quarta-feira, 14 de agosto de 2019

OLHOS ABERTOS PARA A MORTE – Rafael Rocha


Sétimo capítulo do livro homônimo lançado no ano de 2012 – Agraciado com Menção Honrosa pela Academia Pernambucana de Letras (APL) – Prêmio Vânia Souto Carvalho (2011)
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“Carnaval, Carnaval, / Deixei a dor em casa me esperando / E pulei e brinquei / Vestido de rei / Quarta-feira sempre desce o pano”. Naquele domingo, 4  de março de 1962, o Recife se achava envolto no turbilhão do reinado de Momo. As ruas e avenidas da cidade, devidamente ornamentadas, explodiam em frevo, samba, maracatu, confetes e serpentinas. A alegria popular contagiava. As mesas da calçada do Bar Savoy, do Brahma Chopp, do Bar Cristal, estavam todas ocupadas pelos foliões. A cerveja rolava solta bem como as doses da cachaça Pitú, Rum Merino e Rum Montilla (bebidas da moda), acompanhados por Coca-cola e gelo, com limões cortados dentro dos copos. As mulheres, fagueiras e lépidas buscavam os olhares dos homens. Muitas moças, vigiadas pelos pais, usando todo tipo de fantasia, faziam gestos sensuais e prometedores em direção aos rapazes mais jovens.
“Se estou ficando com a cabeça branca / Não é velhice, não senhor / É muito talco dos saudosos carnavais / Jogado em meus cabelos pelas mãos do meu amor”. O frevo-canção vindo dos alto-falantes colocados estrategicamente nos postes da Rua Nova e Avenida Guararapes alcançava os ouvidos dos transeuntes. Senhores fantasiados de marinheiros. Outros de piratas. As mulheres da vida bem maquiadas se misturavam com o restante da população feminina, mas eram facilmente reconhecidas pelos machos como sendo damas de fácil conquista.
Vindos da Praça Joaquim Nabuco, tomando a direção da Rua Floriano Peixoto, passando pela Casa de Detenção, Praça Barão de Mauá, Rua do Gasômetro, e retornando pela Rua da Concórdia, até alcançar outra vez a praça Joaquim Nabuco, centenas de carros, capotas arriadas, jipes, caminhões devidamente ornamentados, repletos de foliões fantasiados ou não, faziam o corso. Sempre que estacionavam ocorriam batalhas de lança-perfume, serpentinas, confetes e dava-se início a inúmeros flertes entre ambos os sexos. Tudo em um redemoinho constante, as calçadas repletas de figurantes passageiros, turistas, habitantes, alguns a dançar o frevo ao som que escapava dos alto-falantes.
Na Praça da Independência, um grande palco tinha sido montado, onde os recifenses desafiavam a lei da gravidade, sob os acordes dos frevos de rua. Em uma mesa, um tanto distante do palco, um homem magro de nariz adunco, todo vestido de negro, observava as pessoas. De vez em quando, punha seu olhar em alguém, como se buscando talentos ignorados. Gostava mais de olhar para aqueles que discutiam por qualquer coisa. Ver os gestos sutis das violências que se desenhavam, tanto nos olhos como na linguagem corporal dos foliões. No entanto, sabia muito bem que nessa área nada iria acontecer de especial para o que tinha em mente.
Seus olhos de repente pousaram em alguém. Um imenso e forte rapaz começou a chamar a sua atenção. Ele fumava e bebia comedidamente e estava acompanhado por duas mulheres, que o homem de nariz adunco sabia serem prostitutas da Rua da Praia. Ao lado do rapaz, um homem baixo, moreno e de rosto bexiguento. Reconheceu-o num relance como um dos receptadores de objetos roubados que atuava por todo o bairro de São José. Sorriu. Quando pensava que nada iria acontecer, as coisas começavam a criar raízes. Resolveu esperar. 
Colocou seus olhos de viés no rapaz e notou que este, além de grande e forte, possuía um determinado sentido de autoridade. Algo como um poder vindo de sua força física. Devia ter quase dois metros de altura. “Muito bom! Muito bom!” Prestando atenção na conversa descobriu que eles pretendiam aproveitar a noite na sede do bloco carnavalesco Batutas de São José. Viu que as mulheres estavam apressadas. O homem magro de nariz adunco pagou a bebida que estava sorvendo, acendeu um cigarro e saiu a caminhar em direção à sede do Batutas, com a certeza de que aquele grupo ia terminar a noitada carnavalesca nesse local. Não tinha ainda plano algum. Sabia, porém, que de um momento para outro conseguiria esboçá-lo.

