domingo, 3 de dezembro de 2023

ELEFANTES BRANCOS MATAM MARIPOSAS (contos) - Rafael Rocha

 


PNEU FURADO E SEM MACACO

 

Como estão hoje os meus companheiros de há quatro décadas?

Lembro de histórias e das mais arrematadas loucuras que fizemos em bando pelas ruas do Recife e de Olinda lá pelos anos entre 1977 e 1980.

Sei que eles não mais estão a fazer aquelas farras homéricas e talvez seja uma tolice cair nesse despenhadeiro e relembrar fatos passados, mas como disse o Zeca, as histórias têm de ser contadas e, além disso, escritas.

- E quem melhor do que você para escrever elas, porra!? - perguntou Zeca.

Não sei se devo carregar a responsabilidade de escrever essas histórias, ainda que estivesse participando do grupo e me aventurando em espaços quase loucos da vida.

- Ao menos uma! - pediu Zeca.

 Sentados no bar Mustang, na Avenida Conde da Boa Vista, numa noite de sexta-feira, logo após sairmos das aulas na Universidade Católica, matutávamos para onde deveríamos ir.

Éramos cinco. Eu, Marcus, Evaldo, Henrique e Gilson.

Lá pelas tantas, ou seja, já depois da meia-noite quando nem havia mais ônibus pelas ruas, Henrique tomou a resolução.

- O Zeca disse que depois de sair da aula iria beber em Olinda. Lá no Bar Maconhão, à beira-mar do Carmo. E que se a gente quiser ir se encontrar com ele... Vamos?

Não precisou nem de votação. Unanimidade.

O problema agora seria achar transporte. Os ônibus já estavam nas garagens e não existia bacurau como hoje a funcionar de hora em hora. Ônibus agora só às cinco da matina

Apenas os táxis notívagos realizavam viagens e esses táxis eram fuscas de cinco lugares com o motorista.

- Vai ser complicado - disse Evaldo - Somos cinco e qualquer táxi só leva quatro.

- Vamos tentar com aquele táxi que está ali parado - falou Henrique – Pode ser que dê certo e ele leve nós cinco. Daqui para Olinda o cara ganha uma boa graninha.

- Problemático... problemático... - resmungou Marcus.

Eu preferi ficar calado e deixar que eles resolvessem o problema.

Henrique e Marcus foram até o táxi e falaram com o motorista por alguns minutos. Este, um senhor magro, cabelos grisalhos, olhou para a gente, pensou um pouco e aceitou.

- Tudo certo - disse Henrique - Eu disse a ele que somos gente fina, estudantes universitários e que queremos ir até Olinda para continuar a farra. Ele aceitou levar, mas fez um pedido: a gente paga um extra para ele.

Nossa sorte, naquela época, foi a de não sermos os roliços senhores que somos hoje devido à idade e às muitas cervejas. A magreza de cada um ajudou.

- Bom! - disse o motorista - O maior e mais forte de vocês vem na frente comigo. Os outros quatro se apertam no banco traseiro.

Gilson era o maior e mais forte. Ele se ajeitou na frente.

A arrumação no banco traseiro não foi muito fácil, mas conseguimos. Fiquei até a perguntar aos meus botões se nós quatro tínhamos engordado a lataria do carro por mais meio metro. Dito e feito, depois de todos se arrumarem, o fusca táxi saiu normalmente com sua carga e rumou para Olinda.

Viagem tranquila até que saímos dos limites do Recife e entramos nos de Olinda, quando, logo depois da Escola de Aprendizes Marinheiros, numa área erma, o pneu dianteiro direito estourou.

- Porra! - exclamou o motorista - Que azar! Puta merda!

Tivemos de descer do fusca.

- Vamos trocar o pneu! - disse Henrique - A gente ajuda!

O motorista coçou a cabeleira grisalha. Encolheu os ombros e falou:

- A merda é que estou sem macaco!

- Que beleza! - exclamei - Quero ver agora como vamos sair dessa! E ainda teremos de pagar a corrida até aqui.

Henrique, porém, era cheio de ideias.

- Nada disso! Com macaco ou sem macaco vamos trocar o pneu e ir para Olinda - falou.

- Como? - perguntou Evaldo.

Henrique olhou para o motorista e perguntou:

- Tem as ferramentas para desapertar os parafusos?

