segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

CANTARES III - Rafael Rocha

 

Delimito no infinito do horizonte

A dor escondida guardada dentro dos homens

Crio marcos e marcas para todos os viajantes

E profetizo o verso ainda não posto à mesa.

Até alcançar este limiar cheio de mim

Limiar que pretende ser eterno

(19)

As esperanças continuam vivas nas ruas
Ainda que os olhos dos humanos não brilhem
Como nos dias de antanho.
Quase todos estão trêmulos

E sozinhos e ansiosos

Um tanto esquivos das suas realidades.

Talvez pensem que tudo esteja perdido

E que o reinado da dor e da morte

Tenha se revigorado.

Em verdade, em verdade vos digo:

Não devemos nos esquivar daquilo que vivemos.

É preciso reunir nossas forças

Na beira de todos os rios

Antes que as sombras da morte

Derrubem a estrela perpétua

Do seu altar de sonho.

(20)

Meus queridos,

A Pátria Nordeste não é uma terra morta
Cheia de cactos selvagens.
Ela é a imagem dos olhos das crianças.

Das nossas mulheres!

Dos homens voluntariosos!
Não deixemos que o lampejo das estrelas
Se deixe ficar agonizante

Nas mãos dos imbecis que beijam

As bandejas dos desvarios

E das loucuras do ouro.

No reino de dentro de cada um de nós

Não deve existir disfarces.

Em verdade vos digo:

Temos de nos comportar

Como se o vento nordeste

Seja um frêmito de guerra

Com garras flamejantes.

(21)

Não somos seres imbecis nem esclerosados!
Não somos fantoches nem marionetes!
Estamos amparados uns aos outros pelo suor

A escorrer através dos poros

Quando trabalhamos a terra.

E quando gritarmos juntos e unidos
O sussurro da vitória será um trovão
Que de tão formidável abalará

As entranhas dos adoradores da morte.

Caminhemos! Caminhemos!

A estrada é longa!

Vamos buscar mulheres e homens!

O Senhor da Liberdade respira

E tem seu livro sagrado escrito

Na pele amarfanhada

Dos humanos tristes e pobres.

(22)

Os queridos que escolheram

Andar na outra margem
Deixaram de aceitar a realidade destes tempos.
“Ah, como é violenta essa vida!” – pensaram.
Eles entregaram gratuitamente

As almas ao deus do bordel
E aos homens que usam

Um livro dito sagrado para fundar igrejas!
Foram empalhados como espantalhos

E programados

Para vender a fé como um trago de cachaça

E para roubar a moeda do bolso do pobre.

Será contra essa nação de meliantes

Que iremos lutar.

Não vamos dizer que possuímos

A voz de alguma divindade.

Possuímos nossa verdade e nossa fome.

Nossa pobreza e nossa honestidade.

(23)

Em verdade, em verdade vos digo:

O vento nordeste

Está cantando solenemente o hino

Da mais cruel realidade da nossa vida.

Que os hipócritas fiquem longe!

Não se aproximem!

Nem mais um passo deem!

Estamos em frêmito de concepção

Pois somos a raça dos escolhidos

Antes que as águas cubram as planícies.

Em verdade vos digo:

Antes que a vontade dos mercadores de almas

Seja cumprida

Os brotos das árvores serão mais novos

Do que as sementes plantadas

Pelas mãos dos opressores.

(24)

Eis aqui: nosso maior anseio.

Eis aqui: nossa ideia essencial.

Eis aqui a explosão de nossos suspiros.

A pétala da flor vermelha se reabre

Quando ganhamos mais uma vez o dia

Ao rufar dos tambores

Anunciando

A vitória dos nossos heróis.

(25)

Qual caminho você vai escolher, meu amigo?

Não, nada disso!

Eu não estou fazendo papel de místico.

Eu sou um guerrilheiro espirituoso.

Sou um peregrino

A viver das minhas explosões verbais.

Não vou obrigar ninguém a seguir caminhos.

Mas se você prefere a derrota, siga!

Também é muito bom sofrer derrotas.

Com elas aprendemos o sentido da vida.

(26)

Eu falo porque quero falar.