EPÍSTOLA AUDACIOSA E PROFANA

Prefácio escrito pelo jornalista José Carlos Gomes da Silva, Olinda/PE, para o livro “ENCÍCLICA DOS HOMENS – Encyclicae Hominum” do poeta e escritor Rafael Rocha a ser lançado neste mês de agosto de 2019
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Rafael Rocha não é um papa.
Essa constatação óbvia, a rigor não significaria nada, se ele não tivesse cometido a ousadia de escrever uma encíclica.
Isso mesmo, caro leitor!
Neste volume que você tem nas mãos estão escritos os versículos que compõem a Encyclicae Hominum (Encíclica dos Homens). E, no final dela, o poeta ainda nos brinda com belos poemas de sua lavra.
Não considere, em nenhum instante, que o gesto de Rafael Rocha é uma tentativa de aproximação com os pontífices da Igreja Católica. É preciso saber que ele não tem absolutamente nenhuma boa vontade com as religiões, sacerdotes, pastores e seus seguidores, sejam quais forem.
Pelo contrário, em muitos momentos desta Encíclica dos Homens, ele revela todo o seu desprezo pelos que vivem guiados por dogmas religiosos, de joelhos nos templos, rezando e orando pela salvação de suas almas. O poeta/escritor/jornalista desdenha dessas pessoas, chamando-as de “igrejeiros”.
Se Rafael Rocha fosse um papa esta seria a 298ª encíclica publicada. Em latim, “encíclica” significa circular.
Dirigida aos bispos e aos fiéis, é o maior grau das cartas pontifícias. Sua origem são as epístolas do Novo Testamento, e define a posição da Igreja Católica sobre temas importantes para a sociedade.
A primeira encíclica da história, Urbi primum (Primeira Cidade), foi assinada pelo papa Bento XIV, em 1740, e determinava as funções dos bispos na organização da Igreja Católica. Outras, ao longo dos séculos, serviram para denunciar erros e condenar tendências e movimentos como o nazismo, por exemplo.
Nesse sentido, a encíclica Mit Brennender Sorge (Com Ardente Preocupação), publicada pelo papa Pio XI, em 1937, assume aspectos singulares, tanto pela utilização do alemão no lugar do latim (idioma oficial das encíclicas), quanto pela sua oposição corajosa ao regime nazista. Seu conteúdo é permeado pela raiva, desprezo e escárnio, sentimentos raros nas outras encíclicas.
Outros papas também assumiram posições corajosas contra os poderosos de suas épocas, e foram capazes de produzir títulos como Rerum Novarum, Pascendi Dominici Gregis e Humanae Vitae.
Todas essas encíclicas foram publicadas em momentos importantes da história da Humanidade, buscando, de uma forma ou de outra, influenciar os acontecimentos.
Se fosse mesmo papa, Rafael Rocha provavelmente seria excomungado pela Igreja Católica. Mas como poeta e escritor o seu tiro é certeiro. Sua palavra é ácida para os igrejeiros.
Sua encíclica não veio criar regras rígidas de comportamento, não busca avivar a fé de bispos e religiosos, nem procura doutrinar, condenar erros ou ensinar sobre um tema moral de modo a informar os fiéis sobre a necessidade da fé.
Pelo contrário, a Encíclica dos Homens é libertária, terrena. Logo nos seus primeiros capítulos, ela propõe a desobediência aos dogmas religiosos.
Nesta reflexão, Rafael descreve a trajetória humana no planeta. Fala da escravidão provocada pela obediência a dogmas religiosos, do deslumbramento da maternidade, do envelhecimento, da solidão, da morte.
Sua encíclica é carnal! É essencialmente humana, portanto, muito mais divina do que aquelas escritas pelos papas católicos. Aproxima o homem do universo ao constatar que um beijo na boca nos faz vizinhos das estrelas.
Esse posicionamento retoma o eterno debate entre os defensores da salvação do homem na vida eterna, e os que propõem a abolição das diversas formas de opressão humana já na vida terrestre. Rafael não quer impor uma verdade absoluta. Para ele, cada ser humano caminha em busca da própria verdade, mas a realidade nua e crua está na inexistência de um deus.
A Encíclica dos Homens mostra que o voo do homem para as estrelas é feito através da poesia, da música, da dança, do amor, da beleza, do prazer carnal, do gozo sexual. Rafael pretende amainar a dor natural do ser humano e o seu medo da morte, quando ressalta que “a vida é única e passageira, e que apenas aqui neste planeta azul poderemos viver e sonhar e voar para as estrelas”.