- Tenho, sim – apressou-se ele a dizer, abrindo o porta-malas dianteiro, pois o motor do fusca fica na traseira, e de lá retirando um montão de ferramentas, bem como o estepe.

- Ótimo! - exclamou Henrique, arrematando - Agora, vocês levantam o carro aqui do lado direito e eu retiro o pneu estourado, mas vejam bem, vejam bem, fiquem segurando o maldito fusca e não larguem o desgraçado. Não quero que essa lataria despenque em cima de mim.

Fizemos o que ele mandou fazer.

Eu, Evaldo, Gilson e Marcus erguemos o fusca. O motorista ficou ao lado de Henrique para ajudar, e este começou a agir.

Deu algum trabalho desparafusar tudo e retirar o pneu estourado porque o local estava bem escuro e o motorista usava apenas um isqueiro para clarear. De vez em quando o vento que vinha da orla marítima apagava a chama.

Mas Henrique conseguiu retirar o pneu e quando estava prestes a colocar o novo, um automóvel Galaxie preto parou ao lado e dele desceram dois homens com revólveres apontados em nossa direção.

- Parados! Polícia Federal! Fiquem parados e levantem os braços!

- Ninguém levanta os braços, porra nenhuma! - gritou Henrique, deitado no chão ao lado do pneu dianteiro tentando encaixar o pneu novo.

O motorista do táxi saiu do lado de Henrique, levantou-se e se encaminhou até os dois homens. Falou com eles durante algum tempo que pareceram longas horas. As armas continuavam apontadas para a gente.

Mas não largamos o carro. Afinal de contas, o Henrique estava lá embaixo e...

- Eles estão ajudando a colocar o pneu que estourou - explicou o motorista - Estou sem macaco e eles tiveram que levantar o carro.

Um dos homens fez a volta e foi confirmar o que o motorista falava. Olhou, guardou a arma num coldre axilar e disse para o companheiro:

- Relaxa e guarda a arma! Estão mesmo trocando o pneu! Vamos dar uma mãozinha.

Os dois vieram, e ajudaram a levantar ainda mais o fusca, facilitando o trabalho de Henrique.

Depois de tudo pronto, pneu novo colocado, carro no chão...

- Bom, vocês são rapazes corajosos. Ainda bem que fomos nós a passar por aqui. Estamos perseguindo quatro comunistas que fugiram do quartel general lá do Derby. E quando vimos vocês...

Lembro que o regime de governo da época era a ditadura civil/militar.

- Foi isso... Foi isso... - disse o outro homem - Tiveram sorte de sermos nós. Outros teriam atirado primeiro e perguntado depois.

A seguir, entraram no Galaxie preto e partiram.

Ficamos a olhar uns aos outros. Até que o motorista quebrou o silêncio.

- Como é? Vão ou não vão para Olinda?

Voltamos a nos ajeitar dentro do veículo e rumamos para a Marim dos Caetés. Já estávamos loucos para beber.

Chegando na frente do Bar Maconhão, descemos, fizemos a vaquinha e demos o dinheiro ao Henrique para ele pagar a corrida.

O motorista do táxi recebeu o dinheiro, contou, viu tudo certo, deu uma risada gostosa e exclamou para Henrique:

- Imagina! Imagina! Achar que vocês eram comunistas!

E o Henrique, com o rosto escurecido de graxa, inclusive as duas mãos, disse:

- Nunca mais você vai encontrar comunistas iguais à gente!

sábado, 2 de dezembro de 2023

CONTOS DELIRANTES COM VERSOS EM BOLERO - Rafael Rocha

O LAGO DE CARUARU

 

Um pequeno terremoto aconteceu em Caruaru no dia 31 de outubro de 2012, durante a madrugada da quarta-feira.

A população ficou assustada, mas todos os habitantes da cidade sabiam que de vez em quando aconteciam esses pequenos tremores de terra.

Pela manhã, ficou mais assustada ainda.

O estádio de futebol do Central Sport Clube tinha desaparecido do mapa e em seu lugar nascera ou despontara (difícil achar a palavra correta) um grande lago de águas cristalinas.

A novidade causou uma pequena revolução na cidade. Como aquele lago surgira assim do nada?

A prefeitura local comunicou imediatamente o estranho fato ao Governo estadual e este levou ao conhecimento do Governo federal.

