Tenta lembrar de mim e gargalhar comigo
Recordando os instantes das desditas
Acabadas em anseios gloriosos

Nos teus momentos de escuridão
Recorda de mim e deixa o riso voar
Lembrando quando eu dizia que teus olhos
De tão pequenos eram pétalas de flores desconhecidas

Amada, quando ficares sem meu corpo
Não deixe as lágrimas deslizando na face
Ria, pois a tua risada sempre foi para mim
Uma das ganâncias maiores de minha vida

Em qualquer lugar onde eu ficar, amada
E escutar teu riso cristalino
Estarei dinâmico e buliçoso
E transformado em vento virei rir contigo