Gritarei quando desejar gritar.

Faço parte do mundo e o mundo é meu.

Os hipócritas que nos governam

Não são donos do mundo!

Está envergonhado de mim?

Que assim seja!

Mas em verdade, em verdade vos digo:

Ao ficar envergonhado de mim

Você estará mais do que nunca

Sendo covarde.

E como um leproso pensando não ter cura

Esconder-se-á nas cavernas

Do próprio medo.

Em verdade vos digo:

Não ando pelo mundo

A derramar lágrimas de lástima.

Nem vou me acovardar

Para ganhar as honrarias

Dos títeres que governam a pátria.

(27)

E então eu pergunto outra vez:

Quer ficar a sós comigo?

Este ficar a sós não significa esconderijo

Significa guerra! Significa luta!

Significa que iremos tocar fogo

Nas “histórias oficiais”

Escritas pelos que se dizem donos da verdade.

Quer ficar a sós comigo?

Mostraremos o quanto somos válidos

E não iremos criar leis

Para termos desculpas

A serem descumpridas.

PIRILAMPOS - Rafael Rocha

 

Aconteceu em um dia de janeiro

a natividade de um sonho de mulher

no meu caminho.

Fustigou minha vida com um beijo

e

o corpo moreno e macio

vestiu-se todo de estrelas

como um bordado de pirilampos

dentro da minha noite vazia.

 

Em todos os janeiros a lembrança é forte

do tempo dessa natividade.

O panorama de meus espaços

tem um passado confuso como o vento.

E a mulher acontecida

 nasceu tão perto do caminho

e

eu consegui fazer distanciar meu tempo

como se temendo sua entrada toda

em minha casa.

 

Faltam poucos meses para o próximo janeiro

e eu estou triste.

A natividade de um sonho de mulher

fugiu do meu caminho.

Ela ainda está perto vivendo distante

como as estrelas nos telescópios.

E eu que era o seu astrônomo

não sei mais olhar a tessitura

do bordado de pirilampos.

domingo, 7 de janeiro de 2024

GUARDANAPO (1984) - Rafael Rocha

 

Em um guardanapo de papel

escrevi um poema triste

na mesa do bar Mustang.

 

De repente, ele deixou de ser meu!

 

O vento traiçoeiro

deu para ensinar voo pelo ar

ao guardanapo de papel.

 

Quando tentei segurar o guardanapo

uma prostituta gargalhou

e um menino de rua correu atrás dele

(o poeta Marcus Antônio também).

 

O poema escrito no guardanapo de papel

sumiu para sempre no ar,

deixando no meu peito uma dor quase alegre.

 

O poema desejou ser livre!

Deve ter sido isso!

DOZE DE MARÇO - Rafael Rocha

 

Saí às ruas do Recife na luzidia semana
de um doze de março.
Dei minhas mãos a algumas mulheres
e bebi com diversos homens.
Passei pela ponte Duarte Coelho
e vi guirlandas de novas luzes
e o Capibaribe escorrendo
a gritar para o Beberibe:
- Sou o cão sem plumas de um poeta!

Dez horas da noite:
Fiquei a beber ao pé da ponte,
olhando a passagem da lua,
até quando a quietude da boemia
começou a silenciar o lugar.
A escuridão nada escondeu
a não ser alvoradas futuras
e milhares de sonhos humanos
prestes a começar outro amanhã.

Na Avenida Guararapes
os fantasmas da cidade acordaram:
Mulheres e crianças e homens da noite
no eterno lazer de labutar.
E a metrópole gritou:
- Eles querem ser notívagos livres
loucos pelo prazer de me amar!
 
Prazer de amar e viver o Recife
na luz estelar dos seus rios.
O verso se abrindo
para algum novo espaço sem fim.
Na extinta rua Formosa
onde a Boa Vista hoje tem seu lugar...
- Ah, queria pegar a maxambomba
e viajar pelos subúrbios!

