quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

ANDANÇAS – Rafael Rocha



Quarto capítulo do livro homônimo lançado em 2018
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ENCONTRO ESPECIAL

- Meu nome é Otaviano Neto do Nunes.
- Por que Neto no meio?
- Sei não. Tio João disse que é porque o povo diz que sou neto do meu avô e ficou me chamando assim.
- Tu é bem grande, né?
- E você é baixinha! Ah! Ah!
- E por que você não procura uma mais alta do que eu por aí pra conversar?
- Já viu mulher alta por aqui? É tudo miudinha. Até os homens são miudinhos. Acho que fiquei tão grande de tanto tomar leite da cabra cega.
- Leite da cabra cega?
- Isso. Mamãe morreu quando eu nasci e não havia ninguém que me desse de mamar. Meu avô chamou o tio João e mandou que ele comprasse uma cabra boa de leite só pra me alimentar.
- Eita....
- Mas tio João nem viu que a cabra era cega. Na feira apenas mostraram como ela tava cheia de leite e só depois foi que ele descobriu. Ficou furioso, mas quando lhe disseram que cabra cega tem leite de engordar santo de altar-mor, ele se acalmou. Deu no que você tá vendo agora: Eu!  O homem grandão!
- Que negócio é esse de engordar santo de altar-mor? Isso é sacrilégio!
- É uma maneira de falar. De dizer que leite de cabra cega é bom e faz crescer. Ficou zangada?
- Não entendi bem, mas não vejo necessidade de colocar santo nisso.
- Tá bem, tá bem. E você? Mora em que lugar? Tá fazendo o que aqui na rua? Passeando? Qual é sua graça, hein?
- Meu nome é Madalena. Moro aqui em Calumbi.
- Aqui em Calumbi?! Também sou daqui e nunca vi você por cá!
- Moro na igreja com meu pai.
- Que é isso, hein? Tá mangando de mim?
- Nada, nada. O padre Dica é o meu pai. Conhece o padre Dicá?
- O padre Dicá é teu pai? Você tá mesmo mangando de mim! Tá mangando!
- Nada, nada. Sou adotiva dele, visse? Mamãe também morreu quando eu era pequena e ele tomou conta de mim até hoje. Satisfeito? Tava pensando em quê?
- Tio João devia ter me contado isso. Eita! Filha adotiva do padre? Eu nem sabia...
- Não saio muito de casa. Tomo conta da igreja e ajeito ela para as missas, batizados, novenas... Por isso você nunca me viu. Você não vai à igreja, vai? Nunca vi você na igreja!
- Bem... Isso... Sim... Não... É... Olhe, parece que temos a mesma idade, hein? O padre Dicá... Foi ele que me batizou, sabe? Era muito amigo do meu avô.
- Foi mesmo? Já pensou? E você gosta de morar por aqui?
- Fazer o quê? A gente nasce e tem um ninho, tem terra no meio e um pouco de história. Fazer o quê? Desgostar?
- Sei não... Eu sou louca pra sair daqui, visse? É um sofrer danado. Muito de dor. Gente triste, sem água, terra seca pra plantar. Acho que...
- Você não gosta...
- Não suporto. Queria sair daqui. Morar no Recife. Ver o mar. Ver os rios de lá...
- Eu também quero conhecer, mas...
- Mas o quê?
- A gente tem que ir com alguma pessoa que conheça o caminho, conheça a cidade.
- É...
- Sozinho a gente se perde. Tudo lá é muito do grande.
- Deve ser, mas eu penso em sair daqui. Não quero viver e morrer aqui não, visse?
- Tem uma saída.
- Tem uma saída? Qual é a saída?
- Você se casa comigo, fala com tio João e diz que não quer ficar por aqui. Ele já tem negócio na capital. Ele dá um jeito e...
- Que história é essa de casar, hein?
- É como eu disse: a saída.
- A saída?
- Isso! Casa e dá a saída. Vai embora daqui.
- Você quer que eu me case com você, é?
- Achando ruim? É muito melhor do que ficar aqui, visse?
- Você é muito metido, sabe?
- Você vai querer, vai? Ah! Ah! Ah!
- Você é muito atrevido! Muito atrevido!
- É só uma saída. A gente vai ver o mar, o rio de lá. Sabe que os rios de lá nunca ficam secos? Não acha bom?
- Vou contar isso pro meu pai. Que atrevimento!
- Diga. Diga a ele também que fui eu que falei isso. Otaviano Neto do Nunes, filho do “seu” Terêncio. Vá dizer a ele. Vá dizer.
Para melhor entender, Otaviano Neto do Nunes tinha sido criado pelo tio João Maria no meio da libertinagem.
Sua “avançada educação” protagonizava as mais variadas sagas sexuais em todos os meretrícios das cidades de Serra Talhada, Salgueiro, Flores, Carnaíba e Triunfo.
Porém, Madalena não chegou a tomar mais a fundo conhecimento desses fatos.
Otaviano, seguindo a “avançada educação” recebida do seu tio João Maria, protagonizava variadas sagas sexuais em todos esses meretrícios sertanejos.
Mas seus amplos e variados conhecimentos sobre o outro sexo não conseguiram subjugar a carne daquela garota educada nas primazias da igreja de Roma.
Os desejos lúbricos de Otaviano só amainaram após sua entrega como homem à escravidão dos olhos pequenos e piscantes da herdeira dos genes de Castela e Aragão.
Como conquistador inveterado ele dera-se conta: aquela mulher apenas seria domada através da liturgia do casamento. 
Foi ajudado nesse assunto pelo tio João Maria, que também morria de vontade de sair daquelas plagas sertanejas e morar no Recife, local considerado por ele como muito bom para seu estilo de vida e tino de comerciante.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