Essa epístola, audaciosa e profana, espalha seu evangelho poético nos ventres e nas bocas dos homens, tornando-se uma arma poderosa na luta contra os opressores, sobretudo nestes dias em que o mundo – novamente – é seduzido por ideias totalitárias e fascistas.
O Brasil agoniza, atolado até o pescoço num lamaçal de racismo, ódio, homofobia, mentiras e perseguições. Uma atmosfera sufocante para os amantes da liberdade, que sempre estiveram à frente na luta por um mundo melhor e pela igualdade entre os homens. Não é uma simples coincidência, portanto, a reação em cadeia que é gerada em contraposição aos opressores.
De fato, ao longo da história, todas as vezes em que a sociedade se viu ameaçada em seus direitos e em sua liberdade, os intelectuais, músicos, artistas, escritores e poetas saíram em seu socorro.
Rafael Rocha chama os que participam dessa resistência de guerrilheiros da palavra, quando assinala que eles, e apenas eles, “entram em trâmites de revolta”. A Encíclica dos Homens é uma exortação à luta.
Ela busca pensar a vida dos seres humanos além das paredes e dos altos muros. Encoraja o encontro com os guerrilheiros para criar um exército de homens lúcidos.
Os guerrilheiros da palavra têm plena consciência de que não há um tempo determinado para a execução desse plano de conscientização dos homens.
A Encyclicae Hominum profetiza que uma fome voraz e incontrolável invadirá o planeta, e dinheiro algum conterá sua força destruidora, nem livro sagrado, nem crucificado, nem santos, santas, jejuns ou orações.
Trata-se de um forte e atual alerta sobre as consequências que a vida na Terra sofrerá, caso os nossos destinos permaneçam nas mãos dos que consagram a fé nos fuzis e nas armas brancas; nas mãos dos que exaltam o ódio contra as minorias e contra as classes menos favorecidas; e nas mãos dos igrejeiros que se consideram filhos de um deus onisciente.
Apesar das duras palavras, da atmosfera sombria que nos rodeia, nada de pranto, nem de lamentações. O objetivo desta Encíclica é desbravar novos caminhos. Sem esquecer que a caminhada para a construção da fortaleza da consciência e da liberdade dos homens é feita palavra por palavra, frase por frase.
O propósito de Rafael é colocar os humanos a salvo dos representantes de um deus inexistente e ilusório, e bem longe daqueles governantes que não conseguem conviver com alguém que pensa de forma contrária à deles.
A publicação de uma encíclica, quando ela aponta o dedo contra os poderosos de sua época, é uma atitude corajosa. Traz consigo verdades e acelera o coração na direção da luta, erguendo a espada da liberdade.
Esta epístola de Rafael Rocha não dita regras para bispos e fiéis, pois isso, diz o autor, não ajuda em nada à sociedade, servindo apenas para espalhar falácias e perdões hipócritas.
Sim! Esta encíclica é poderosa! Busca aprisionar os fascistas nos calabouços! Quer ser uma fênix contra a prostituição da pátria!
Sua ideia primordial é juntar centenas e milhares de poetas, e milhões de poemas para encarcerar nas masmorras os gigolôs, vendilhões igrejeiros, políticos e mercenários fascistas.
Mais do que algoz dos inimigos, a Encíclica dos Homens é libertadora. É um manifesto para a criação de um exército de homens lúcidos e livres.
Dentro do atual caos em que vivemos, precisamos criar uma nova consciência, destruir os monstros para sermos cúmplices na criação de um novo tempo neste mundo.
A Encíclica dos Homens ou, em latim, Encyclicae Hominum propõe uma troca: o ser humano deve ser colocado em todos os altares, no lugar dos santos de barro e de cerâmica, e também elevado para muito acima dos ditos livros sagrados.
Cada criatura deve ser dignificada por suas ações: “Nenhum ser humano estará acima de outro. Nenhum ser humano estará abaixo de outro”.
Os guerrilheiros da palavra sabem que para alcançar esse estado de coisas é preciso reconstruir nas consciências as lembranças vivas e naturais da Humanidade.