O jornalista Henrique
vomitou corações coloridos
ao sair do Bar do Gordo.
Mas guardou dentro do dele
o coração de Maria Isabel
sua amada universitária.
Na Pracinha do Diário
seus camaradas
Evaldo, Gilson e Zé Carlos
olharam os passantes,
e ficaram apaixonados
pelo livro oceânico
de um escritor dos arrecifes dos navios.

No Bar Savoy
o poeta encheu o copo
e emborcou a variedade de álcool.
Olhou para o espaço:
os edifícios giravam em rodízio de festa.
De repente,
os mais antigos poetas da cidade
saíram das tumbas,
recitando versos
vindos de seus mergulhos noturnos
no histórico buraco do mar

sábado, 6 de janeiro de 2024

LOUCA OBSESSÃO - Rafael Rocha (2022)

 

Pensando no teu corpo eu canto um velho fado
levo o meu sangue a escorrer a teu lado
invisível e esperando ameigar a paixão.
A saudade obriga a carne a elevar um brado
ainda que me chamem de velho safado
pretendo degustar teus sabores de amplidão.

Mulher a habitar meus sonhos mais inteiros...
Suaves espaços de suor, de pelos e de cheiros
estás viva nos meus versos em louca obsessão.
Mulher da flor cativa odorosa aos canteiros
dos seios, das axilas, das coxas, traz ligeiros
desejos de sexo a criar louco tesão.

Pensando em tua boca carnuda eu me derramo
no anseio maluco de querer dizer te amo
como se apenas plantasse uma ilusão.
Mulher a fazer delirar tudo que eu chamo
escuta o bramido retumbante onde eu clamo:
– Vinde saciar minha fome de paixão!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

LIVROS LANÇADOS PELO ESCRITOR E POETA RAFAEL ROCHA ATÉ DEZEMBRO DE 2023

 

PRISÃO - Rafael Rocha

 

Drummond escreveu um dia que

“O pássaro é livre na prisão do ar.
O espírito é livre na prisão do corpo”.

 

E agora eu vivo:

Na prisão fugindo de um perigo invisível

Tentando renovar meu tempo no tempo

Longe e muito longe dos amados

Irmãos, irmãs, amigas e amigos.

 

Grito ao monitor do notebook

Minha vontade de ser livre.

Sair dessa prisão e voar e voar

Voar meu corpo sobre as montanhas...

Mas não sou pássaro

E estou com medo do momento...

Com medo das ruas...

Com medo do ar...

FAROL - Rafael Rocha

 

Igual a um farol nos arrecifes

ilumino o grande navio e seus marujos.

Busco avisar sobre os abismos nas águas

com minha luz rápida e voadora

de norte ao sul e de leste a nordeste.

 

Um farol obstinado a espalhar

claridade sobre as grandes ondas.

Com a luz vou criando trilhas      

nas águas verdes e agitadas do oceano

com a audácia de minha linguagem.

 

O grande navio e os seus tripulantes

pedem pelo clarão da estrela-guia.

- Ela é o caminho para o albergue

e à visualização de um ótimo porto

onde a esperança aguarda os marinheiros.

 

Todos eles buscam a potente luz,

vagueando de norte a sul ao leste

e ao nordeste do turbulento mar.

Clarão que tenta salvar vidas

e impedir o naufrágio do grande barco.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

ÔMEGA & ALFA - CANTO 2 - Rafael Rocha

 

-apareceu do instante de onde olhos traziam promessas----------de paixões nuas e entrelaçadas nos mangues e nas marés-------apareceu vindo do Nada escrito na voz profética--------da terra ameaçada por extintos vulcões e por grandes secas-------chegou para desiludir os adoradores das mentiras-------pronto para encadear estrofes imagéticas---------------decepando cérebros virgens da humanidade louca--------------------

-------eis o chegar do último homem!------

CANTARES II - Rafael Rocha

 

Profetizo o verso ainda não posto à mesa.

         E neste limiar que pretende ser eterno

        Crio marcos e marcas para todos os viajantes

        E delimito no infinito do horizonte

        A dor escondida guardada dentro dos homens

        Até alcançar este infinito cheio de mim

(11)

Agora fiquemos sós.

Ainda temos tempo.

Nossos refúgios são seguros.

Estou olhando para a terra

E nela vejo uma força radiante.

