quarta-feira, 29 de novembro de 2023

A VOLTA DOS RINOCERONTES - Rafael Rocha

 

Flores cinzentas em jardins suspensos

matam o desejo sexual dos homens.

O odor dessas flores é de enxofre

quando mulheres catalogam orgasmos

e deixam de expandir os gritos

nos lençóis das camas e travesseiros.

 

Viver está se tornando uma farsa...

 

Os rinocerontes voltam às ruas,

atropelando sem piedade os pensadores.

Os caminhos até as mulheres amadas

são fechados com cercas de ferro.

Os caminhos até as águas límpidas

são vigiados por capitães-do-mato.

 

Morrer é mais fácil do que antes...

 

Os poetas e os idealistas e os sonhadores

esperam flores coloridas nascendo livres

como novas crianças nos jardins suspensos.

A Terra-Mãe está repleta de angústias.

Os vulcões entrando em erupção.

E os rinocerontes marchando pelas ruas.

 

Permanecer humano passou a ser estranho!


LANÇAMENTO ESPECIAL DE FIM DE ANO

 

MEIO A MEIO, livro do poeta RAFAEL ROCHA, em
sua Segunda Edição, está saindo hoje da gráfica
para alegria dos leitores. Quem fez reserva antecipada
receberá o exemplar com prioridade máxima.

SANGRAMENTO DA SOLIDÃO - Rafael Rocha

 

É a verdade da solidão a doer no peito

escrevendo o verso sangrento

de fora para o interior.

É a verdade do desamor mais inquieto

querendo ser verdade áspera

de dentro para fora de mim.


Escrevo a dor da solidão atormentada.

Ainda esperando não ser preciso tê-la.

Mas a dor vem. Vem e vai. E vem

de fora para dentro

como sendo dona de meus caminhos.


Paro para olhar o cotidiano da sala

e vejo a solidão no olhar parado da mulher

sem cor e sem paixão a ver TV.

Paro para ler o jornal da manhã

e vejo a mulher sendo escrava do tempo.


Ah, nada mais tenho a perder...

A solidão tem tintas vermelhas de sangue.

Ela é uma dor a bater no ir e vir.

Se eu gritar áspero e traiçoeiro

o olhar do mundo ao redor pedirá silêncio:

- Fale baixo para ninguém reclamar!


Que ninguém! Que merda! Que nada!

É a realidade da solidão a habitar em mim!

E mesmo esperando não ser preciso

escrever e declamá-la

ela tornou-se dona de meus caminhos

de fora para dentro.

DOR DA TERRA - Rafael Rocha

 

Minha dor é a dor da terra!

Recordação do tempo insano

de quando coturnos pisavam as ruas

e baionetas ensanguentadas

mergulhavam nos corpos dos audazes.

Ah, tempos para não esquecer!...

Hoje o jovem da terra perde a memória

e volta a crer na mentira do orgasmo

nascido das estrelas assassinas

pousadas em ombros verdes olivas.

 

Meus cabelos brancos conhecem

a ira da cobiça antiga.

Sabem das crianças assassinadas!

Das mulheres violentadas!

Dos heróis nos paus-de-arara!

Hoje os jovens cortejam a astúcia

dos que ainda pretendem o trono.

Cantam loas e hinos de traição,

crendo na sensualidade canibal

dos forjadores da mentira.

 

Sim, na minha terra os imbecis

querem massacrar o lume da vitória,

cortar as asas dos pássaros

e silenciar o brado retumbante

a viver em seu intenso verde amarelo.

Minha dor é a dor da terra

sendo estuprada/violentada!

A casa grande acende suas luzes

e nas senzalas o homem livre

acorrenta-se outra vez.


NOITE DE BAR - Rafael Rocha

 

- do livro "MARCOS DO TEMPO": poema agraciado com o 3° lugar
no XX Concurso Literário Fritz Teixeira de Salles, de poesia, ano 2022, 
da Fundação Cultural Pascoal Andreta, Monte Sião (MG)
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Noite vazia em vertigem tão calada.
Mesa de bar sem um só companheiro. 
Faço o soneto da tristeza descarada
sob um gole de cerveja derradeiro.