Em questão de uma hora, todas as redes de televisão do Brasil chegaram de helicóptero para divulgar o inesperado acontecimento.

As emissoras de rádio não paravam de transmitir notícias sobre isso e lamentavam o surgimento do lago, pois daí a três dias, no domingo, o Central Sport Clube teria de jogar uma partida de futebol pelo campeonato pernambucano contra uma equipe do Recife.

E agora? O que fazer?

Geólogos, geógrafos, engenheiros e cientistas de todos os cantos do país e do exterior começaram a chegar à cidade. Todos queriam ver o estranho lago e também descobrir como ele tinha tomado o lugar do estádio.

Parecia bruxaria!

Os habitantes de Caruaru é que estavam felizes, principalmente os jovens e as crianças.

- Agora teremos praia! Vai ser muito bom! - gritavam.

Algumas lanchas especiais foram trazidas e toda a área interditada. Isso gerou várias reclamações da oposição contra o prefeito e contra o governador.

- Não sabemos ainda o que isso significa! - disse o prefeito para a reportagem - Temos de tomar todo o cuidado e investigar o acontecimento. Depois, se não descobrirmos nada perigoso, liberamos o lago.

Ns primeiras horas, a vigilância foi extrema. Um rapaz terminou sendo preso no lado sul do lago por ter pescado um grande dourado de água doce com uma rede de arrasto. Assim, ao redor de todo aquele monte de água foram colocados cartazes dizendo: PROIBIDO PESCAR!

O prefeito fez uma reunião de emergência com todos os seus assessores. Um sorriso iluminava a sua face. Na reunião, ele solicitou ao senhor Bruno Lagos, um dos engenheiros de sua equipe, a montagem de uma nova estrutura hídrica.

- Agora não vai faltar água e não teremos mais racionamento!

Os exploradores científicos fizeram uma reunião à tarde. Não conseguiram descobrir nada sobre o misterioso surgimento de tanto líquido no lugar do estádio de futebol.

- É um mistério! Que coisa estranha! - diziam.

O dia terminou. O sol desapareceu no horizonte. A lua nasceu e iluminou o grande lago. Porém, milhares de pessoas queriam, porque queriam ver a surrealista aparição.

Os religiosos disseram que aquilo era um milagre. Deus estava a falar com o seu povo através das águas. Também solicitaram à prefeitura permissão para batizar as pessoas com as novas águas.

Pouca gente dormiu naquele dia e na quinta-feira. O lago era fantástico. O mundo inteiro já o conhecia através da internet e das redes televisivas.

A madrugada da sexta-feira chegou e pessoas e mais pessoas apareciam para ver in loco o fantástico lago. Policiais fardados e outros à paisana tomavam conta da multidão para que nada acontecesse com ela.

Lá para as quatro da matina um grande nevoeiro começou a tomar conta de todos os espaços circundantes àquelas águas, escondendo objetos, pessoas, veículos e tudo que estivesse tanto no centro do lago como ao redor.

O denso nevoeiro foi seguido por um forte perfume a entontecer o cérebro de todas as pessoas presentes que aos poucos foram caindo numa modorra, desabando os corpos e adormecendo.

Lá pelas oito da manhã da sexta-feira, 2 de novembro, começaram a sair do torpor em que se tinham vitimado.

As centenas de pessoas recém-chegadas dos mais estranhos lugares do mundo e do país, juntas com os milhares da população da cidade olharam-se umas às outras e começaram a se perguntar o que estavam fazendo ali naquele espaço.

Não recordavam nada.

Muitas delas começaram a acordar nas arquibancadas e até nos camarotes do estádio que tinha reaparecido no lugar do lago.

Bruxaria ou sinal dos tempos?

FELIZES NA DOR - Rafael Rocha

 

felizes na dor (*)

ponham os copos na mesa
acendam seus cigarros
tem litro de cachaça e muita cerveja
para rolar esta noite
estão cansados?
não existe cansaço para os notívagos
a eles é dada a solidão dos felizes na dor

duas horas da manhã
e vocês querendo mulheres e fodilanças?
eu serei bondoso mesmo que vocês fiquem bêbados
se alguém pegar aquele violão
abandonado lá no canto
e resolver cantar uma canção qualquer
conseguiremos espantar nossas mágoas de ébrios

elas não virão hoje

(puta merda!)
fiquem certos disso
elas são sombras decaídas e nos odeiam
por sermos tão honestos e sensíveis
e por bebermos a vida e por fumarmos a vida
ainda quero que alguém pegue o violão abandonado
e dê voz a uma canção cheia de putaria

e tu ainda diz - meu deus que grande farsa!?
- bebe o líquido amargo de tua cerveja, porra!
estás mais perto do nada que esse deus
esse abominável!