Não preciso que você olhe para mim.

Não sou forte nem tenho intento insidioso

Mas não estou assim tão adormecido.

Quero atrair você para uma missão conjunta

Aos momentos em que trocamos

Ideias e argumentos.

“Qual será a missão?” Eis a pergunta.

Olhe:

As ruas estão perigosas e os seres humanos

Têm suas almas sonâmbulas programadas

Por vídeos televisivos.

Por mentiras oficiais.

Não se preocupe!

O mundo tem conserto.

Vamos entrelaçar nossas ações

Como cordas emaranhadas

A amarrar os navios do porto.

(12)

Fiquemos sós.

Tenho a intenção de amar

A sua ação esplêndida

Nos nascentes e nos poentes

Das fronteiras deste planeta.

E desejando olhar bem para dentro de mim

Você verá minha postura de guerrilheiro

Cumprindo um caminho evolutivo

Sem precedentes.

“Quem és?” Eis outra pergunta.

Olhe:

Na amplidão de todas as nossas madrugadas

Sempre aparecem as cinzas das inverdades.

Jogo-as pela janela do meu quarto.

Mas não se preocupe.

Não vou jogar fora as cinzas reais do passado.

Quero fazê-las voar célere ao seu encontro

Como a luz de uma estrela

Que só hoje alcançou a terra.

(13)

Em verdade, em verdade vos digo:

A vida dos melhores humanos

Está jogada na sarjeta

E é por esse motivo que precisamos ficar a sós

E fazer um estudo dinâmico daquilo que somos.

Hoje é uma noite de inverno.

Ela é fria.

A ventania entra pela janela do meu quarto

Trazendo os gritos dos guerreiros iguais a nós.

Em verdade, em verdade vos digo:

Somos muito mais do que habitantes das sarjetas

E por essa questão temos de ficar a sós

Para realizar os sonhos dos visionários.

(14)

Em verdade vos digo:

Quando as paisagens da terra eram outras

O homem era muito mais feliz do que hoje.

Mas ainda há tempo

Para moldar uma nova mística

E para plantar uma semente

Mais formosa de planta.

Por isso temos de ficar a sós. 

Eu e você.

Somos os únicos a compreender a nudez

A beleza, a dor, a alegria

E a verdade das coisas.

Em verdade, em verdade vos digo:

Podemos fazer o vento

Carregar mensagens otimistas

Para todos os deserdados do planeta.

(15)

Fiquemos sós!

Vamos enrodilhar nossos dedos uns nos outros.

Vamos amalgamar nossos cérebros para a luta.

Ao longo das grandes avenidas

Ninguém se fala mais.

Ninguém mais se olha para entender

As substâncias dos rostos e dos corpos.

O homem hoje ri ao matar seus semelhantes

E ao olvidar seus ancestrais

Sem chorá-los pelas suas perdições.

“Que faremos?” Eis outra questão.

Nada! Não faremos nada e faremos tudo!

Ficaremos sós para profetizar o novo tempo.

Ficaremos sós para ver

A verdadeira história ir e voltar.

(16)

A luz de sua imagem na plena madrugada

É uma condensação de paixão para meus olhos.

Em verdade, em verdade vos digo:

Haverá um tempo em que nos encontraremos

Arrependidos de nada termos sido

Tanto um para o outro

E de nada termos feito de bom

Do outro para o um.

Assim é necessário ficarmos sós

Criando tempo de mim e tempo de você.

Tentando ser ousados na criação e nas decisões.

Nos palácios, os opressores de hoje

Riem de nossos anelos

Mas nós daremos rédeas à imaginação

Quando ficarmos sós.

(17)

Nosso ficar a sós servirá

Para perturbar todo o universo.

Servirá para acabar com as leis dos “dinossauros”.

Para uma olhadela melhor às auroras.

Servirá para um mergulho fundo

Dentro de cada poro nosso.

Em verdade, em verdade vos digo:

Iremos implodir milhões de silêncios

E criar novas estrelas

Para iluminar nossas futuras madrugadas.

(18)

Fiquemos sós.

“Queres ficar a sós comigo?”