(JCGS)
Olinda/PE, junho de 2019

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

VIDA ENLATADA – Rafael Rocha


Do livro “Abismo das Máscaras” – 2017
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As mulheres da cidade são elas e não são elas.
Fazem de conta que são elas
nos movimentos ritmados dos traseiros
com o cuidado de movê-los
para serem vistos.
As mulheres das ruas da cidade
querem ser olhadas.

Alegra-me saber o tanto que tem
de mulher nas ruas
para olhar e sorrir e desencantar
todas as vezes de quando a noite se encanta
e de quando as tardes estacionam no poente
elas abrem a vida nas paradas dos ônibus
com movimentos súbitos e poéticos
de seios e bundas
como janelas abrindo e fechando.

As calçadas do bar Savoy tinham mesas e cadeiras
e cervejeiros e prostitutas e outras mulheres
indo e passando e indo e vindo.
Mas isso aconteceu na época dos dinossauros.
O bar Savoy morreu de sífilis
e as mulheres não estão mais indo e vindo
na passarela das suas mesas e cadeiras.

E depois das vinte horas
os gatos são mais pardos e as mulheres
não estão mais nas ruas indo e vindo.
Na verdade elas são elas e não são mais elas.
Suas vidas agora ficam em frente às telas das TVs
enlatadas e acondicionadas
em novelas e em novelas e em novelas 
como mortas sem cemitérios.

ESTÁTUAS VIVAS - Rafael Rocha

Do livro “Meio a Meio” – 1979
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Os homens estão perdendo as auroras
na noite negra que desaba sobre o mundo.

Junto a que ideal anda a palavra da ordem
para essa dor que rola aos nossos pés?

Palácios são erguidos aos caudilhos da terra
e o construtor de estátuas perde-se no crepúsculo.

As faces dos homens andam iguais a pedras.
Por que eles estão distantes?
Por que eles estão tão frios?

De hora à outra as auroras adormecem
e uma noite escura desaba sobre os homens.

Apenas uma ansiedade envolve a história
num surto de gritos e gemidos e belicismos.

E mesmo com os olhos buscando o orvalho
os homens ficam a vagar no frio do inverno.

E palácios são erguidos...
Palácios são erguidos aos caudilhos da Terra!
E os lapidadores da pedra dormem sob a lama!

Por que eles não acordam?
Por que são tão frios como as estátuas?

A DESCOBERTA - Rafael Rocha

Conto inserido no livro “O Espelho da Alma Janela” (2009) agraciado pela Academia Pernambucana de Letras (APL) em 1988, com o Prêmio Leda Carvalho.

