segunda-feira, 1 de julho de 2019

ARRIBAÇÃO – Rafael Rocha – 1984

Do livro “Poemas dos Anos de Chumbo” - 2017

- para Evaldo Costa, Enoque Vitório, Ana Júlia,
João Maria, Marcus Antônio, José Carlos Gomes,
Sebastião Aquino, Henrique Queiroz e Silva,
Maria Isabel, Márcio Valença, Gilson Oliveira,
Francisco de Assis Coelho, Ana Acevedo,
Durval Reis, Sônia Lopes, Vânia Maria

Saíamos em bando..................................aves
Navegando o ventre...........................terra
As nuvens molduras.......................espaço
O voo repartido.................................dor

Aves em arribação....................................vida
Ao sul pelo poente..............................adeus
No descanso das asas............................sono
Velhos diálogos de penas........................solidão

Quando nossos olhos se encontravam
refletiam uns nos outros a imagem.
Cada um era espelho do que olhava
dentro da própria estrutura multidão.

TEMPO MARINHO – Rafael Rocha

Do livro “Abismo das Máscaras” - 2017

O homem que não sabe navegar
não consegue discernir a cidade
onde rios se encontram para criar o mar.
Assim quem poderá cantar
uma cidade marinha/ribeirinha
vestida de pobreza?

Sim, tem de existir um cantador
quem sabe lá da zona do meretrício
ou dos altos de Casa Amarela
ou dos píncaros da Sé de Olinda!
Sim, tem de existir um cantador
para recitar uma ode pura!

Ou deslizar nas ondas das praias
e sentir a maresia dominante
energizando seus narizes.
Ou viajar dentro da noite vazia
adentrar botecos sujos
e beber junto com as putas e as bichas.

Esta cidade Recife é pedra e correnteza.
Não é perfumada, mas é poderosa.
É luminosa e líquida.
É masculina. É trans. É feminina.
Cheia de heróis diurnos e noturnos.
Mulheres vadias. Homens vagabundos
e loucos saudáveis.

LIRA DO FRACASSO – Rafael Rocha

Do livro “Felizes na Dor – Tributo ao poeta Charles Bukowski” - 2016

taí... quanta facilidade
nos tempos de ontem
e hoje tudo fica difícil
é muito bom parecer
e ter a idiotice de ser
poeta e literato
essa é uma grande merda!
é uma grande idiotice!

ontem joguei na sarjeta
cento e vinte e quatro poemas
que tinha escrito quando
pensava ser poeta
era um material horrível
textos de meu ser idiota
como os das historinhas
de trancoso,
falando de jesus, deus e diabinhos

taí... nem quero pensar
o que serei de hoje
até os futuros vinte anos
mas espero que os bares
continuem abertos e a vender
as cervejas mais geladas
deste mundo
e que as mulheres safadas continuem
a sentar em meu colo
deixando que eu faça versos
dedilhando suas bucetas

o fracasso de minha poesia
que vá à merda!
e que os críticos vão
todos pra puta que os pariu!
vão tomar no cu!
quando se falha ao poemar
a gente falha na vida
e deve desistir de ser
o intelectual das belezas
e passar a escrever a verdade
das putarias históricas
que homens e mulheres
escondem
eufemisticamente
com gestos e palavras e ações
preconceituosas.