OLHOS ABERTOS PARA A MORTE - Rafael Rocha


Décimo capítulo do livro homônimo lançado no ano de 2012 – Agraciado com Menção Honrosa pela Academia Pernambucana de Letras (APL) – Prêmio Vânia Souto Carvalho (2011)
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A noite não foi boa para Sérgio. Acorrentado no catre sem condições de se mover, sentia os insetos noturnos rastejando pelo seu corpo. Na escuridão podia jurar que até pequenas ratazanas também tiveram o gosto de percorrer sua carne de cima a baixo, lamber seu suor, tentar morder ou invadir seus orifícios. Sentia vontade de gritar. Pedir socorro. No entanto, descobrira em seu íntimo que ninguém iria atender a esses rogos.
Quando conseguiu fechar os olhos e entregar o corpo ao sono foi brutalmente despertado por um dos musculosos encapuzados. Tiraram as correntes e o puseram de pé. Com algumas bofetadas conseguiram despertar o rapaz para a realidade. Atrás dos dois homens encapuzados Sérgio descobriu o homem magro de nariz adunco e de olhos de serpente a olhá-lo. Seu dedo mindinho não mais doía. Nem mesmo estava sentindo o dedo. Baixou o olhar para a mão direita e viu o grande inchaço. A voz do homem de nariz adunco chegou aos seus ouvidos. “Basta você falar. Basta você dizer quem lhe deu aquele livro que seu dedo será examinado, ganhará uma tala de gesso e poderá ir para casa. Seremos até amigos. O que acha disso?”
Sérgio não tinha sido preparado para nada daquilo. Recebera o livro de um professor amigo de uma colega, para estudar um tema referente ao capitalismo e socialismo. Desde alguns dias tinha o exemplar nas mãos, porém nem sequer se dera ao trabalho de lê-lo. Estava até pensando em devolver... “Você leu esse livro, meu jovem?”, escutou a pergunta feita pelo homem magro. Parecia que ele também lia pensamentos. “Não. Não li. Nem sei o conteúdo. Há dois meses que estou com ele. Não li.” “Meu rapaz, meu rapaz! Tanto tempo com um livro sem ler. Que rapaz preguiçoso você está me aparecendo. Quer que eu acredite nisso? Quer?” “Falo a verdade. Ainda não li o livro. Digo a verdade”. “Tudo bem. Tudo bem. Eu acredito em você. Vou acreditar em você. Não me custa nada isso. Já vi que você não é um rapaz dado a essa safadeza de comunismo. É? Você é comunista, meu jovem?”
O medo tomou conta do semblante de Sérgio. Olhava para o homem vestido de negro e de olhos de serpente e não sabia o que dizer. Gaguejou: “Não.. Não sei... Não... Eu... Eu..” O homem sorriu, olhou para os encapuzados e com um gesto ordenou que eles saíssem do cubículo. Após a saída dos dois homens, ele puxou um banco e sentou-se em frente de Sérgio. “Sente aí na cama. Sente! Somos dois homens conversando. Aliás, até agora... Você pode continuar sendo homem e ter muitas namoradas. Por falar nisso, sua namorada é muito bonita, sabe meu jovem? Muito bonita!”
O homem abriu uma cigarreira de prata e dela sacou um cigarro. Após acendê-lo e dar uma baforada para o teto, voltou a olhar fixamente Sérgio. “É tudo muito simples, meu jovem. Muito simples. Nós estamos em guerra, entendeu? A democracia contra o comunismo. Deus contra o Diabo. O Brasil e seu povo cristão contra os ateus da foice e do martelo. Está escutando?” Sérgio fez que sim com a cabeça. Não queria olhar para o homem. Imaginava que pousando seus olhos nos do homem podia morrer. “Claro. Ótimo. Você é um rapaz inteligente. Você sabe disso. E sairá daqui para os braços de sua namorada. Com o dedinho medicado. Tranqüilamente. Isso eu garanto, meu rapaz. Basta que diga apenas uma coisa.”