Diz o garçom: - Esta vida é um nada!
Sem bebida, sem mulher, sem dinheiro!
E as cinzas da solidão descontrolada
fazem o cigarro apagar-se no cinzeiro!

Meia-noite! Quero beber sofregamente!
Quero escrever o verso condizente
com a dor desta maciça solidão!

E o dia nasce! E o bar fecha a porta!
O sol escala o céu e a noite morta
marca encontro com o sono lá no chão!

terça-feira, 28 de novembro de 2023

TEMPOS SOMBRIOS - Rafael Rocha

 

do livro do mesmo nome-2020 - poema agraciado com Menção Honrosa em 2020 pela 
Academia de  Letras, Ciência e Artes de Ponte Nova (MG) - ALEPON 
Concurso Literário Prêmio Professor Mário Clímaco - 
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Nestes dias em que a vida deixa de ser vida
Época da lua cinzenta e do sol frio
Os campanários tocam dobres de finados
E pelas nuvens a funesta ceifadora
Traz para a Terra uma nova idade
Levando para os espaços do além
As amadas. Os amados. Os amigos.

Tempos sombrios!

Na atmosfera dança a enfermidade caprichosa
A entrar nas vísceras e nos pulmões humanos
Não faz escolhas de almas nem de corpos
Sejam reis, plebeus, burgueses, ricos, pobres
Leva para vaguear na terra do sem volta
Sem chances de últimos adeuses
Dona que é da noite interminável.

Tempos sombrios!

As cidades mergulham em solitários dias
Sem os comuns andarilhos machos e fêmeas
O governo maior esquece o seu povo
E mergulha enlouquecido na imbecilidade
Da ignorância e do egoísmo depravado
De quem não deseja luz no mundo
Com seus asseclas genocidas de ternos caros.

Tempos sombrios!

Homens de sabedoria escrevem palavras
Conclamando o retorno aos deuses lares
Para que um dia filhos e netos possam fitar
As faces enrugadas de seus pais e de seus avós
Segurando mãos e não santinhos fúnebres
Sem choros e sem velas e sem flores
Sem precisão das missas de sétimos dias.

Tempos sombrios!

Apavoramento em todos os quadrantes
Choro e rangeres de dentes vêm à tona
Nas covas coletivas das metrópoles
E idiotas ainda alimentam glórias
Prontos a disseminar a catástrofe na Terra
E ajudar a ceifadora funesta
A levar consigo os inocentes e os ingênuos.

Tempos sombrios! 

O planeta começa a costurar mortalhas
E os animais selvagens a habitar as ruas
Abutres voam ao rés do chão
Catando os órgãos dos corpos insepultos
A vida agora é o elogio da morte
Enquanto os crédulos rogam a um deus:
- Deixe de ser invisível! Venha nos salvar!

Tempos sombrios!

O SER DE OLINDA - Rafael Rocha

 

- do livro VIVER OLINDA E OUTROS DETALHES (2023) - 

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Sou corpo de sal e de água e de mar!

Sou corpo de terra e de sé e luar!

Sou farol! Sou tribal! Sou poeta!

Tudo porque nasci em Olinda

e meu sangue é de guerreiro caeté

com uma mistura portugaholandáfrica

quase cem por cento genético assim.


Morei longo tempo em Olinda

na velha casa de meu avô paterno

em uma praça chamada Padilha

que também era coronel Cornélio

e nesse espaço conheci uma lua diferente

e as escuras noites cheias de estrelas

sob a luz em vaivém de um farol.

 

Meu gosto de poetar vem de Olinda

ainda que o Recife tenha gerado versos

de terra e de paixões concentradas

nos seus homens e nas suas mulheres.

Vem de Olinda o hábito da insônia

de quando a primeira paixão nasceu

e de quando li os primeiros clássicos.

 

Mesmo que o Recife traga em si

o manejar da vida, em Olinda conheci

o rio Tapado e as grandes ressacas do mar.