PRISÃO – Rafael Rocha



Do livro “Contos Delirantes com Versos em Bolero” - 2017

Quando os homens fardados de verde entraram no colégio, o medo tomou conta de todos os alunos adolescentes.
Afinal de contas, isso não acontecia todo dia.
Um truculento sargento dava ordens em voz alta e ríspida.
- Procurem em todas as salas. Façam um pente fino! - gritava.
- Eles estão procurando quem? - perguntou Osório ao colega Ítalo.
- Devem estar procurando o Aderaldo - respondeu Ítalo.
Os homens fardados iam de sala em sala.
Pegavam o livro de chamada e iam chamando os alunos um por um.
- Pela ordem alfabética o Aderaldo deve estar no topo da chamada - disse Osório.
- Estão entrando na sala dele agora - exclamou Ítalo.
- Mas o Aderaldo faltou à aula hoje – rebateu Osório.
Os homens fardados ficaram frustrados.
E o sargentão mais ainda.
- Ele não está aqui, sargento - disse o cabo.
- Que merda! A denúncia dizia que ele estaria aqui assistindo aula.
- Já demos pente fino duas vezes, sargento.
- Não podemos voltar de mãos vazias pro quartel, cabo. O capitão Clemens vai fuder com a gente.
Enraivecido por não encontrar Aderaldo, o sargento começou a andar de lá para cá no pátio de exercícios da escola.
Depois de uns minutos deu ordens para que a maioria dos militares retornasse para os caminhões estacionados na frente da escola e ficou no pátio com o cabo e mais quatro soldados.
- Aquele livro vermelho está na tua sacola, cabo?
- Qual livro?
- Porra! Aquele tal de manifesto comunista que o capitão disse que o tal Aderaldo estava lendo ontem na praça. A prova do crime, cabo!
- Ah, sim! Sim! Está comigo!
- Ótimo! Está vendo aquele cabeludinho lá no fim do pátio, sussurrando no ouvido daquele magricela?
- Sim, sargento. Estou vendo!
- Prenda ele! Pega esse manifesto e “planta” no meio dos livros do cabeludinho e lhe dê ordem de prisão. Lá no quartel o capitão resolve o que fazer.
Dito e feito, o cabo, acompanhado dos quatro soldados aproximou-se de Osório e deu voz de prisão.
- Eu? Eu? O que foi que eu fiz? O que foi que eu fiz? - ficou a gritar Osório, enquanto era manietado e levado quase arrastado até os caminhões. 
- Vida difícil essa de militar! - lamentou o sargento, dando um longo suspiro, aprumando o corpo e dirigindo-se para o jipe verde sem capota, que o esperava em frente ao prédio do colégio.


OLHOS E ASTROS – Rafael Rocha

Do livro “Marcos do Tempo” - 2010

Olhos de muitas formas
Completam noites curtas
Vêm com amplitudes
Vagaluminais

Corpo sendo olhar
Se o perdurar de vida
Dos olhos fosse o verde
(Ah, uma praia esquecida!)

Com certeza saberias
Vagabundear de amor
Enraizando a vida
No fitar mais olhos

Talvez como Neruda
“tiritam azuis os astros...”
O olhar mais forte
Se locupletará

MUNDO INSANO – Rafael Rocha

Do livro “Loucura” - 2018

Gritos e loucuras
espargidos pelas avenidas.
O mundo em pavor
horror e medo
fecha os tímpanos
e os cérebros pedem luz.

O dinheiro escorre
nas falcatruas
e
nas corretagens
dos governantes
das nações.
Mídia aplaude e pede bis!
Loucura e gritos!

A humanidade
alienada
busca abrigo
nas marquises
e sob viadutos.
Lugares onde
não possam chegar as fardas.

Gritos e loucuras!
Mundo insano!

domingo, 30 de junho de 2019

VIA-CRÚCIS – Rafael Rocha

Do livro “Meio a Meio” - 1979

Ah, como ela parece que tem medo...
Ela e seus pobres
(coisas que dão pena).
Olhos de doente
enganadores da medicina.
E chega um que diz
ter o poder da cura,
pronunciando palavras ásperas de conforto
e eis que, acionando
poderes miméticos e eletrônicos
desconhece as estranhezas
e diz ser uma bênção.

E a palavra?...
E o desejo de mudar?...
E o desejo de transmudar?...
Tantas coisas fáceis de serem ditas
burlam as vigilâncias e somem.
Apelidam-nas:
as vulgares sombras proibidas
depoentes contra os tribunais corruptos.

