terça-feira, 23 de julho de 2019

A ÚLTIMA DAMA DA NOITE – Rafael Rocha

Terceiro capítulo do romance lançado no ano de 2002
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A notícia alcançou a consciência do padre Ferrari, trazendo à sua mente a lembrança de um passado que ele gostaria de ver esquecido para sempre. Saiu do confessionário e se dirigiu até um dos bancos da igreja, onde, ajoelhado, começou a rezar. Severina Amor ficou a observá-lo.
Por sinal, ela o conhecia muito bem. Já mergulhara e sondara as suas epidermes quando ele - imberbe seminarista - a procurara no desespero, fugindo das garras e dos anseios de paixão do viado Hely D’Anjour, conhecido na área portuária como Roberta Cucu, que sempre tentava contatar jovens rapazes e levá-los a um dos quartos da boate Chantecler para conhecerem os mistérios e as fantasias sexuais dos homos.
Severina Amor lembrava sobre como conseguira espantar aquele frango safado, usando para isso ferozes artifícios de mulher da vida e seu instinto maternal, mesmo sem nunca ter gerado um filho.
Ameaçando furar a barriga do viado com um punhal, Amor levou o jovem Luiz ao seu quarto, no primeiro andar da casa de número 43 da Rua Vigário Tenório, tomando-o aos seus cuidados, mostrando-lhe os prazeres normais do sexo e acarinhando-o como um bebê recém-saído das fraldas e ainda não pronto para enfrentar as vicissitudes do mundo.
O jovem seminarista, enviado por D’Anjour a espaços sexuais febris e insinuantes, nunca imaginara o deslizar em carnes femininas tão diverso do apreciado nas mãos do viado, e se deixou levar muito mais longe do que permitiam seus limites.
Assim, esqueceu as sabatinas religiosas e a rígida disciplina do seminário de Olinda, onde estudava, conhecendo reentrâncias e entrâncias, formas suaves e redondas, sinuosas e escorregadias, até centenas de astros brilharem no escuro quarto da pensão, enviando-o para um espaço muito acima daquele das orações a Deus, à Virgem Maria e ao Crucificado.
Conheceu Maria Rosa no dia seguinte à noite “pecaminosa” com Severina Amor.
A mulher chamou sua atenção por ser extremamente bela e branca, numa brancura contrastante com seus grandes olhos, onde o azul dardejava sonhos nas paredes sujas da pensão.
Olhos, com insinuantes brilhos dos felinos habitantes dos telhados, e com tormentos interiores tão profundos, que o jovem seminarista achou de bom tom dizer-lhe quem era e como estava perdido na encruzilhada da vida, sem entender os sentimentos contraditórios a invadir seus anseios, levando-o ao outro caminho, onde Lúcifer mandava e desmandava.
– Pecado é num sabê o que é o gosto do mundo, meu !... – disse a madame para ele.
Quando o rapaz se abriu por completo, dizendo que toda sua vida tinha sido entregue a Deus, pretendendo tornar-se padre, a mulher soltou uma gargalhada com sabor de glosa, retrucando:
– Deus sabe mermo o que faz. Ora, como sabe! Taí o resultado... Um futuro padre na casa da madama, quase perdido na roupinha de seda do frango. Ora, ora... Deus sabe mermo o que faz!
– Não estou entendendo...
– Benzinho, isto por cá é a zona. Num é a casa da tua mãe ou do teu pai não, visse? É a zona! Aqui os ômes vêm pra fuder, vadiá, enfiá os dedos e as línguas nas pererecas da gente e outros vêm inté pra queimar o fiofó.
– Virgem santa!...
– Tem tipo pra tudo nesse cafofo, meu ! Se Deus manda um futuro padre por cá, é porque sabe muito bem o que tá fazendo, visse? Onde já se viu padre ouvir confissão e perdoá pecado sem sabê o que é fuder, tomá no cu e chupá perereca como se chupa manga e caju?
– Eu... Bem, eu...
Num porcupe a entender. Ele escreve certo por linha tortas. Ele é Deus, meu !... No futuro... Lá no seu futuro... Espero que você tenha compreensão e lembre do que aprendeu pras bandas de cá.
– Será? É um meio de aprender estranho. É um aprendizado esquisito...
– A gente aprende a vida nas esquisitices dela merma, meu !... Se as coisas não fosse esquisitas, ôme num nascia da barriga da muié, saía pelos óios...
O padre Ferrari ergueu os olhos até o altar-mor e seus lábios balbuciaram uma prece que dona Biu não assimilou qual pudesse ser. Depois...
Ele colocou os olhos nela e ela viu a mansidão de alma em que ele se tinha transformado. Viu as suas rugas e a dentadura postiça, logo após um sorriso meio torto e tímido.
A voz do padre parecia vir de muito longe: 
– Seja feita a vontade de Deus, minha filha. Vamos, então. Vamos preparar as coisas e encomendar a alma daquela pobre mulher ao Criador.

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