Venha então!

Conheceremos melhor

As vitórias e as derrotas.

Nas rugas de nossas peles

Saberemos quem somos

Para onde vamos

E qual o objetivo desta missão.

Em verdade vos digo, ó homem simples:

O saber dos sonhos cria em mim o dom da palavra.

O saber das lutas cria em mim o desejo da vida.

Em verdade vos digo: ao ficarmos sós

Entraremos em contato

Com todas as raças do mundo.

domingo, 3 de dezembro de 2023

ELEFANTES BRANCOS MATAM MARIPOSAS (contos) - Rafael Rocha

 


PNEU FURADO E SEM MACACO

 

Como estão hoje os meus companheiros de há quatro décadas?

Lembro de histórias e das mais arrematadas loucuras que fizemos em bando pelas ruas do Recife e de Olinda lá pelos anos entre 1977 e 1980.

Sei que eles não mais estão a fazer aquelas farras homéricas e talvez seja uma tolice cair nesse despenhadeiro e relembrar fatos passados, mas como disse o Zeca, as histórias têm de ser contadas e, além disso, escritas.

- E quem melhor do que você para escrever elas, porra!? - perguntou Zeca.

Não sei se devo carregar a responsabilidade de escrever essas histórias, ainda que estivesse participando do grupo e me aventurando em espaços quase loucos da vida.

- Ao menos uma! - pediu Zeca.

 Sentados no bar Mustang, na Avenida Conde da Boa Vista, numa noite de sexta-feira, logo após sairmos das aulas na Universidade Católica, matutávamos para onde deveríamos ir.

Éramos cinco. Eu, Marcus, Evaldo, Henrique e Gilson.

Lá pelas tantas, ou seja, já depois da meia-noite quando nem havia mais ônibus pelas ruas, Henrique tomou a resolução.

- O Zeca disse que depois de sair da aula iria beber em Olinda. Lá no Bar Maconhão, à beira-mar do Carmo. E que se a gente quiser ir se encontrar com ele... Vamos?

Não precisou nem de votação. Unanimidade.

O problema agora seria achar transporte. Os ônibus já estavam nas garagens e não existia bacurau como hoje a funcionar de hora em hora. Ônibus agora só às cinco da matina

Apenas os táxis notívagos realizavam viagens e esses táxis eram fuscas de cinco lugares com o motorista.

- Vai ser complicado - disse Evaldo - Somos cinco e qualquer táxi só leva quatro.

- Vamos tentar com aquele táxi que está ali parado - falou Henrique – Pode ser que dê certo e ele leve nós cinco. Daqui para Olinda o cara ganha uma boa graninha.

- Problemático... problemático... - resmungou Marcus.

Eu preferi ficar calado e deixar que eles resolvessem o problema.

Henrique e Marcus foram até o táxi e falaram com o motorista por alguns minutos. Este, um senhor magro, cabelos grisalhos, olhou para a gente, pensou um pouco e aceitou.

- Tudo certo - disse Henrique - Eu disse a ele que somos gente fina, estudantes universitários e que queremos ir até Olinda para continuar a farra. Ele aceitou levar, mas fez um pedido: a gente paga um extra para ele.

Nossa sorte, naquela época, foi a de não sermos os roliços senhores que somos hoje devido à idade e às muitas cervejas. A magreza de cada um ajudou.

- Bom! - disse o motorista - O maior e mais forte de vocês vem na frente comigo. Os outros quatro se apertam no banco traseiro.

Gilson era o maior e mais forte. Ele se ajeitou na frente.

A arrumação no banco traseiro não foi muito fácil, mas conseguimos. Fiquei até a perguntar aos meus botões se nós quatro tínhamos engordado a lataria do carro por mais meio metro. Dito e feito, depois de todos se arrumarem, o fusca táxi saiu normalmente com sua carga e rumou para Olinda.

Viagem tranquila até que saímos dos limites do Recife e entramos nos de Olinda, quando, logo depois da Escola de Aprendizes Marinheiros, numa área erma, o pneu dianteiro direito estourou.

- Porra! - exclamou o motorista - Que azar! Puta merda!