esse trágico comediante das esferas celestes
que prega a morte como culto
e deixa matar o próprio filho
para salvar os homens de suas merdas

na verdade, vos digo, na verdade
e agora sou eu o vosso profeta
“se quer saber onde está deus, pergunte a um bêbado”
(essa frase é do bukowski, outro amigo desta merda de vida!)
o bêbado tem mais consciência
da localização da mentira que um homem sóbrio

deixa que o violão toque sozinho
todas as canções do mundo
elas não cabem em nossas cabeças
que só pensam em mulheres
nos cigarros e nas cervejas
e nas ingratidões da vida
mas continuem a encher os copos
quero todos bêbados e voláteis
dançarinos de suas próprias infelicidades.


* (Escrito e falado por mim na bela cidade do Recife

no bar MANSÃO DO FERA no louco ano de 1980, quando as

merdas da vida eram mais reais que as merdas religiosas)

NOTURNOS - Rafael Rocha

 

     NATAIS

 

     Nos tempos dos natais hoje desaparecidos

     a felicidade dominava a casa. Tudo era festa.

     Todos estavam vivos regurgitando alegrias

     e criando algo igual a uma tradição divina.

 

     Nos tempos dos natais hoje desaparecidos

     meus irmãos faziam a festa com vodca.

     Meus pais davam-se as mãos e beijavam a vida.

     Eu olhava e imaginava a solidão que chegaria

     quando todos começassem a partir.

 

     Nos tempos dos natais hoje desaparecidos

     o mundo era repleto de humanos viventes

     - Avós, tios e tias, pais e mães, irmãos e irmãs -

     (hoje possuímos muitos mortos para chorar)

 

     Nos tempos dos natais hoje desaparecidos

     a vitrola tocava sambas e frevos e boleros

     e os corpos se colavam para as danças.

     As iguarias na mesa faziam convites gulosos.

     A cerveja, o champanhe, a vodca e o uísque

     idealizavam as ressacas do dia seguinte.

 

     Nos tempos dos natais hoje desaparecidos

     tudo era motivo para abraços e beijos

     e ninguém estava morto!

TIQUE-TAQUES 1984 - Rafael Rocha

 

Os meus gestos possuem anos.

Meus pés marcaram muitos caminhos.

Escrevi poemas horríveis

e outros que me fizeram chorar.

Muitas gotas de suor deslizaram na carne.

Várias ilusões morreram nas estradas.

Amei e odiei e desprezei e fui triste e alegre.

Vou passando! Muitos outros já passaram!

Cresci em carne e vou me nivelar em terra.

 

Fui prisioneiro de uma casta

dentro das minhas velhas roupas.

E nas ruas anoitecidas das cidades

desperdicei meu esperma nos ventres

e nas bocas das mulheres do mundo.

Perguntei sobre a falta de vulcões ativos

e por qual motivo os terremotos não nos chegam.

Assim criei um grandioso tédio

vomitado como o do bêbado contumaz.

 

Perdi tempo e dinheiro nas grandes lojas.

Deixei de marcar o ponto no trabalho.

Porém, todas as noites eu me sento à mesa

e – acho uma graça isso! – escrevo poemas

que não serão lidos por ninguém.

E agora se tento explicar algo em profundo

essa é apenas minha angústia de viver.

Ser um tolo ou um doente sem remédio

buscando as inúmeras cores das palavras

o tema mais definitivo e mais suave e puro

de meus antigos gestos de herói.