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Ele e ela na calçada uniram as bocas num demorado beijo. Era noite e nuvens negras escondiam a lua. Os corpos se apertavam um ao outro. Depois, quando o beijo acabou, ele viu que ela estava chorando. Baixou a vista. Notou o quanto ela estava longe dele. Aproximou seus lábios aos dela e ao beijá-la sentiu o sabor das lágrimas. – Por quê? – perguntou ela. – Porque a vida é assim! – respondeu ele, dando-lhe as costas e caminhando para o táxi que o esperava do outro lado da rua. Ela ficou a olhá-lo enquanto ele partia e depois jogou na sarjeta duas alianças, abriu o portão, entrou correndo em casa, jogou-se sobre a cama, chorou um pouco e adormeceu. Pela manhã, foi acordada com a carícia em seu rosto feita pelas mãos de um senhor enrugado e perto dos 70 anos. Levantou-se, olhou-se toda no espelho, penteou os cabelos brancos e se dirigiu à cozinha para preparar o desjejum. Descobriu nesse instante que ainda estava viva.

VERSOS DESTILADOS – Rafael Rocha

Do livro “Marcos do Tempo” – 2010
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Deste meu lugar destilo os versos de minhas fibras
Aos braços das mulheres ansiosas por meu canto.

Não só tão ansiosas, mas ainda repletas de desejos
E loucuras de carne e beijos e repetidas carícias.

Tenho a mulher como um espaço poético maciço
Loura, negra, branca... Todas têm segredos fixos...

E do jeito que as quero nos meus sonhos da vida
Quero-as no real de mim presas em minha caminhada.

Corpo de mulher! Que desvario para minhas noites!
Cheiros, maciezas, umidades de pelos e de lábios.

Assim como as margens de um rio recebem ondas
Meu corpo recebe as mesmas carícias dos desejos.

Deste meu lugar escrevo os versos concretos de mim
Para os olhos das belas ninfas ansiosas pelo canto.

Não apenas ansiosas elas são. São todas ansiadas.
Seus beijos e seus anelos. Seus ventres e suas almas.

Corpo feminino a se mostrar aberto aos meus anseios.
Deglutirei o sabor dos seios e o sal de tuas vísceras.

Corpo feminino a espelhar risos e outros encantos
Mergulharei rijo para conhecer teu interior secreto.

Deste meu lugar o corpo anseia por gestos obscenos
Numa cama e entre as macias pernas da fêmea agitada.

Deste lugar um oceano recebe ventos de tormenta
E naufragam meus navios nas procelosas vagas.

Quando ficas calma, corpo de mulher, és terra macia.
Onde o náufrago desliza na busca da sobrevivência.

Antes pensar em sobreviver morrendo dentro em ti.
Antes pensar em morrer sobrevivendo em teu plano.

Ainda que o poeta deva acreditar no plano próprio.
Homem que sabe ver a tua miragem no oceano.

E por mais poeta a definir ventos tempestuosos
Seja o homem o espelho e a transmutação do canto.

Canto venéreo. Canto sexual. Canto livre e sem árbitro.
Sejas tu, mulher, o destino. Sejas, tu, o último parto

Onde eu possa mergulhar em cheiros e umidades novas
E repartir contigo estes versos lúcidos e suados.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