A promessa despertou Sérgio para a vida. Queria sair daquele local nojento o mais depressa possível. Não interessava como. Desejava voltar aos braços de Camila. Sentir os beijos dela, a suavidade da pele dela. Desejava novamente o calor e o aconchego de sua casa. As conversas com seus pais e seus irmãos. Dessa vez olhou o homem de nariz adunco nos olhos. ”Voltarei para casa? Vai me deixar sair daqui? Posso acreditar nisso?” “Meu rapaz, meu rapaz, eu só tenho uma palavra. Sempre fui um homem de palavra. Quando digo uma coisa é para acontecer. Cumpro com o que digo. Não fico insultado com sua falta de confiança, pois se estivesse no seu lugar perguntaria a mesma coisa. Claro, meu jovem. Você vai voltar para casa. Vai voltar a ver seus pais. Vai voltar a beijar sua linda namorada. Claro. E também vai se tornar meu amigo. Ah, ah, ah... Você vai ser meu amigo, rapaz! E juro que você nunca terá um amigo tão leal como eu. Ah, ah, ah....” 
Sérgio estava louco para deixar de escutar as risadas do homem. Baixou os olhos, olhou para sua mão direita. O dedo mindinho inchado e roxo. E descobriu como era grande o seu desejo de sair daquele local. “O que você quer? O que você deseja saber?”, perguntou. O homem de nariz adunco e de olhos de serpente ficou em pé, deu um último trago no cigarro e jogou a guimba no chão, pisando-a. “Muito simples. Quero saber aquilo que você sabe. Quem deu a você aquele livro? Foi um professor, já sei. Você disse. Quero o nome dele. Quero saber onde posso achar esse professor. Diga o nome, onde eu posso achar o homem, e você dentro em pouco estará em casa, curativo no dedo e prontinho para cair nos braços de sua amada. Diga. Ou, muito melhor do que isso escreva neste papel”.
Dizendo isso o homem magro colocou uma folha de papel sobre a mesa defronte ao catre onde Sérgio se achava sentado, junto com uma caneta esferográfica. “Tome uma atitude. Escreva. Assim poderá jurar que nada saiu de sua boca”, exclamou. Sem perder tempo, esquecendo o dedo mindinho quebrado, Sérgio pegou a caneta e escreveu o nome e o endereço de trabalho do professor. A seguir, ele se afastou viu o homem pegar o papel. Viu o sorriso largo e demoníaco a se alastrar pelo rosto dele. “Que beleza! Ótimo! Você me deu uma alegria muito grande, meu rapaz. Você foi precioso.” Logo a seguir abriu a porta e fez um gesto para os dois encapuzados que se achavam do lado de fora. “Façam um curativo no dedo desse meu amigo e depois deixem que ele volte para casa. E não se esqueçam que ele é meu amigo! O que acontecer de ruim com ele a partir de agora é da responsabilidade de vocês. Rápido! Façam o que estou mandando!”
 Sérgio teve os olhos vendados. Sentiu que era colocado em um banco duro de jipe. O veículo partiu. Demorou algum tempo e retiraram a venda de seus olhos. Tentou se acostumar com a luz do dia que descambava para a noite. Não reconheceu o local onde estava. Os encapuzados tinham desaparecido. Um homem gordo e suado o levou até uma farmácia, onde colocaram uma tala no dedo mindinho e o aconselharam a procurar imediatamente um hospital para engessá-lo. A seguir, o gorducho devolveu sua carteira. O dinheiro continuava lá. “Pegue um ônibus e volte para casa. E fique de bico calado. O capitão ainda pode procurar você. Se falar demais deixará de ver a luz do dia. Entendeu isso?” Sérgio tinha entendido muito bem. Agora apenas uma coisa importava. Sua vida. Estava vivo e isso interessava mais. Notou-se parado na Rua do Imperador, no bairro de Santo Antônio. Suspirou fundo e começou a caminhar em busca de transporte para casa. 
Enquanto isso, o capitão Clemens lia e relia o nome e o endereço que Sérgio escrevera no pedaço de papel. Seus olhos de serpente iam e viam pelas letras. Um sorriso frio, hediondo e calculista se desenhava em seus lábios. “Quem diria! Quem diria! Como este mundo é pequeno!” Na folha de papel estava escrito: professor Eric Souza – Grupo Escolar Joaquim Nabuco.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

