sexta-feira, 26 de julho de 2019

OLHOS ABERTOS PARA A MORTE – Rafael Rocha


Quinto capítulo do livro homônimo lançado no ano de 2012 – Agraciado com Menção Honrosa pela Academia Pernambucana de Letras (APL) – Prêmio Vânia Souto Carvalho (2011)
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A paz queremos com fervor / A guerra só nos causa dor / Porém, se a Pátria amada / For um dia ultrajada / Lutaremos sem temor. As vozes dos alunos na sala de aula eram abafadas pelo modo como Fernando Clemens cantava. Parecia em êxtase. Seguia o ritmo como se aquela maneira de cantar estivesse alçando-o ao paraíso. Muitos dos seus colegas paravam o canto só para olhar e escutar. De olhos fechados, mão esquerda no peito, empertigado, o magro rapaz entoava o hino como em transe de paixão. Como é sublime / Saber amar / Com a alma adorar / A terra onde se nasce! (...) Depois, o resto da manhã era dedicado à álgebra, ao latim, ao francês, à literatura brasileira e portuguesa.
Ele não tinha amigos. No recreio ficava na sala escrevendo algumas expressões aritméticas no caderno, antes de começar a aula de matemática. Seu rosto magro de nariz adunco olhava pela janela e via os outros colegas correndo, atrás de uma bola, jogando gude, lanchando. Fazia um trejeito com os lábios como se tudo aquilo fosse algo maçante e voltava novamente aos cálculos.
Não sabia, porém, o quanto era observado por Vera Lúcia. A única que muitas vezes ficava na sala de aula, no canto mais distante, lendo alguma revista feminina ou um romance. Não olhava para ela, mas a garota de vez em quando punha seus olhos no rosto dele. Ela devorava o corpo dele com os olhos. Ele não sabia de nada disso, apesar de muitos dos seus colegas o invejarem por saberem o quanto Vera Lúcia o olhava. Por saberem que ele era o centro da atenção das fantasias daquela morena, de corpo esbelto, olhos e cabelos a imitar a atriz Elizabeth Taylor.
Um dia, alguns dos alunos resolveram retirá-lo da inação em que ficava durante o intervalo das aulas. Cercaram-no. Tomaram das mãos dele o livro de latim, jogando-o no cesto de lixo. Ele nada disse. Saiu da banca onde estava sentado, dirigiu-se ao cesto de lixo e de lá recuperou o livro. No retorno à banca, escutou a voz de Clodoveu ao pé do ouvido: “Frangote! Franguinho! Veadinho!” Num átimo, um conselho de seu pai também teve eco em seu cérebro. “O maior insulto que um homem recebe é ser chamado de frango sem o ser. Quem chamar tem de receber o troco. Da forma mais violenta possível”.
Clodoveu foi atendido no ambulatório da escola com o lápis de grafite enfiado na altura da face direita. Sangrava bastante. O diretor, padre Ramalho, tentou fazer com que ele falasse. Queria saber quem tinha sido o autor da agressão. Ao lado de Clodoveu estava Fernando, que levara o colega ao ambulatório, logo após ter enfiado com toda força o lápis em seu rosto. “Não seja dedo-duro. Foi um acidente”, dissera Fernando ao pé do ouvido de Clodoveu. “E nunca mais me chame do que me chamou lá dentro”. Os outros alunos tinham visto tudo, mas seguiram o exemplo de Clodoveu e corroboraram a afirmativa do colega quanto ao acidente do lápis. 
Foi a partir desse dia que ele se tornou ainda mais solitário. Mas não reclamava disso. Ficava até satisfeito que os outros o deixassem em paz com seus cálculos matemáticos, com seu latim e seus livros. Até o dia em que seus olhos se cruzaram com os de Vera Lúcia e ele descobriu o quanto tinha de homem e de macho.

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