terça-feira, 2 de julho de 2019

O POETA E O VINHO – Rafael Rocha

Do livro “Meio a Meio” - 1979

É uma coisa bem própria dos poetas
o beber vinho amargo como a vida
e amar a própria vida como um vinho
na amplidão de todas as mulheres.

É uma coisa muito própria dos poetas
perder as forças em todo amanhecer.
Ouvir o silêncio precisando de escuta
ao sabor do sangue de uvas entre os lábios.

Beber a vida é coisa própria de poetas.
Escutar pela saliva um aroma puro
de noites amplas onde o vinho é uma música
que torna um instante de hoje em dois instantes.

O poeta é um bêbado que sorve o hoje.
Não discute os problemas do amanhã.
É uma estrela mergulhada em um cálice
que a morte beberá após a vida.

TEMPO MARCADO – Rafael Rocha

Do livro “Sangramento” incluído na coletânea “Poetas da Idade Urbana” - 2013

Quando a gente se achar por essas ruas do mundo
O que irá rolar?
Serão águas deslizando de cascatas gigantescas
Ou um pequeno rio correndo para o mar?

Quando meus olhos olharem dentro de teus olhos
O que irão falar?
Dirão talvez que teus piscares e olhares
Querem me decifrar?

Quando meus dedos enlaçarem os teus dedos
Como irão se apertar?
Esquentarão palma a palma as duas mãos
Para não acenar

Aquele adeus que se apresenta sempre perto
Querendo ser distante.
Duas mãos enlaçadas fazem um sonho irreal
Tornar-se delirante.

E assim a vida marca outra vida por esse caminho
De corpo e de olhos e de mãos.
Marcando horas e minutos esperados nesse tempo
Mesmo que sejam vãos.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

ARRIBAÇÃO – Rafael Rocha – 1984

Do livro “Poemas dos Anos de Chumbo” - 2017

- para Evaldo Costa, Enoque Vitório, Ana Júlia,
João Maria, Marcus Antônio, José Carlos Gomes,
Sebastião Aquino, Henrique Queiroz e Silva,
Maria Isabel, Márcio Valença, Gilson Oliveira,
Francisco de Assis Coelho, Ana Acevedo,
Durval Reis, Sônia Lopes, Vânia Maria

Saíamos em bando..................................aves
Navegando o ventre...........................terra
As nuvens molduras.......................espaço
O voo repartido.................................dor

Aves em arribação....................................vida
Ao sul pelo poente..............................adeus
No descanso das asas............................sono
Velhos diálogos de penas........................solidão

Quando nossos olhos se encontravam
refletiam uns nos outros a imagem.
Cada um era espelho do que olhava
dentro da própria estrutura multidão.

TEMPO MARINHO – Rafael Rocha

Do livro “Abismo das Máscaras” - 2017

O homem que não sabe navegar
não consegue discernir a cidade
onde rios se encontram para criar o mar.
Assim quem poderá cantar
uma cidade marinha/ribeirinha
vestida de pobreza?

Sim, tem de existir um cantador
quem sabe lá da zona do meretrício
ou dos altos de Casa Amarela
ou dos píncaros da Sé de Olinda!
Sim, tem de existir um cantador
para recitar uma ode pura!

Ou deslizar nas ondas das praias
e sentir a maresia dominante
energizando seus narizes.
Ou viajar dentro da noite vazia
adentrar botecos sujos
e beber junto com as putas e as bichas.

Esta cidade Recife é pedra e correnteza.
Não é perfumada, mas é poderosa.
É luminosa e líquida.
É masculina. É trans. É feminina.
Cheia de heróis diurnos e noturnos.
Mulheres vadias. Homens vagabundos
e loucos saudáveis.

LIRA DO FRACASSO – Rafael Rocha

Do livro “Felizes na Dor – Tributo ao poeta Charles Bukowski” - 2016

taí... quanta facilidade
nos tempos de ontem
e hoje tudo fica difícil
é muito bom parecer
e ter a idiotice de ser
poeta e literato
essa é uma grande merda!
é uma grande idiotice!

ontem joguei na sarjeta
cento e vinte e quatro poemas
que tinha escrito quando
pensava ser poeta
era um material horrível
textos de meu ser idiota
como os das historinhas
de trancoso,
falando de jesus, deus e diabinhos

taí... nem quero pensar
o que serei de hoje
até os futuros vinte anos
mas espero que os bares
continuem abertos e a vender
as cervejas mais geladas
deste mundo
e que as mulheres safadas continuem
a sentar em meu colo
deixando que eu faça versos
dedilhando suas bucetas

o fracasso de minha poesia
que vá à merda!
e que os críticos vão
todos pra puta que os pariu!
vão tomar no cu!
quando se falha ao poemar
a gente falha na vida
e deve desistir de ser
o intelectual das belezas
e passar a escrever a verdade
das putarias históricas
que homens e mulheres
escondem
eufemisticamente
com gestos e palavras e ações
preconceituosas.