A ÚLTIMA DAMA DA NOITE – Rafael Rocha

Oitavo capítulo do romance lançado no ano de 2002
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Do diário de Jurandir Farias:

Ela não morreu de uma hora para outra como se imagina. Foi uma morte gradual, lenta, como se o tempo não desejasse seu morrer antes que todos os sopros e ventos deste mundo conhecessem melhor seu corpo.
Sabia, sim, estava partindo de vez, mas as únicas reclamações a sair de sua boca diziam respeito ao abandono em que se achava relegada: “Eu, eu, eu, logo eu, a mais famosa, a mais procurada, a mais badalada madama...”
Chamou-me ao seu leito de morte ali mesmo no prédio da Rua Vigário Tenório.
No dia 29 de dezembro de 1986, pus-me em contato com odores acres de velhice, mofo, rato e baratas no antes mais limpo puteiro da zona. Conhecedor daquela pensão em seus melhores dias, fiquei estarrecido ao notar o abandono em que se encontrava a casa.
E recordei ocasiões anteriores... Seresteiros reunidos no grande salão/bar, encantando os fregueses com canções da época e as mulheres da noite vestidas com suas melhores roupas, maquiadas e vivazes... E, com o passar dos anos, devido ao progresso, os violões e cavaquinhos substituídos pela famosa radiola de ficha.
Tudo nesse local falava de amores passageiros, paixões desvairadas e desejos carnais, tentando desobrigar das responsabilidades da vida, homens, mulheres, sapatões, viados e coisas mais.
Porém, era um antro gerador de sonhos e muitos romances criaram asas no ambiente, como o do coronel do Exército, Ernani Mastrogallo e a louríssima Mércia Silene.
Foi uma paixão avassaladora.
A menina da noite contou a Maria Rosa como estava sendo assediada pelo militar e ficou surpresa ao ver a madame sorrir.
Silene perguntou se isso era possível e se a mainha estava disposta a perder sua companhia por ela estar amando, recebendo duas perguntas em troca, às quais nunca conseguiu responder:
− Menina, seus sentimentos são sentimentos de muié ou de puta? E uma puta é bicho ou muié?
Um mês depois, a louríssima Silene abandonava a pensão da Vigário Tenório e, junto com o coronel Ernani partia para a cidade de Florianópolis, onde ainda hoje vive, cercada de filhos, netos, e proprietária de uma fazenda onde se cultiva soja e se cria gado.
Esse foi um dos pormenores contados pela mainha antes do seu encantamento. Uma das coisas a fazê-la rir e chorar ao mesmo tempo, ligada à felicidade alcançada pela afilhada ao partir para essa aventura, e à dor de imaginar que tinha perdido um pedaço de si mesma.
“Por isso me senti iguá a Silene, partindo pro desconhecido. Também fiz isso e só ganhei dissabor”, foi um pedaço de sua confissão.
Vendo assim o seu tempo sendo colocado para escanteio, passou a falar depressa demais, e as histórias criavam liames umas com as outras, quase me levando a imaginar seu cérebro saindo das engrenagens.
De repente, às dez horas da manhã, sentou-se na cama e segurou meu rosto com suas mãos esqueléticas, exclamando:
− Também matei gente, meu !... Isso incomoda tua mainha! Tenho um medo tão grande de partir p’ôtro mundo com esse pecado... Perciso de um padre pra me sarvar! Oh, Deus!... 