A subida das íngremes ladeiras,

o homem da meia-noite e a mulher do dia,

e o medo do lobisomem nas noites

das esplêndidas luas cheias.

 

Fui jogador de futebol nos descampados

de areia e capim perto do rio Tapado

na praça do Padilha

que também era Cornélio

na frente da casa duzentos e vinte e dois.

Com meus irmãos e camaradas de infância

vi a menina Marilac jogando futebol,

criando paixões sempre que marcava um gol.

 

O Recife roubou de Olinda a minha vida

e me levou ao Tejipió dos avós maternos,

aumentando a força do guerreiro caeté

e o banzo portugaholandáfrica do homem.

Porque foi em Olinda que nasceu

o gosto de amar/escrever palavras

como essas que agora eu escrevo

querendo voltar logo para casa:

– A velha casa de meu avô na antiga praça

no velho bairro novo do sonho!

 

      Tudo porque nasci em Olinda

      antes de o Recife

      roubar de lá a minha vida!


ITINERÁRIO - Rafael Rocha

 


















  - do livro "Abismo das Máscaras" (2017) - 

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O tempo não tem horário

é um itinerário onde apenas há passado

coisas gastas e antigas

como o espaço onde estamos a esperar:

o último terminal.

 

O poeta aguarda ainda com esperanças

e vive entre homens e mulheres

dentro de uma abóbada vazia respeitando

o trâmite silencioso das coisas transmudadas em nada.

 

Ele é dono de tantas esperas

está aqui como criança nua

(tristemente nua)

quase no fim do itinerário

e quase a ser passado.

 

A vida ofereceu coisas para chorar

e outras pequenas para alegrá-lo

mas todo poeta tem dessas coisas

antes do esvanecimento.

 

Sobram terra e vegetais.

Sobram recordações.