PRISÃO – Rafael Rocha



Do livro “Contos Delirantes com Versos em Bolero” - 2017

Quando os homens fardados de verde entraram no colégio, o medo tomou conta de todos os alunos adolescentes.
Afinal de contas, isso não acontecia todo dia.
Um truculento sargento dava ordens em voz alta e ríspida.
- Procurem em todas as salas. Façam um pente fino! - gritava.
- Eles estão procurando quem? - perguntou Osório ao colega Ítalo.
- Devem estar procurando o Aderaldo - respondeu Ítalo.
Os homens fardados iam de sala em sala.
Pegavam o livro de chamada e iam chamando os alunos um por um.
- Pela ordem alfabética o Aderaldo deve estar no topo da chamada - disse Osório.
- Estão entrando na sala dele agora - exclamou Ítalo.
- Mas o Aderaldo faltou à aula hoje – rebateu Osório.
Os homens fardados ficaram frustrados.
E o sargentão mais ainda.
- Ele não está aqui, sargento - disse o cabo.
- Que merda! A denúncia dizia que ele estaria aqui assistindo aula.
- Já demos pente fino duas vezes, sargento.
- Não podemos voltar de mãos vazias pro quartel, cabo. O capitão Clemens vai fuder com a gente.
Enraivecido por não encontrar Aderaldo, o sargento começou a andar de lá para cá no pátio de exercícios da escola.
Depois de uns minutos deu ordens para que a maioria dos militares retornasse para os caminhões estacionados na frente da escola e ficou no pátio com o cabo e mais quatro soldados.
- Aquele livro vermelho está na tua sacola, cabo?
- Qual livro?
- Porra! Aquele tal de manifesto comunista que o capitão disse que o tal Aderaldo estava lendo ontem na praça. A prova do crime, cabo!
- Ah, sim! Sim! Está comigo!
- Ótimo! Está vendo aquele cabeludinho lá no fim do pátio, sussurrando no ouvido daquele magricela?
- Sim, sargento. Estou vendo!
- Prenda ele! Pega esse manifesto e “planta” no meio dos livros do cabeludinho e lhe dê ordem de prisão. Lá no quartel o capitão resolve o que fazer.
Dito e feito, o cabo, acompanhado dos quatro soldados aproximou-se de Osório e deu voz de prisão.
- Eu? Eu? O que foi que eu fiz? O que foi que eu fiz? - ficou a gritar Osório, enquanto era manietado e levado quase arrastado até os caminhões. 
- Vida difícil essa de militar! - lamentou o sargento, dando um longo suspiro, aprumando o corpo e dirigindo-se para o jipe verde sem capota, que o esperava em frente ao prédio do colégio.


OLHOS E ASTROS – Rafael Rocha

Do livro “Marcos do Tempo” - 2010

Olhos de muitas formas
Completam noites curtas
Vêm com amplitudes
Vagaluminais

Corpo sendo olhar
Se o perdurar de vida
Dos olhos fosse o verde
(Ah, uma praia esquecida!)

Com certeza saberias
Vagabundear de amor
Enraizando a vida
No fitar mais olhos

Talvez como Neruda
“tiritam azuis os astros...”
O olhar mais forte
Se locupletará

MUNDO INSANO – Rafael Rocha

Do livro “Loucura” - 2018

Gritos e loucuras
espargidos pelas avenidas.
O mundo em pavor
horror e medo
fecha os tímpanos
e os cérebros pedem luz.

O dinheiro escorre
nas falcatruas
e
nas corretagens
dos governantes
das nações.
Mídia aplaude e pede bis!
Loucura e gritos!

A humanidade
alienada
busca abrigo
nas marquises
e sob viadutos.
Lugares onde
não possam chegar as fardas.

Gritos e loucuras!
Mundo insano!

domingo, 30 de junho de 2019

VIA-CRÚCIS – Rafael Rocha

Do livro “Meio a Meio” - 1979

Ah, como ela parece que tem medo...
Ela e seus pobres
(coisas que dão pena).
Olhos de doente
enganadores da medicina.
E chega um que diz
ter o poder da cura,
pronunciando palavras ásperas de conforto
e eis que, acionando
poderes miméticos e eletrônicos
desconhece as estranhezas
e diz ser uma bênção.

E a palavra?...
E o desejo de mudar?...
E o desejo de transmudar?...
Tantas coisas fáceis de serem ditas
burlam as vigilâncias e somem.
Apelidam-nas:
as vulgares sombras proibidas
depoentes contra os tribunais corruptos.

Ah, como ela é pobre
e como é oferecida gratuitamente
desde os seus ouros das profundezas
negociados em mesas de nácar
ou até por dentro dos bolsos
de coletes delfinescos
que nem posso mais dizê-la
como berço esplêndido
(talvez túmulo onde voejam aves de rapina)
onde do amanhã nada se sabe
(e do hoje?).
Onde gemidos e gritos cortam a luz do cruzeiro
e nem são mais ouvidos.
– A dor já é banalidade!

Onde estás?
Onde estás, pobre pátria?...
Virgem deflorada e medrosa de si mesma?
Os que lhe amam morrem sob os ferros
e a luz da candeia que alumia
o velho pendão da esperança
rui desnorteada e aflita
e expira e grita:

“Deus! Ó Deus!
Onde estás que te escondes
embuçado nos céus?”