domingo, 8 de dezembro de 2019

ONTEM – Rafael Rocha

Do livro “Abismo das Máscaras” - 2017
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Eu escrevi em dezenas de cadernos
o encantamento das palavras
e perguntei por mim nas entrelinhas:
- Onde estás?

Na verdade estive morto no último inverno
dentro de um poema sem causa
e ressuscitei sob a luz do astro-rei
encontrando a mim mesmo
no lugar onde eu estava.

Não sei bem se o amigo entendeu a lavra
dos poemas escritos no último verão
(sei o quanto ele deve estar ansioso)
declamando o sonho de ser
antes de seguir direto para olhar o sol poente.

Olhando as espumas no meu copo de cerveja
pensei na primeira e na última mulher.
Fiz a pergunta que se faz traiçoeira:
- Onde elas estão?

Na verdade tudo era um ontem.
Não apenas eu
mas o mundo inteiro.

sábado, 7 de dezembro de 2019

RELÍQUIA - Rafael Rocha

Do livro “Meio a Meio” – 1979
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Eu te amei numa noite de chuva.
Não sei se fui o homem adequado,
mas sei que fui sensível
sabendo cavalgar tua carne macia e branca.
Não por amor dos obscuros fatores da vida.
Sim por plena satisfação dos nossos anseios.

Fui extremo e concessivo na firmeza da paixão.
Apertei-te a mim com agrado
e dei-te a delícia de mim.
Defendi teus instintos animalescos
e tuas justificativas.
E não te fiz muito mal quando pediste
a possessão dos felinos ou quando me envolvi
no perfume das tuas gramíneas

Dei o que querias!
Fiz justiça ao teu sexo
de suavidade máxima e promessas
e deixei que na partida o beijo
fosse um agrado mais de amigo que de amante.
Retirei-me lentamente
após a breve acumulação em ti.

Dei adeus enquanto dormias
satisfeita das minhas prodigalidades.
Dentro de ti restou o pedaço de um bardo.
Quiçá um novo artista.
Outros, que não eu, segarão teu horto
amadurecido por minhas águas
e trarão à luz da terra 
hinos aprisionados de nós mesmos.