Tivemos de descer do fusca.

- Vamos trocar o pneu! - disse Henrique - A gente ajuda!

O motorista coçou a cabeleira grisalha. Encolheu os ombros e falou:

- A merda é que estou sem macaco!

- Que beleza! - exclamei - Quero ver agora como vamos sair dessa! E ainda teremos de pagar a corrida até aqui.

Henrique, porém, era cheio de ideias.

- Nada disso! Com macaco ou sem macaco vamos trocar o pneu e ir para Olinda - falou.

- Como? - perguntou Evaldo.

Henrique olhou para o motorista e perguntou:

- Tem as ferramentas para desapertar os parafusos?

- Tenho, sim – apressou-se ele a dizer, abrindo o porta-malas dianteiro, pois o motor do fusca fica na traseira, e de lá retirando um montão de ferramentas, bem como o estepe.

- Ótimo! - exclamou Henrique, arrematando - Agora, vocês levantam o carro aqui do lado direito e eu retiro o pneu estourado, mas vejam bem, vejam bem, fiquem segurando o maldito fusca e não larguem o desgraçado. Não quero que essa lataria despenque em cima de mim.

Fizemos o que ele mandou fazer.

Eu, Evaldo, Gilson e Marcus erguemos o fusca. O motorista ficou ao lado de Henrique para ajudar, e este começou a agir.

Deu algum trabalho desparafusar tudo e retirar o pneu estourado porque o local estava bem escuro e o motorista usava apenas um isqueiro para clarear. De vez em quando o vento que vinha da orla marítima apagava a chama.

Mas Henrique conseguiu retirar o pneu e quando estava prestes a colocar o novo, um automóvel Galaxie preto parou ao lado e dele desceram dois homens com revólveres apontados em nossa direção.

- Parados! Polícia Federal! Fiquem parados e levantem os braços!

- Ninguém levanta os braços, porra nenhuma! - gritou Henrique, deitado no chão ao lado do pneu dianteiro tentando encaixar o pneu novo.

O motorista do táxi saiu do lado de Henrique, levantou-se e se encaminhou até os dois homens. Falou com eles durante algum tempo que pareceram longas horas. As armas continuavam apontadas para a gente.

Mas não largamos o carro. Afinal de contas, o Henrique estava lá embaixo e...

- Eles estão ajudando a colocar o pneu que estourou - explicou o motorista - Estou sem macaco e eles tiveram que levantar o carro.

Um dos homens fez a volta e foi confirmar o que o motorista falava. Olhou, guardou a arma num coldre axilar e disse para o companheiro:

- Relaxa e guarda a arma! Estão mesmo trocando o pneu! Vamos dar uma mãozinha.

Os dois vieram, e ajudaram a levantar ainda mais o fusca, facilitando o trabalho de Henrique.

Depois de tudo pronto, pneu novo colocado, carro no chão...

- Bom, vocês são rapazes corajosos. Ainda bem que fomos nós a passar por aqui. Estamos perseguindo quatro comunistas que fugiram do quartel general lá do Derby. E quando vimos vocês...

Lembro que o regime de governo da época era a ditadura civil/militar.

- Foi isso... Foi isso... - disse o outro homem - Tiveram sorte de sermos nós. Outros teriam atirado primeiro e perguntado depois.

A seguir, entraram no Galaxie preto e partiram.

Ficamos a olhar uns aos outros. Até que o motorista quebrou o silêncio.

- Como é? Vão ou não vão para Olinda?

Voltamos a nos ajeitar dentro do veículo e rumamos para a Marim dos Caetés. Já estávamos loucos para beber.

Chegando na frente do Bar Maconhão, descemos, fizemos a vaquinha e demos o dinheiro ao Henrique para ele pagar a corrida.

O motorista do táxi recebeu o dinheiro, contou, viu tudo certo, deu uma risada gostosa e exclamou para Henrique:

- Imagina! Imagina! Achar que vocês eram comunistas!

E o Henrique, com o rosto escurecido de graxa, inclusive as duas mãos, disse:

- Nunca mais você vai encontrar comunistas iguais à gente!