sábado, 1 de fevereiro de 2020

A ÚLTIMA DAMA DA NOITE – Rafael Rocha

Décimo capítulo do romance lançado no ano de 2002
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Severina Amor em seus primeiros meses de convivência com Maria Rosa nunca conseguiu descobrir quais os objetivos a nortear a vida pregressa da mulher.
Só depois de algum tempo, quando a madame se locupletou inteira de força e poder, os neurônios do seu cérebro deram para funcionar adequadamente, até conseguir descobrir o motivo pelo qual ela criava ao seu redor uma verdadeira seita de obedientes seguidores.
No dia em que recebeu o apelido de Amor, os olhos da madrinha se encontraram com os seus, brilhando de estranha satisfação. Vigiava o encontro de Severina com um vivaz rapagão recém-chegado à pensão, atraído pela fama do local e pela beleza das mulheres.
Chamava-se Marco Cícero e era estudante de engenharia.
Na pensão de Maria ele se engraçou com Biuzinha, como era chamada na ocasião a afilhada de menos idade da casa. Aos olhos dela, Marco Cícero trouxe o prazer de sentir a beleza e a juventude de um homem. O Recife, e, em particular, a zona, enfeitiçou e viciou sobremaneira o rapaz, fazendo com que ele esquecesse quase por completo de que ali tinha vindo dar asas a estudos revolucionários e marxistas, e não às suas fantasias sexuais.
Tudo porque seus sentidos ficaram ligados às artimanhas sedutoras da negra adolescente da casa. Por outro lado, Biuzinha se envolveu de tal forma com ele, ficando sem atinar para qual prato da balança pendia mais seu coração. Se o desejo pela carne jovem do homem ou a dívida para com a madrinha, que a salvara da situação atribulada nas mãos da Chica D’Amparo. Enrodilhou-se nos liames da sedução e quando tentou escapar e voltar a ser a mesma mulher da vida de antes, notou como isso estava ficando complicado. Confidenciou seu problema a Maria Rosa:
Mainha, o que tá tendo comigo? Não quero a sióra, mainha, mas ficando com um quente cá dentro de mim por aquele menino... O que faço?
Num se avexe, fia! Vá pelo coração, tá? Seje paixão! Seje desejo! Seje boa muié! Seje Biuzinha Amor. Severina Amor! Isso!
− Mas... Tô meia morta de medo. Ele...
− Ele é um ôme, minha fia! Apenas um ôme. Trate ele assim, bem assim, porque não se deve disandá, tendeu? Deixe de ser Biuzinha, hoje. Digo e falo pr’esse mundo de putaria: agora tu é Severina Amor, minha fia!
− Num entendo isso, madrinha...
− Entenderá logo! Se envolva no pedaço desse bicho. No melado dele, minha fia! Ame o ôme! Deixe que ele ame você. Faça a teia, arainha Severina Amor. O resto... Bem... Deixe com o tempo... O tempo ajuda, minha fia...
− O que a sióra quer que eu...
− Tudo! Quero tudo de tu, fia! Tu sabe como faço o bem pra todas meninas, num sabe? Num sou boa pra tu? Mas quero muito ver os ômes nas mãos da gente... Em nossas camas... Percisando de nossa carne... Quero eles presos, minha fia! Eles pensa que pode mandá na gente! Temos de fazer eles se despregá no fiofó deles. Os ômes são uns palhaços! Pensa que sabe de tudo!
Luzes trouxeram algumas claridades ao cérebro de Biuzinha (agora Severina Amor) quando observou a frieza metálica nos olhos da madame.
Pensou como a madrinha deveria ter sofrido em outros tempos e ocasiões nas mãos dos homens maus. E agora andava cultivando a planta macabra do despeito, e, quem sabe, da vingança.
Marco Cícero, por seu turno, nunca se abriu completamente com Severina. Tinha relações sexuais com ela em quase todas as quartas e sextas-feiras e, quando sentia falta das carícias da mulher, vinha ao seu encontro até mesmo aos sábados e domingos, negligenciando os estudos.
Dentro dele, porém, nunca deixou de arder o fogo do revolucionário, pois tinha aderido à doutrina marxista fazia pouco tempo, e dentro dos ditames dessa ideologia queria se aprofundar nos corações e nas almas de homens e mulheres que não fossem burgueses.
No entanto, quando seus olhos pousavam em Maria Rosa, sentia como a Amor era um fardo leve, tal o de um pássaro, para o seu corpo e sua alma.
Enquanto a madame pensava que a afilhada o estava conquistando para retirar dele todos os poderes físicos e financeiros da paixão, Marco se enrodilhava em olhos e sonhos, visando, em suas fantasias, a carne branca e os longos cabelos louros da mulher.
Nesse desatino, mesmo continuando a curtir noites variadas com Severina, Marco Cícero deu para fazer serestas em quase todos os afamados bares e botecos da zona. Até mesmo quando chegava à pensão da Vigário Tenório, cansado de dedilhar o violão e cantar velhas ou novas canções, falando de sonhos fugazes e amores passageiros, não perdia o tino de pôr os olhos de sua mente e os desejos de sua alma na dona da pensão.
“Parece tão distante como uma estrela”, pensava. “Como poderei alcançá-la tal e qual aquela primeira vez e fazê-la sentir como vivem os caminhos e descaminhos de minha alma?”
Severina Amor só começou a notar algo fora do comum, quando Maria Rosa sentou-se à sua mesa em um daqueles dias em que Marco buscava sua companhia. Notou como o rapaz ficava nervoso e, de despreocupado, dava-se por inteiro a gaguejar e grunhir coisas desconexas.
A madame, sem desconfiar de nada, acariciou com seus longos e bem cuidados dedos a cabeleira de Marco Cícero, olhando ironicamente para a Amor, como se esta tivesse muito mais a ganhar daquele homem do que a simples curiosidade e luxúria do sexo:
− Minha fia, ele tá muito bom pra tua perseguida. É um pedaço de ôme mermo como tu disse. E como é forte! Bom proveito, menina! Bom proveito!
E, naquela noite, Marco Cícero deu o recado depois de mais de três horas sendo usado e reusado, e também utilizando e reutilizando o corpo de Severina no quarto destinado à mulher na pensão da Vigário Tenório. Após mergulhos e mais mergulhos um dentro do outro, conhecendo as alternâncias e discrepâncias de todos os orifícios corporais, adormeceram, suarentos.
No meio da noite/madrugada a Amor acordou surpreendida com os movimentos estranhos vindos do corpo do rapaz a dormir a seu lado. Sentou-se à beira da cama, acendeu o abajur e viu Marco Cícero enrodilhado no recanto mais longínquo do leito, resmungando entredentes, a paixão tolhida dentro de sua carne: 
− Maria! Maria! Maria! Minha loucura! Maria da minha poesia!