ARQUIVO MORTO – Rafael Rocha


Conto inserido no livro “O Espelho da Alma Janela e outros Contos” - 2009 - Livro agraciado com o Prêmio Leda Carvalho - em 1988 - pela Academia Pernambucana de Letras (APL)
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O seu trabalho será fácil. Não se preocupe. Consistirá simplesmente em juntar estes papéis datilografados a qualquer uma destas pastas de cor azul. Um conselho: você não deve ler o conteúdo datilografado. Por quê? Ora, não é da sua conta. Depois de juntar os papéis às pastas azuis, numere-as com o número de ordem e arquive-as na estante possuidora do número. Apenas isso. Muitas vezes não terá nada o que fazer e, nesse caso, fique esperando. Sempre aparecerá algum serviço para você. Mas não durma. Espere acordado pois, com toda certeza, digo-lhe isso por experiência própria, você sempre terá algo para fazer, nem que seja pensar nos seus próprios pensamentos”.
– Que papel estarei representando?
“Simples. Você estará guardando coisas impossíveis de serem renovadas hoje. Vamos dizer: você é um Vigia da Renovação. Algo assim como um guardião de objetos que poderão ter uma serventia em outros dias, mas que hoje não prestam para nada. Você, porém, nessa função, procurará manter em ordem, sem poeira, que é o envelhecer do tempo. Tudo em ordem para ser usado em alguma ocasião específica. Essa ocasião específica aparecerá de uma forma ou de outra e você um dia terá de prestar contas de seu serviço. Por isso, faça-o com perfeição. Será bem pago todos os meses. Não haverá motivos para reclamações”.
– Estarei sempre só neste cubículo?
“Sim, estará sempre só. Todos os dias quando chegar, encontrará novos papéis datilografados sobre sua mesa. Seguirá a regra já exposta, que é muito fácil. Não há possibilidade de erro. Note que o próximo número a arquivar está na casa dos quatrilhões, mas não se incomode com isso. Siga a seqüência que tudo dará certo. Não há nem haverá motivos para preocupações”.
– Mas, estando eu sozinho, não cederei à tentação de ler o que vem escrito nos papéis?
“Você foi escolhido dentre muitos porque temos a certeza de que é incapaz de fugir a uma regra. Sua mente não comporta coisas acima dos conhecimentos que possui. Muito menos uma fuga da ordem estabelecida, porque você é obediente e, por ser assim, temos como certo que é incapaz de penetrar nas sendas contrárias. Por isso confiamos em você. No dia que cismar e tomar ao pé da letra a vontade de ler o conteúdo destes papéis, saberá de antemão o que acontecerá consigo”.
Portanto, doutor, eis todo o retrospecto do caso. Não vá agora pensar coisa ruim de minha pessoa se, hoje, após tudo isso, eu tenha desobedecido às regras estabelecidas, tornando-me inconveniente ao meu próprio trabalho. Após dez anos exercendo a profissão dentro daquele estreito espaço, arquivando papéis que não sabia quem colocava na mesa toda manhã, já que como foi dito, não era da minha conta, deu-me um dia vontade de conhecer o conteúdo dos mesmos. Lembro-me bem doutor, foi numa sexta-feira, quando fiquei absolutamente sem fazer nada. Não podia dormir, era proibido. Alcançou-me então uma sensação estranha. Algo que me espicaçava a cabeça como uma agulha penetrando fundo no meu cérebro:
– Que segredo se escondia naqueles papéis?
Ora, isso não era da minha conta. Isso não devia ser do meu interesse. Mas as horas passavam e, quanto mais o ócio me envolvia, a curiosidade aumentava. Claro que sei o que o senhor vai perguntar: só teve curiosidade em saber disso depois de dez anos de trabalho? É, doutor. É. Não dá pra entender realmente. Nem posso explicar com certeza. Mas, sentado no centro daquela sala, com toda aquela solidão de papéis ao meu redor, senti coisas diferentes nesse dia. Notei, por exemplo, durante dez anos eu tinha arquivado muitas pastas (milhares) e as estantes continuavam como no primeiro dia em que ali chegara, com os mesmos espaços abertos para novas pastas azuis. Isso me deixou embatucado. Por que? Comecei a perguntar dentro de mim. A lógica mandava que aquele cubículo deveria estar abarrotado de pastas arquivadas. Porém, continuava com a mesma aparência do meu primeiro dia de trabalho.