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

BAILADO - Um longo poema de vida - Rafael Rocha

 

I

introito:

 dentro das nuvens sombrias do meu astral

                           baila a minha significação

e é a minha história que os olhos veem

                       e seguem a sentir-me bailarino

                  tombando nas curvas das estradas

e pondo paisagens azuis nos momentos vazios

 

poucas pessoas seguem esse meu bailado

        nas tardes vagabundas da cidade quente

                                    e por mais que sigam

                         também têm suas obrigações

não podem tirar o peso dos meus braços

              mesmo que entendam o último verso

                    onde a dor fez da casa da alegria

                                um camarim do burlesco


assertiva:

do

alto de

um prédio de

sete pavimentos o

solo baila aos meus pés se

eu fechar os olhos criar-se-ão asas e

o solo tenderá a ser um leito sem amanhã


ÔMEGA & ALFA - CANTO 1 - Rafael Rocha

 

           :: .....(1)....de onde as ondas marítimas engravidavam areias--------

---------o Caos obrigou o poeta viajante a antecipar a sua vinda--------------

---------------expressa na luta entre a escuridão e a claridade--------------------

-------------na terra onde nasciam os rios criadores do grande oceano------

------na terra onde os pedregulhos ensanguentavam os pés-------------------

---onde os humanos ainda não sabiam serem humanos----------adorando 

santos e deuses invisíveis------------------------------------------

-------------------------

------eis o chegar do Último Homem!-----


CANTARES I - Rafael Rocha

Cheguei até este limiar cheio de mim

Profetizando a dor escondida dos homens.

E delimitando no infinito do horizonte

Marcos e marcas para todos os viajantes

E neste limiar que pretende ser eterno

Profetizo o verso ainda não posto à mesa.

(1)

O povo não é mais pescador dele mesmo.

Arrasta a maldição da dor

Devido às manipulações

De quem ocupa a tribuna

E se diz autoridade.

O povo vive de restos malditos

E nasce em berço muito pouco esplêndido.

Não pretendo atirar a primeira pedra.

Prefiro denunciar ao mundo

A ganância dos títeres.

Não pretendo aceitar

Os ditames da última era.

Debruçarei meu corpo

Nos balaústres das pontes.

Atentarei meu olhar nos rios sujos da cidade.

E tentarei falar a voz humana:

“Sou pobre, mas honesto”.

Nem mais isso os meus queridos

Devem no balcão da vida.

(2)

Hipócritas

Outros homens dizem representar o divino

 E abrem um livro dito sagrado

Para fundar igrejas

E corromper a mente dos ingênuos

Vendendo a fé como uma sopa

E a crença como um pão doce.

A justiça fica adormecida

Em seus palácios

Fazendo ouvidos moucos à pregação

Inconveniente da ideia do divino.

Eles consagram os vendilhões do templo

E beijam a moeda retirada do bolso do pobre.

Este é um novo ritual

A fazer do inalcançável a ilusão alcançada

E comprada como um sapato

Ou um trago de cachaça.

Ladrões da inocência!

A palavra dos honestos ainda irá perfurar

Seus imensos corpanzis de mentira e sujeira.

(3)

Ah, terra minha!

Ah, gente minha!

Vamos agitar nossa força nas estradas!

Vamos subir aos mais altos andares!

Vamos agarrar nossas aspirações na marra!

Túmulos não foram feitos apenas

Para quem não tem onde morrer de fome.

E a Pátria Nordeste

Ainda não foi

De todo descoberta como ela merece.

Escuta, ó gente minha!

As areias e os seixos dos rios

Ainda estarão aqui pelos próximos séculos.

E elas devem crer que nossos guerreiros

Souberam agir

Com mente firme e mão generosa.

(4)

Nem Cristo! Nem Guevara!

Nem Buda! Nem Maomé!

Nem Ocidente ou Oriente!

A salvação é criar um tempo definitivo.

Agitar! 

Lutar!

Sangrar!

Não vamos mendigar

Aos pastores da mentira

A ideia de um deus de bordel.

Para que essa cegueira?

Nós somos o Reino!

Nós somos os olhos da vida!

(5)

Meu verso está sendo posto à mesa

Às mãos dos semeadores da palavra.

Não deem as costas ao poema!

Não estilhacem o sangue do poema!

Não quero ver meus queridos agonizando

Sob a oratória dos corruptos

E dos estelionatários da fé!

(6)

Lotadas as estradas

Com a esperança e seu verde brilhante

Os homens golpearão seus inimigos

Dentro do mais curto espaço do tempo.

E meu espírito vestirá a pele dos libertos

Desvendando as traições

Dos compradores de almas.

(7)

E todos irão saber:

O Senhor da Liberdade

Respira e vive na alma do homem da terra.

Ele é forte e tem seu livro sagrado

Escrito na palma das suas mãos

E em sua pele enrugada.