Ah, como ela é pobre
e como é oferecida gratuitamente
desde os seus ouros das profundezas
negociados em mesas de nácar
ou até por dentro dos bolsos
de coletes delfinescos
que nem posso mais dizê-la
como berço esplêndido
(talvez túmulo onde voejam aves de rapina)
onde do amanhã nada se sabe
(e do hoje?).
Onde gemidos e gritos cortam a luz do cruzeiro
e nem são mais ouvidos.
– A dor já é banalidade!

Onde estás?
Onde estás, pobre pátria?...
Virgem deflorada e medrosa de si mesma?
Os que lhe amam morrem sob os ferros
e a luz da candeia que alumia
o velho pendão da esperança
rui desnorteada e aflita
e expira e grita:

“Deus! Ó Deus!
Onde estás que te escondes
embuçado nos céus?”

POTENCIALIDADES E EMOÇOES – Carlos Benevides

Prefácio do livro “Meio a Meio” (1979) do poeta Rafael Rocha

Rafael Rocha, o primeiro contato em sala de aula, início de uma grande amizade e descobertas. Descobri suas potencialidades e emoções, agora entregues às pessoas, não para comparações ou julgamentos (não se deve julgar o que sai das entranhas do poeta), mas para que possam ser sentidas e repartidas.
Posso calcular, sem, no entanto, medir, a emoção do poeta ao ver o seu trabalho traduzido em livro. Livro que deverá ser tomado por outras mãos que não sejam as das pessoas do seu mundo, numa dimensão maior do se repartir.
Eis, portanto, de Rafael, a poesia.
Uma poesia intimista, por vezes sensual, por vezes naturalista ou social, muito verdadeira.
Essa verdade será vista e sentida de maneira diferente por quantos tenham a oportunidade de ler este livro, e a importância está justamente nessa diferenciação de alcance das pessoas. Cada uma delas representa um mundo particular pensante.
Para alcançar a verdade interior de Rafael, me despi de tudo que pudesse fazer barulho e penetrei no seu mundo, tragando todos os sentidos e emoções.
Depois chorei o mundo sem tempo para a poesia. 
Não apresento mais um poeta ou um novo poeta, mas o poeta Rafael Rocha, ao qual agradeço por ser poeta e meu amigo.


PARANOIAS DE LEONARDO – Rafael Rocha

Do livro “Contos Delirantes com Versos em Bolero” - 2017

Leonardo tinha um problema grave. Era paranoico e sofria de Transtorno Obsessivo Compulsivo. Ele tinha muito cuidado com a própria sombra e com os caminhos por onde andava e pisava.
Se as calçadas fossem lisas e sem riscos ele caminhava por sobre elas normalmente. Se visse alguma fissura ou algo quebrado, tinha o cuidado de não pisar nessa fissura ou risco, passando os pés cuidadosamente por cima até alcançar o outro lado.
O maior cuidado era com a própria sombra. Por onde andasse, a sombra tinha sempre de ficar atrás dele e jamais na frente. Achava que se desse um passo com a sombra na frente poderia cair em um buraco negro.
Assim quando saía do trabalho, à noite, sempre estava armado com uma lanterna a iluminar o caminho onde a sombra aparecesse.
O horário de meio-dia era o que ele mais gostava, porque não via a sombra nem atrás nem à sua frente.
Isso tudo junto criava para Leonardo problemas variados.
As calçadas do Recife não eram de confiança, pois muitas delas destacavam-se por terem fissuras e outros riscados.
Mas gostava de caminhar durante o dia pela Avenida Guararapes por baixo daquelas marquises dos prédios afrancesados, já que a sombra não aparecia de jeito algum para incomodar.
Leonardo viveu cerca de setenta e cinco anos.
Foi cliente de muitos psicólogos e psiquiatras do Recife, município onde morava.
Mas não era louco. Tinha apenas uma paranoia generalizada com a própria sombra e uma obsessão compulsiva com as fissuras das calçadas da cidade.
Um dia Leonardo morreu. 
Seu enterro ocorreu exatamente quando um eclipse total do sol escureceu por completo o céu do Recife em pleno meio-dia.