No caso do trabalho, sempre fui muito pontual. Chegava no horário determinado, às 10 horas em ponto e largava às 15 horas, todos os dias. Ninguém além de mim no local. Nunca vi pessoa alguma colocar novos papéis sobre a minha mesa. No princípio, pouco me importei com isso. Estava ganhando o suficiente para me manter no mundo e, bastando seguir as regras estabelecidas, tudo estaria bem. Só, como eu já disse, uma agulha começou a espicaçar meu cérebro e, a partir daí, eu, que nem sequer olhava os papéis e os escritos das primeiras laudas (digo laudas, porque sempre vinham separadas, grampeadas para que o trabalho de arquivar fosse mais rápido), comecei a olhar de viés para a folha inicial. No início não prestei muita atenção. Vi, é claro, palavras escritas, mas não procurei lê-las atentamente. Até que, na última sexta-feira, tomei coragem e pus meus olhos sobre a primeira de umas quase trinta laudas datilografadas e tive uma surpresa: Na primeira folha estava escrito apenas o nome: J.L…
Curioso, dei para abrir pastas e pastas e a ler o primeiro nome que vinha escrito na primeira folha. Encontrei muitos Paulos, Joãos, Marias, Pedros, Fernandos, Rosas, Marcos, Silvas, Albuquerques, Cavalcantis, Rodrigues, Cardosos, centenas de nomes e sobrenomes. Para ser mais sincero ainda, no começo só li os nomes escritos na primeira folha. Não me interessei em saber qual era o conteúdo das outras. O que me intrigava era aquela pasta que continha o nome J. L… A última daquele dia de trabalho (o mais cansativo dos dias de trabalho que eu tive em dez anos). A última pasta que eu teria de arquivar naquele dia e, por estranho que pareça, J. L…, doutor, é o meu nome e sobrenome.
Que faria o senhor na minha situação?
De certa forma, não me interessa saber. Sei que eu me senti obrigado a ler o que estava escrito naquelas folhas, cuja abertura vinha com meu nome e sobrenome. Assim, dito e feito, comecei a folhear as páginas e vi, horrorizado, a história de minha vida escrita, parágrafo por parágrafo, com todas as vírgulas e pontos e reticências, desde meu primeiro choro ao sair do ventre de minha mãe, até… Bom, aí é que o caso torna-se complicado. Não consegui entender o final. Entender ou não, para ser sincero, não levo isso em conta agora. O caso é que tinha algo em relação ao senhor. Vi o seu nome numa das últimas laudas que falavam de mim e cá estou fazendo consigo esta análise. Não me considero idiota, não me considero louco, não sou paranóico nem psicopata. Estou aqui porque vi o seu nome na última folha, logo no fim da leitura (não deu pra entender o significado, pois as palavras começaram a perder o sentido) e tinha de haver, tem de existir uma explicação para tudo isso. De resto, depois do seu nome e da confusão de linhas e palavras misturadas, só encontrei uma infinita reticência. Como soube do senhor se nem o conheço, se nunca o havia visto antes? Fácil! Procurei na lista telefônica e paguei esta consulta como qualquer cliente. Agora, doutor, será que pode me explicar essa coisa esquisita? Será que pode me explicar esse troço? Principalmente porque, hoje pela manhã, encontrei na minha mesa de trabalho o pagamento de um mês inteiro de serviço e, como se diz na gíria, o “bilhete azul”. Eu quero uma explicação, doutor. Acredito que o senhor possa explicar tudo. Diga-me o segredo de tudo isso.
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Foi encontrado morto em seu apartamento, às 18 horas de ontem, o funcionário público identificado apenas como J. L… De acordo com o parecer do médico legista, a causa mortis foi suicídio desde que, após a autópsia, encontraram no seu organismo grande vestígio de barbitúricos.
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O psiquiatra Antônio M. R., foi encontrado morto, em seu consultório, às 20 horas de ontem, com uma bala na cabeça e duas no coração. A polícia ainda não conhece os motivos do crime.
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“O seu trabalho será fácil. Não se preocupe. Consistirá simplesmente em juntar estes papéis datilografados a qualquer uma destas pastas de cor azul.................... Você estará guardando coisas que não podem ser aproveitadas hoje............. Não há possibilidade de erro.....................Temos a certeza de que é incapaz de fugir a uma regra...................No dia que cismar e tomar ao pé da letra a vontade de ler o conteúdo destes papéis, saberá de antemão o que acontecerá com você”.