DEDO NA SOPA – Rafael Rocha

Do livro “Contos Delirantes com Versos em Bolero” – 2017
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Eu caminhava pelo centro da cidade do Recife.
Não tinha nada para fazer nessa quarta-feira.
Entrei pelo Cais de Santa Rita, pelo camelódromo fedorento e cheio de barracas que tornam horrorosa a paisagem.
A brisa vinda do oceano e do rio tornava o dia quente um pouco mais aconchegante.
Parei em uma daquelas barracas do camelódromo, sentei à mesa e pedi uma cerveja.
Depois de ser atendido por uma mulher gorda e morena, acendi um cigarro e tomei um gole.
A mulher gorda atendeu outra mesa, trazendo uma sopa de peixe para um senhor careca e magro.
Notei que ela estava com o dedo polegar dentro do prato, tocando na sopa.
Desviei a vista. Não era da minha conta.
Logo a seguir, a mulher gorda sentou-se quase em frente a mim, puxou um banquinho de madeira e começou a cortar as unhas dos pés, deslizando o polegar de vez em quando por entre os dedos.
Senti o fedor do chulé no ambiente.
Devido à sua redondez, ela tinha dificuldade de alcançar os dedos dos pés e quando conseguia cortar uma unha ou limpar a sujeira entre os dedos, dava um longo suspiro de alívio.
Depois que ela terminou de cortar as unhas, fez um enorme esforço para se levantar e se recompor.
Pedi outra cerveja. Ela trouxe e perguntou:
- Não vai comer nada?
Disse que não. Queria apenas beber.
- A sopa está muito gostosa. Você vai adorar. Temos sopa de carne e de peixe.
- Deixa pra lá. Quero apenas beber. Estou de barriga cheia. Almocei faz pouco tempo.
Outro freguês pediu um prato de sopa de carne e ela foi buscar.
Notei que ela estava novamente com o dedo polegar dentro do prato e tocando a sopa.
- Será que ela lavou as mãos? - perguntei aos meus botões.
Pareceu até que ela tinha escutado, como se eu tivesse falado em voz alta, porque de repente olhou para mim e sorriu, mostrando uma boca com vários dentes quebrados e alguns bem enegrecidos.
Para tapear, devolvi o sorriso de volta e então ela resolveu retornar até minha mesa, parou ao lado e perguntou:
- Não quer mesmo comer nada? Nem uma sopinha?
- Nada! - respondi.
Após receber minha resposta ela voltou a sentar no banquinho à minha frente e começou de novo a coçar os dedos dos pés, arrancando devagar a pele suja que tinha se acomodado entre eles.
Retirei a vista e resolvi ficar bebendo. Apenas bebendo e fumando e pensando nos meus problemas e no romance que estava quase a terminar de escrever. No entanto, com ela sentada no banquinho na minha frente, mexendo nas frieiras dos dedos dos pés, os meus pensamentos se idiotizavam em nojo.
Resolvi sair dali. Paguei as cervejas e me retirei do camelódromo do cais de Santa Rita.
Porém, ainda estava com vontade de beber. Afinal de contas, a tarde era longa e eu não tinha mesmo nada para fazer. Então encaminhei meu corpo até o Pátio de São Pedro, entrei no Buraco do Sargento, pedi uma cerveja gelada. A morena que me atendeu era dessas de fazer o diabo ganhar mais chifres. Linda demais. Corpo feito um violão. Pernas... Ah! Que pernas!
Ela sorriu para mim ao ver o quanto eu olhava para ela.
- Vai apenas beber? Quer comer alguma coisa?
- Depois... depois... depois... - respondi, sem tirar os olhos do corpo dela.
Fiquei a beber minha cerveja e a fumar meu cigarro, continuando a fitá-la.
Então não aguentei e a chamei:
- Como é o seu nome? - perguntei.
- Tânia - respondeu ela.
- Olha, Tânia, acho que vou tomar um prato de sopa de peixe. Tem?
- Temos sim, querido! Temos!
Enquanto esperava a sopa pedi outra cerveja e fiquei a beber.
Dez minutos depois vejo Tânia trazendo a sopa e com o dedo polegar dentro do prato a tocar a sopa. Sorri para ela. Nem quis imaginar onde ela tinha colocado o dedo polegar antes de me trazer a sopa. 
Afinal, era outro dedo e era outra mulher.

CANÇÃO AO VENTO – Rafael Rocha

Do livro “Sangramento” incluído na coletânea “Poetas da Idade Urbana” - 2013
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O vento sabe voar quando deseja
Fazer a noite fria. Fazer o dia ameno.
Sabe escarnecer nos galhos das árvores
Estacionando como se farto de voar.
Até parece uma mulher volúvel
Nos instantes onde se precisa achar
Uma pequena brisa no ar.

E ao precisar do vento a vida sua
Pelos poros com as intensidades.
O calor ferino se agarra à pele
Seja hora de sol. Hora de lua.
E a rima da poesia mais secreta
Geme ao nordeste sem vontade de ser
Tentando a aragem fria das tardes.

E um outrora sempre se faz de invasor
A abraçar minha agonia de poeta
Farto dos pesares do calor.
O ritmo do verso se entreabre
Marcado pela busca do frio
Desejando tornar-se ventania
A brincar com a futura tempestade.

Melhor deixar o sono vir
E dormir, dormir...