Com os palácios derribados

Com os falsos senhores desgrenhados

O homem real da terra

Poderá desfrutar a vida

E aprisionar parasitas

Que de nada cuidam

Mas apenas enaltecem a cruz e a morte.

(8)

Caminhemos!

Caminhemos!

A estrada é longa!

Vamos buscar mulheres e homens!

O Senhor da Liberdade respira

E tem seu livro sagrado

Escrito na pele enrugada

Dos homens tristes e pobres.

(9)

Quando o vento nordeste varrer o semiárido

As fogueiras das vaidades

Terão de ser apagadas

Mas acender-se-ão luzes de águas.

As chuvas ficarão plantadas

Nas carnes dos guerreiros da vida

E dos livros rasgaremos as páginas

Das “histórias oficiais”

Escritas pelos opressores.

(10)

Ah, meu verso profético!

Que beleza!

Chegou para extravasar a sua ira.

Chegou para render homenagem

Ao homem da Pátria Nordeste. 

ENCÍCLICA DOS HOMENS - Rafael Rocha


1. DO SER E ESTAR

1. Cá estou nas ruas, olhando homens escravos da cruz e das orações, que seguem ordens dos representantes de um deus inexistente.

2. Cá estou nas ruas, discutindo com a poeira minha intenção de ser e de estar.

3. E vejo que moro numa babel repleta de escravos. A imundície da crença é total, e a morte é a filosofia/ideologia dessa crença.

4. Está tudo tão claro - aos olhos dos homens - de onde chegam e para onde vão essas coisas!

5. Quero fugir dessa hipocrisia de cruzes e de orações vazias e habitar lugares realistas.

6. Pelas ruas caminho lépido, ainda que tenha medo/pena de olhar mulheres, homens e os corpos famintos das crianças de rua. Também tenho pavor dos igrejeiros. Fico aterrorizado com as suas falas traiçoeiras, que tentam encarcerar meus atos de humanidade.

7. Eis, então, os homens sem compromisso humano! Por causa deles somos incapazes de defender até um mísero grão de areia. Eles sobem aos púlpitos e se fazem governo. Reduzem nossos sonhos a cinzas. E a humanidade fica ignorante, acatando as mentiras dos dogmas das igrejas e as leis dos parlamentos, criadas por uma sociedade caduca.

8. Eles são ladrões dos nossos caminhos e das nossas vidas e provocam dor e lágrimas nos lugares onde nossos pés desejam pisar.

9. Hoje estamos envolvidos pelas promessas vãs de momentos melhores e proteções “eternas e santas” em um ignoto além. Tudo mentira! Não devemos acreditar nessas invenções.

10. Prefiro a algazarra de um boteco em uma das ruas do meu bairro, cigarro numa mão, copo de cerveja em outra, escutando a canção mais antiga do mundo: aquela que traz lágrimas aos olhos. Vendo o povaréu da mais pura ignorância a zombar de mim como se eu fosse um filósofo bêbado e excêntrico.

11. Lágrimas caem de meus olhos. Ardentes! Querem ser lavas vulcânicas. Rubras. Têm voos de estrelas cadentes. Querem frutificar a terra. Querem luzificar a lua. Lágrimas lacrimais. Ardentes águas. Têm gostosas ações de sexo e de prazer na liquidez. Elas querem que os homens e as mulheres sejam mais donos de si mesmos e das suas paixões, e mergulhem de corpo e alma no viver intensamente.


ÚNICA CERTEZA - Rafael Rocha

 

  Quando eu fiz amor contigo...

  Deixa que eu explique:

  - Fazer amor é um fraseado vulgar!

  Mas teve algo de sublime

  o sentir a terra escapar dos pés.

 

  Eu passava o tempo

  beijando teu corpo,

  penetrando em teu corpo,

  gritando pelo teu nome

  esperando o gozo efêmero.

 

  Não posso explicar melhor

  a parábola desse fraseado vulgar:

  - Fazer amor contigo!

  Todavia ao mergulhar em ti

  não consegui dominar o grito

  da paixão louca a viver em  mim.

 

  Ainda assim o líquido orgástico

  a deslizar de tua reentrância

  traz a certeza de que o amor

  é a continuidade da vida humana

  nascido nas vertigens reais

  de uma deliciosa foda!