sábado, 25 de janeiro de 2020

OLHOS ABERTOS PARA A MORTE – Rafael Rocha

Décimo-primeiro capítulo do livro homônimo lançado no ano de 2012 – Agraciado com Menção Honrosa pela Academia Pernambucana de Letras (APL) – Prêmio Vânia Souto Carvalho (2011)
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Todos os domingos, às 9 horas da manhã, o coronel Wellington Clemens, sua esposa e seu filho participavam da missa realizada na igreja da Conceição dos Militares, na Rua Nova, centro do Recife.
Após a celebração, o coronel se juntava com outros oficiais e suas famílias, rumando ao Restaurante Leite, em frente à Praça Joaquim Nabuco, onde todos se deleitavam com um excelente almoço regado a vinho, refrigerantes, cervejas e sorvetes.
O menino Fernando gostava dessas ocasiões. Sentia crescer dentro dele grande intimidade com o pai. E também uma grande necessidade de imitar o pai tanto no presente como nos futuros momentos da sua vida.
Sua primeira comunhão, ao lado de muitos meninas e meninos filhos de militares, ocorreu nessa igreja, num radiante 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do templo.
Esse dia não saiu de sua cabeça, não pela celebração da primeira comunhão em si, mas pelo fato de muitos oficiais, ainda durante o ofício religioso, terem se reunido em um dos recantos do templo, longe do altar-mor. Conversavam em voz baixa, mas pelos gestos, Fernando podia deduzir que algo de muito grave tinha acontecido.
Após a celebração, todos, como sempre, tomaram o rumo do Restaurante Leite. A agitação entre os oficiais era grande. Perspicaz, Fernando colocava seus sentidos visuais e auditivos em suspense.
Logo descobriu: o governo federal nomeara para o posto de subcomandante da Região Militar Nordestina sediada no Recife, um oficial, que, como ouvira seu pai dizer, traía todos os juramentos cristãos e democráticos. “É um comunista! Será que o presidente da República sabe disso?” “Meu caro Wellington, claro que o presidente sabe”. “Isso é um perigo! Esse homem não pode ser nosso superior!”. “Temos de nos curvar às ordens do Rio de Janeiro, coronel. Não vamos partir para a sedição”.
Notou uma raiva insana tomando conta do pai. Perdeu a alegria pela celebração da festa religiosa.
Queria saber desde já o que significava comunista.
O motivo pelo qual seu pai odiava a palavra comunista e os homens comunistas. 
Quem melhor do que seu pai para ensiná-lo nesse assunto?

PANDORA – Rafael Rocha

Do livro “Abismo das Máscaras” - 2017
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Homens há a se fazerem fortes
e diferentes de mim.
Não sou e não serei e nem pretendo
criar uma fortaleza
com versos ingênuos.

Sigo a vida como ordena o figurino:
Morrendo aos poucos!

Criei em versos os sons dos rios
desta terra recifense
com maracatus e frevos
entrando pelas portas e janelas.
Buscava alguém para dançar e cantar
a divindade de uma musa
e sempre chegava atrasado.

Outros marcavam os ritmos
muito antes de mim.

Um dia deixei de conversar comigo
e a solidão dormiu na minha cama.
Até hoje essa invasão é permanente
ainda que eu busque minha outra história
e peça clemência
às coisas que podia ter construído.

E cada baú de madeira do meu tempo
é uma caixa de Pandora!